Boa Midia

MT: Verso e reverso (114) – Rogério Salles

Eduardo Gomes

@andradeeduardogomes

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Capítulo 114 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza Rogério Salles.

Historicamente pelos registros jornalísticos e a oralidade, a Operação Arca de Noé, que desmontou o império do jogo do bicho em Mato Grosso é creditada ao ex-procurador da República, Pedro Taques, e ao então juiz federal Julier Sebastião da Silva, mas a verdade é outra.

Hoje Cuiabá nega com convicção labial, mas durante anos a elite e o poder mato-grossenses concentrados nesta capital tricentenária vibravam quando conseguiam um minutinho ao lado do ex-policial civil transformado em comendador, no Comendador João Arcanjo Ribeiro, dono do jogo do bicho, dos cassinos, de poderosas factorings e empreendimentos que englobavam – ou ainda englobam? – várias atividades na ensolarada Terra de Rondon.

O Comendador Arcanjo reinava absoluto. Em público, nas entrevistas, nas solenidades e nas missas das cinco na bicentenária Igreja do Rosário e São Benedito, em Cuiabá, seu semblante era o mais cândido possível. Não se via segurança à sua volta. Não tinha gestos bruscos. Não portava arma ostensivamente, se é que carregava um trabuco na cinta ou na canela.

Seu título foi apenas mais um mimo da classe política que tanto o cultuava. É, o Comendador Arcanjo era cultuado. Em 1987, quando vereador por Cuiabá, Marcelo Ribeiro  concedeu-lhe a Comenda da Ordem do Mérito, que criou a auréola rotular, com a qual passou a se identificar e a ser identificado: Comendador Arcanjo. Depois, o vereador Wilson Coutinho deu-lhe o Título de Cidadão Cuiabano, com o sim unânime de seus pares. A honraria maior viria em 5 de dezembro de 1997, quando o deputado Paulo Moura o presenteou com o Título de Cidadão Mato-grossense, com a Mesa Diretora e o plenário da Assembleia de pé, aplaudindo freneticamente.

Pena que depois da queda do império do Comendador Arcanjo a Câmara tenha cassado sua comenda da Ordem do Mérito e a Cidadania Cuiabana, que tão bem lhe caíam e o faziam a cara da vereança de Cuiabá.

Por volta das 15h da segunda-feira 30 de setembro de 2002, na rua Professora Tereza Lobo, em Cuiabá, defronte ao jornal Folha do Estado, o empresário Domingos Sávio Brandão de Lima Júnior, dono e fundador daquele periódico, foi executado a tiros e o império do Comendador Arcanjo começou a desmoronar.

O assassinato de Sávio Brandão foi debitado ao Comendador Arcanjo, que era denunciado pela Folha do Estado de ser chefe do crime organizado em Mato Grosso.

O sangue de Sávio Brandão clamava por justiça, mas Mato Grosso se fazia de morto. O assunto era tratado com cautela pela indefesa população. Não havia nenhum indício de que o assassinato seria passado a limpo, nem se notava nenhuma movimentação no sentido de se chegar ao Comendador Arcanjo.

O então governador tucano Rogério Salles sentiu que precisava tomar providência antes que o crime organizado saísse da penumbra e assumisse de vez as rédeas do Estado. No começo de outubro de 2002, Rogério foi recebido em audiência pelo ministro da Justiça, Renan Calheiros, para falar sobre a violência em Mato Grosso.

O governador disse ao ministro que a situação era insustentável, que MPF, MPE e a polícia tinham conhecimento do quadro e que faltava apenas uma operação para desmantelar o crime organizado antes que fosse tarde demais.


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Renan tentou contemporizar. Rogério foi curto e grosso: “Esta aqui é a chave do meu gabinete. Ou o senhor conserta Mato Grosso ou manda alguém para assumir o governo”. Renan deu um sorriso amarelo.

Menos de meses depois da audiência a Operação Arca de Noé desmantelou o esquema do Comendador Arcanjo, que fugiu para o Uruguai, onde foi preso.

O ex-homem forte insiste que não mandou matar Sávio Brandão. Também negou que tivesse cometido outros crimes, mas acabou enrodilhado por um cerco muito poderoso. Sua situação é complicada: foi condenado até por posse ilegal de um revólver e a pena foi aplicada açodadamente antes que o Estatuto do Desarmamento estivesse vigorando, o que levou a justiça a revogá-la.

Numa busca e apreensão da Arca de Noé numa das factorings do Comendador Arcanjo, em Cuiabá, o MPE encontrou 22 notas promissórias emitidas em 1999 e 2000 pelo então presidente da Assembleia Legislativa, Humberto Bosaipo (PL), e o primeiro-secretário José Riva (PSDB), com valores de R$ 700 mil ou pouco mais ou menos que essa importância, que juntos perfaziam R$ 15,4 milhões. Bosaipo fez silêncio sobre a apreensão. Riva alegou que se tratava de caução por um negócio que não foi realizado. O favorecido encontrou justificativa comercial. Em resumo: tais promissórias podem ser consideradas fortes indícios da relação do ex-homem forte com o poder político mato-grossense.

O à época procurador da República Pedro Taques soube tirar uma casquinha da Operação Arca de Noé, mudou-se para as páginas dos jornais e dos sites e por tempo virou manchete crônica das TVs e do rádio. Depois se elegeu senador e governador. Resumo: Cuiabá ficou livre do Comendador Arcanjo, mas em compensação Mato Grosso ganhou um governador que não governava, porque dentro dele vivia um procurador da República, como ele próprio reconheceu e admitiu, mas sem dar a mão à palmatória sobre sua omissão no caso que levou Rogério a jogar a chave sobre a mesa de Renan.

 

ELE – José Rogério Salles, o Rogério Salles, nasceu em 18 de junho de 1953 na então vila de Marmeleiro, que pertencia a Francisco Beltrão (PR). Em 25 de junho de 1960, Marmeleiro emancipou-se de Francisco Beltrão, Clevelândia e Pato Branco. Portanto, a naturalidade de Rogério Salles é creditada à Francisco Beltrão, mas considerando-se a criação do município de Marmeleiro, ele é natural daquela localidade.

Rogério Salles é empresário, produtor rural, contador, economista, tem curso de especialização em Economia Rural e MBA em Treinamento de Altos Executivos. É filho do casal pioneiro no cultivo de soja em Mato Grosso: Albina e Adão Riograndino Mariano Salles.

Rogério Salles venceu e foi derrotado nas disputas eleitorais. Exerceu dois mandatos de vice-prefeito e um de prefeito de Rondonópolis; foi vice-governador e governador. É casado com a ex-vice-prefeita de Rondonópolis Marília Ferraz de Souza Salles.

PS – Continuem lendo a série. Amanhã (3), o capítulo 115.

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