Boa Midia

MT: Verso e reverso (113) – Gaúcho

Eduardo Gomes

@andradeeduardogomes

eduardogomes.ega@gmail.com

 

Capítulo 113 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza  Henrique Lopes de Lima, o Gaúcho.

Em meados dos anos 1970 o Rio Grande do Sul se dividiu entre os que o deixaram por Mato Grosso e os que ficaram. No município de Lagoa Vermelha, Henrique Lopes de Lima resistiu até não poder mais para ficar junto ao segundo grupo, mas foi vencido, tchê! Apertado e em busca de espaço para criar a família com dignidade, pegou a estrada e veio para ‘o’ Mato Grosso.

Com a mulher e oito filhos pequenos para criar, Henrique apeou à margem da BR-163 na Serra do Cachimbo, depois de uma penosa viagem num surrado Fusca que ele gauchescamente chamava de Fuca. O sol ainda ardia apesar do adiantado da hora a um passo da boca da noite quando seus pés tocaram o chão encharcado pela chuvarada. A paisagem que se via era mata de um lado e outro com um corredor de barro que era a BR-163, recém-inaugurada. O calendário marcava: Domingo, 14 de novembro de 1976. Naquele dia nasceu a Vila Gaúcho, o último núcleo urbano mato-grossense antes do Pará.

Um improvisado rancho abrigou a família Lima. A estrada era quase deserta, mas nas primeiras horas após o desembarque alguns aventureiros a cruzaram nos dois sentidos. Henrique mal desembarcou providenciou uma mesa rústica sobre a qual botou suas ferramentas de trabalho: garrafas de cachaça, gengibre, Conhaque Presidente, vinho do Vale dos Sinos, salame de combate, biscoitos e algumas carteiras de cigarro Hollywood e Minister que cruzaram o Brasil até aquele local. No buraco que dava acesso ao interior do barraco uma placa escrita com letras tortas numa tábua não deixava dúvida que aquele era um “Bar e Restaurante”.

Pouco tempo após escurecer o Bar e Restaurante sem nome saiu da opaca luz de lamparina para um clarão bonito: eram os faróis de uma Kombi, barulhenta pela falta do escapamento perdido na buraqueira parou bem em sua única porta – se é que aquilo podia ser chamado de porta.

– Ó vivente! – gritou o motorista, já com os pés no barro.

– Entre que a casa é tua, tchê! – Respondeu o dono do estabelecimento saindo ao seu encontro.

– Tu és novato por aqui! Qual é o teu nome e de onde vens? – cutucou o motorista.

– Sou Henrique Lopes de Lima, venho do Rio Grande e meu primo Jairo é cabo do 9º BEC.

– Aqui tu não és Henrique coisa nenhuma. Tu és o Gaúcho, índio velho e seja bem-vindo ao fim do mundo – corrigiu.

– E qual a tua graça, gaudério? – quis saber o comerciante.

– Sou o Gaúcho da Kombi!

– A casa é tua, xará…

Enquanto os dois travavam o diálogo, os demais ocupantes da Kombi desembarcaram e foram os primeiros fregueses do bar e restaurante no fim do mundo. O motorista explicou que levava um grupo de peões que prestava serviço ao 9º BEC, para votar em Sinop. “É que amanhã é dia de eleição para prefeito e essa gente (apontou para os oito passageiros) vota em Sinop, aquela vila que está se formando lá pra baixo – no município de Chapada dos Guimarães”.

Os primeiros fregueses se foram deixando para trás o apelido que apagaria o nome Henrique. A vila por ele fundada virou sua xará.

Quando alguém se referia àquela região dizia: “Lá no Gaúcho”. Tão logo saíram, a placa de identificação do estabelecimento foi alterada para “Bar e Restaurante do Gaúcho”.

O tempo passou. Gaúcho aos poucos ampliou o negócio e o diversificou também para hotelaria. Daí a conseguir um naco de terra não foi difícil e gradualmente surgiram as primeiras cabeças de seu rebanho bovino que garantia o leite para as crianças da região e a carne no prato dos moradores e aventureiros que cruzavam a BR-163.

A sorte nos negócios também se repetia – graças a Deus, dizia Gaúcho – na família. Tanto assim, que a filharada aumentou com o nascimento da caçula e mato-grossense Ângela.

Habilidoso, bom de prosa e mestre na arte de vender, Gaúcho caiu no agrado dos militares do vizinho Campo de Provas Brigadeiro Velloso, que todos na região, indistintamente, chamam de Base Aérea do Cachimbo. Em 1984 a cantina do pessoal da FAB precisava de carne bovina e um oficial procurou o único homem que num raio de 200 quilômetros poderia fornecê-la. Porém, fez uma exigência: precisava de nota fiscal para efetuar os pagamentos.

Com a proposta da FAB, Gaúcho pegou um ônibus do Expresso Maringá e se mandou para Colíder onde abriu inscrição estadual. Com alguns blocos de nota fiscal debaixo do braço fez o caminho inverso.

Caminhoneiros que passavam pelo Bar, Restaurante e – também – Hotel Gaúcho exigiam comprovação do pagamento e o comerciante emitia NF que identificava seu estabelecimento enquanto empresa instalada na Vila Gaúcho, à margem da BR-163, no município de Colíder, Estado de Mato Grosso, perto do córrego do XV.

A fiscalização fazendária paraense torceu o bigode com Gaúcho, porque julgava que a área onde seu estabelecimento funcionava pertencia ao Pará. Tanto assim, que um quilômetro após seu bar, restaurante e hotel, rumo a Cuiabá, havia um posto fiscal instalado por Belém num barraco de madeira em palafitas apesar de localizado em plena Serra do Cachimbo.

Com o Gaúcho, na Vila Gaúcho, em 2007

Gaúcho sofria pressão dos paraenses, mas nunca se indispôs com a fiscalização. Mesmo assim, certo dia, o cerco se apertou contra ele porque emitia NF para caminhoneiros. Por coincidência quando a situação se azedava uma viatura da FAB estacionou em sua porta. “Vou emitir a NF do mês para a Base; se vocês têm alguma coisa contrária reclamem com eles”, desafiou. Não se ouviu nenhum pio. O único barulho ficou por conta da camionete do governo do Pará se arrancando.

A inscrição do estabelecimento do Gaúcho nunca foi utilizada por Mato Grosso enquanto reforço de prova documental na ação que movia contra o Pará no Supremo Tribunal Federal com o objetivo de reaver uma área triangular de 22 mil quilômetros quadrados que o vizinho ocupava indevidamente na faixa de divisa seca que se estende do ponto mais ao Norte da Ilha do Bananal, no rio Araguaia, no Estado de Tocantins, diante de Santa Terezinha, até o Salto das Sete Quedas, no rio Teles Pires, município de Apiacás, mas que por erro de interpretação ou má-fé Belém sempre manteve sob sua tutela.

Não se sabe por que razão o governo de Mato Grosso nunca fundamentou em sua defesa que a região da Vila Gaúcho é habitada por gente que se identifica e se sente mato-grossense.

Também não se sabe por que o mesmo governo nunca argumentou que muitos posseiros daquela região receberam cartas de anuência do Incra que os reconhecia enquanto produtores mato-grossenses.

STF – Por unanimidade. Isso mesmo! Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) votaram pela manutenção da divisa de Mato Grosso com o Pará, que era reivindicada por Belém. Com isso os paraenses legalizaram e incorporaram ao seu território 22 mil km², superfície do tamanho de Israel ou de Sergipe. A decisão proferida em 29 de maio de 2020 arrancou dos marto-grossenses uma área rica em minérios, com topografia que permite agricultura mecanizada, geradora de energia elétrica, cruzada pelas rodovias federais 158 e 163 e situada no raio de influência do porto de Miritituba no rio Tapajós.

O governo mato-grossense até tentou por meio de uma Ação Civil Originária, que hibernou desde 2004, mas nesse longo período os governadores que exerceram o cargo não se interessaram por aquela região, que em minhas reportagens a chamava de Contestado. Parte dessa derrota tem que ser debitada ao Governo de Mato Grosso e à Assembleia Legislativa, ambos omissos.

Sobre o antigo Contestado é preciso destacar que o ex-prefeito de Guarantã do Norte, Lutero Siqueira, quando superintendente regional do Incra em Mato Grosso expediu cartas de aforamento a posseiros naquela área, a identificando como pertencente ao território mato-grossense, mas tais atos não prosperaram diante da força política paraense e da negligência da bancada federal de Mato Grosso.

A Vila Gaúcho permaneceu mato-grossense, mas a divisa dos estados ficou definida no córrego XV de Novembro, um quilômetro adiante daquela localidade rumo a Santarém.

A nova definição da divisa criou embaraço administrativo na região de Vila Gaúcho. A Escola da Base Aérea, que era administrada pela Prefeitura de Guarantã do Norte passou para o controle paraense, e o governo vizinho chegou a cogitar seu fechamento, mas uma composição política permitiu que a mesma retornasse à Prefeitura de Guarantã do Norte, que cuida de sua administração.

ELE – Henrique Lopes de Lima, o Gaúcho, nasceu em Lagoa Vermelha (RS) em 6 de outubro de 1937. Morreu no Hospital Municipal de Guarantã do Norte, em 22 de março de 2022, por complicações de seu quadro de saúde agravado por hipertensão e hiperplasia da próstata; seu corpo foi sepultado em Guarantã do Norte.

PS – Continuem lendo a série. Amanhã (2 de julho), o capítulo 114.

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