Boa Midia

MT: Verso e reverso (110) – Dr. Eugênio

Eduardo Gomes

@andradeeduardogomes

eduardogomes.ega@gmail.com

 

Capítulo 110 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o deputado estadual Dr. Eugênio, pré-candidato à reeleição pelo Republicanos.

Dr. Eugênio é o nome parlamentar de José Eugênio de Paiva, mineiro do distrito de Córrego do Ouro, município de Campos Gerais, na região Sul, à margem do lago de Furnas, onde teve infância de menino pobre, ora ajudando o pai, José Júlio de Paiva, em seu estabelecimento comercial, ora vendendo picolés, trabalhando de operário, gráfico e jornaleiro numa banca de jornais. Incentivado pela mãe, dona Iria de Souza Paiva, cursou Medicina, formou em 1995 e fez especialização em anestesiologia. Em 1997, em busca de horizontes no Centro-Oeste, Dr. Eugênio chegou ao Vale do Araguaia por Barra do Garças, rumou para Água Boa, de onde nunca mais saiu, salvo para o exercício da Medicina em Canarana, além do Parque Indígena do Xingu e outros territórios de etnias aldeadas no Araguaia; em Água Boa ele participou da criação do Hospital Regional Paulo Jacob Thoma, chamado de Paulo Alemão.

Mato Grosso, terra distante de Minas e estranha para o jovem Dr. Eugênio, de 30 anos, embalado pelo sonho com a Medicina, e ele não estava sozinho, pois veio acompanhado pela namorada que pouco antes levou ao altar, Patrícia Figueiredo Paiva e o casal ganhou duas filhas mato-grossenses: Ana Luiza, nascida em Canarana, e Maria Eduarda, em Água Boa.

Em 2012, depois de 15 anos atuando na Medicina em Água Boa, Dr. Eugênio atendeu a um pedido plural para se candidatar a vereador naquele município. Plural porque partiu de várias pessoas, e ele subiu nos palanques, mas sem deixar de lado o jaleco branco, pois é possível conciliar as duas atividades.

Eleito vereador pelo PSB cumpriu um mandato em defesa da população e do município. Em 2016, pelo PSB, Dr. Eugênio aceitou um grande desafio: disputar a prefeitura concorrendo com o prefeito Maurão Rosa (PSD) que se lançou à reeleição tendo a máquina municipal nas mãos. O resultado foi o esperado, com Maurão sendo reeleito.

Sem mandato, Dr. Eugênio voltou a se dedicar exclusivamente à Medicina. Porém, em 2018, irremediavelmente ‘contaminado’ pela política, ele disputou a venceu a eleição para deputado estadual pelo PSB com 13.458 votos, sendo o único nome do Araguaia eleito para o cargo naquele pleito. Quatro anos depois, Dr. Eugênio tentou a reeleição, pelo PSB, cravando 25.907 votos e permanecendo na condição de representante isolado de sua região na Assembleia.

Novamente ele está na estrada. Busca novo mandato, agora filiado ao Republicanos, partido para o qual migrou em razão de sua afinidade política com o governador Otaviano Pivetta, que é pré-candidato a novo mandato pelo Republicanos.


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Pela regionalização de seu mandato, Dr. Eugênio consciente ou inconscientemente cria de modo eficaz, porém informal, a representação regional, que mais dia menos dia surgirá com a instituição do voto distrital. Ele é a única voz do Araguaia na Assembleia, e a levanta de modo permanente, consistente e eloquente. Sem ele, muito provavelmente a região estaria à deriva junto às esferas do poder.

Cubro a Assembleia há algumas décadas. Antes do Dr. Eugênio nunca vi tamanha defesa do Araguaia como ele faz. Não sei se na região a população tem conhecimento de sua atuação, de modo a entender a importância da mesma.

Creio que neste período pré-eleitoral, que é onde as campanhas chegam aos cidadãos, o  Araguaia terá dificuldade para diferenciar o trabalho do Dr. Eugênio, dos vídeos gravados por tantas pré-candidaturas que se mostram com doçura angelical beijando crianças, abraçando velhinhos, focalizando o histórico dos municípios, assumindo bandeiras simpáticas, apontando falhas e tecendo críticas políticas. Isso, por conta da massificação das figuras políticas nas redes sociais. Pondero que quanto a isso é preciso analisar indo além da propaganda, refletir com calma para comparar entre a atuação do Dr. Eugênio e a pirotecnia cênica pelo voto.

A região que antes era chamada de Vale dos Esquecidos saiu da posição de retaguarda para a vanguarda, que é o lugar reservado a ela por uma série de fatores, mas que para tanto precisou da defesa política e institucional que o Dr. Eugênio faz enfrentando o canibalismo regional que dispensa tratamento a menor para o Araguaia. Mesclando firmeza e habilidade o Dr. Eugênio faz do Araguaia sua bandeira, de tal modo, que às vezes fica com o ônus político por algum posicionamento governista, mas o faz mesmo com a consciência do desgaste porque do outro lado estão as demandas de sua região.

Lamento que num colegiado com 24 cadeiras nenhum dos parlamentares se inspire no Dr. Eugênio para a defesa exclusiva de suas regiões, pois todos, indistintamente, têm o olhar sobre os 142 municípios, que é onde residem os eleitores mato-grossenses.

Poderia citar muitas ações do Dr. Eugênio que resultaram em conquistas para o Araguaia, porém falarei apenas sobre duas:

Ambientalistas com apoio de segmentos do governo tentaram engessar o desenvolvimento do Araguaia sob o argumento de que boa parte da região tinha áreas úmidas consideradas pantaneiras; a luta do Dr. Eugênio contra essa tentativa foi dura, longa e em muitos casos discreta, pois envolvia queda de braço político, resistência ambiental e do Ministério Público Federal, da maioria da mídia e de interesses econômicos grupais – porém a venceu. Ninguém melhor do que a população para falar sobre isso.

A travessia do rio das Mortes era assim

Várias vezes fui de Cuiabá a Cocalinho pela rota goiana por Aragarças, Montes Claros de Goiás, Santa Fé de Goiás, Britânia e a vila de Itacaiú, pois no período chuvoso o trânsito na MT-326 era interrompido – pela MT-100, via Araguaiana, então nem pensar. Graças ao Dr. Eugênio o governo ligou Água Boa a Nova Nazaré e Cocalinho pelo asfalto na MT-326 e retirou de cena as balsas que faziam a travessia do rio das Mortes construindo a Ponte da Integração José Monteiro Guimarães, com 483 metros de extensão.

Sobre a ponte da Integração José Monteiro Guimarães, duas considerações: primeiro que seu nome foi escolhido democraticamente pela população numa enquete eletrônica sugerida e conduzida pelo Dr. Eugênio. Mais: no final da décadas de 1990 quando Dante de Oliveira era o governdor, Mato Grosso obteve empréstimo no italiano Banco San Paolo di Torino, com apoio da ONU, pelo programa de Perenização de Travessias, para construir 53 pontes de concreto. A ponte sobre o rio das Mortes foi relacionada, mas os recursos que deveriam ter sido canalizados para ela foram transferidos para suplementar a construção da estaiada Ponte Sérgio Motta, sobre o rio Cuiabá ligando a capital e Várzea Grande; à época o Araguaia não tinha voz na Assembleia e a região permaneceu por mais de 20 anos enfrentando as balsas.

Político sempre está exposto. Em 2025 uma matéria do UOL apontou que 14 deputados estaduais estariam envolvidos com um esquema que teria desviado milhões de Assembleia com a compra superfaturada de kits para a reforma agrária com execução pela Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (Seaf); o nome do Dr. Eugênio foi relacionado e ele não aceitou a pecha. Em 17 de junho do ano passado, postei neste blog um texto em que o deputado negava envolvimento: “Tirem meu nome disso. O desabafo é do deputado estadual Dr. Eugênio (PSB), que foi relacionado junto a outros deputados que segundo apuração preliminar da Polícia Civil estariam envolvidos num esquema de desvio de recursos públicos, por faturamento, na compra de kits para a agricultura familiar por meio de emendas parlamentares. A apuração foi revelada na superficialidade pelo portal UOL, um dos maiores do país. O deputado explicou que destinou 1,69 milhão de uma emenda parlamentar para a compra de kits para a agricultura familiar nos municípios de Nova Xavantina, Água Boa, Canabrava do Norte, Porto Alegre do Norte, Confresa, Nova Nazaré e Cocalinho, todos no Vale do Araguaia, que é sua base eleitoral. Porém, o parlamentar destacou que o montante foi repassado à Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (Seaf), cujo titular era Luluca Ribeiro, e que a compra foi efetivada pela Seaf, sem nenhuma participação dele e de seu gabinete. “Para passar esse caso a limpo é preciso investigar a Seaf”, defendeu”.

A postagem da matéria acima foi apenas uma informação jornalística sobre a denúncia e a reação do deputado, que pediu em todos os canais e instâncias que excluíssem seu nome e que apurassem o fato. Numa reação de inconformismo, o Dr. Eugênio chorou e pediu ao controlador-geral do Estado, Paulo Farias, que retirasse seu nome e enviasse uma carta às suas filhas, pedindo desculpas pela citação indevida do seu nome.

A onipresença parlamentar do Dr. Eugênio no Araguaia é visível, tanto quanto é visível a transformação da região que acontecerá quando todas as plantas de produção de etanol de milho em instalação estiverem em processo produtivo; quando o trem a FICO apitar em Cocalinho, Nova Nazaré e Água Boa; quando for construído o trecho da BR-080 da ponte sobre o Araguaia em Luiz Alves (de São Miguel do Araguaia/GO) a Ribeirão Cascalheira; quando o contorno da BR-158 na Terra Indígena Marãiwtsédé for consolidado via Bom Jesus do Araguaia, Serra Nova Dourada e Alto Boa Vista; quando a Transbananal criar um corredor entre São Félix do Araguaia e a Belém-Brasília; quando São José do Xingu se ligar por asfalto a Matupá à margem da BR-163; quando o Hospital Regional do Araguaia, em Confresa, estiver em operação; quando o Hospital Regional de Barra do Garças sair do papel; quando o mosaico fundiário rural e urbano estiver regularizado; e quando tantas outras demandas forem atendidas. Para tantas conquistas assim e todas imprescindíveis, será preciso que a região tenha a voz serena e firme, permanente e vigilante, respeitada e altiva do Dr. Eugênio na Assembleia, onde é chamado de Deputado do Araguaia.

Gostaria que as diversas regiões do nosso Mato Grosso plural elegessem deputados identificados com elas, para que todos os rincões se fizessem representar na Assembleia, o que resultaria num desenvolvimento com menos desníveis sociais e econômicos e num Estado que realmente seja o espelho de sua gente.

PS – Continuem lendo a série. Na segunda-feira (29), o capítulo 111.

Em capítulos anteriores a série focalizou:

Zé do Pátio (PV federado com o PT e o PCdoB)

Neri Geller (Podemos)

Nilson Leitão (UP)

Dilmar Dal Bosco (UP)

Procurador Mauro (PSD)

Lúdio Cabral (PT federado com o PCdoB e o PV)

Valdir Barranco (PT federado com o PCdoB e o PV)

Gisela Simona (UP)

Moisés Franz (PSOL)

Cezare Pastorello (PT federado com o PCdoB e o PV)

Natasha Slhessarenko (PSD)

Gilberto Cattani (PL)

Victorio Galli (Podemos)

Carlos Ernesto Augustin, o Teti (PSB)

Wellington Fagundes (PL)

Carlos Fávaro (PSD)

Rosana Martinelli (MDB)

Thiago Silva (MDB)

José Medeiros (PL)

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