MT: Verso e reverso (117) – Mauro Mendes
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
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Capítulo 117 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o pré-candidato ao Senado Mauro Mendes (UP).
Mauro foi governador por sete anos. Realizou importantes obras, sobretudo nos setores de saúde e transporte. Seu governo teve poucos escândalos, porém, considerados graves, muito embora não haja nenhuma decisão judicial sobre eles. Sobre a plataforma de sua vida pública é pré-candidato ao Senado pela Federação União Progressista (UP) dividida entre ele e o senador Jayme Campos; Mauro defende a pré-candidatura do governador Otaviano Pivetta (Republicanos) a novo mandato, o que levará a UP à disputa convencional tanto para o Palácio Paiaguás, quanto para o Senado, pois Jayme sonha acordado em ser candidato a governador e dará o troco com a mesma moeda. Mais: além do racha Mauro terá que administrar uma situação delicada: sua mulher Virgínia Mendes (UP) foi lançada pré-candidata a deputada federal por ele – no primeiro momento não houve reação, mas na hora da onça beber água os demais candidatos ao cargo se sentirão desconfortáveis e, para salvar a pele, cada um procurará alguma candidatura ao Senado que lhe acene com uma dobradinha, ainda que localizada.
Ainda sobre Virgínia, sua pré-candidatura foi esculpida artificialmente pela mídia regiamente remunerada pela Secretaria de Comunicação (Secom) do governo Mauro. Durante o governo de seu marido, Virgínia foi a segunda pessoa com maior destaque na mídia, perdendo somente para Mauro. Em alguns sites, no mesmo dia, ela figurava na capa em mais de uma matéria, e ao longo do governo, opinava sobre tudo ou quase isso. Eu, que nunca entrei no gabinete de Mauro durante seus dois mandatos de governador, recebi incontáveis releases da Pop Assessoria, sobre Virgínia e os tenho em arquivo. É preciso que se tenha em conta que os textos falam sobre viagens da então primeira-dama, claro que em aviões do governo, com segurança e assessoramento pelo Estado. Agora, coincidentemente ou não, sem os contratos com a Secom, os mesmos sites generosos com Virgínia no passado, a relegam (isso é bem Mato Grosso).
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Seco, indiferente e senhorial. Assim é Mauro, mesmo nos períodos eleitorais. Até então, as pesquisas de intenção de voto lhe conferem os melhores índices, o que é reconfortante principalmente por estar em jogo duas cadeiras. O perfil de Mauro não deverá prejudicá-lo, até mesmo porque o eleitor anda com o saco cheio de tantas candidaturas santinhas. Seu filho Luiz Antônio Taveira Mendes tem seu patrimônio questionado. Além disso, os escândalos da operadora Oi e dos consignados com o Banco Master poderão atingir sua trajetória. A lentidão judicial, que volatiliza até memória de elefante; a facilidade que o pré-candidato ao Senado, Pedro Taques (PSB) tem para acusá-lo sobre a Oi e o Master; e a eloquência como se defende deixam o eleitor em dúvida. Mergulhar na citação dos dois casos exige mais que uma matéria – seria preciso quase um livro. Porém duas coisas são certas: o dinheiro da OI foi para um fundo de investimento que segundo Taques seria gerido por figuras ligadas à família de Mauro, e os servidores públicos estão a ver navios com o caso dos consignados.
O governo Mauro é criticado pela morosidade e a falta de transparência sobre as obras do BRT em Várzea Grande e Cuiabá; realmente o BRT (que antes foi planejado para VLT) desafiou os governadores Silval Barbosa e Pedro Taques, e durante sete anos foi o calcanhar de Aquiles de Mauro. As obras não avançam com rapidez e ninguém sabe ao certo quanto custaram até hoje, tantos foram os contratos e aditivos. Para complicar, Mauro autorizou a venda das locomotivas e dos vagões do VLT que estavam num depósito a céu aberto em Várzea Grande, para Salvador (BA), onde estão em operação num vaivém sem fim.
Mauro também é criticado pela má qualidade da pavimentação de algumas estradas na malha de 7 mil km que seu governo pavimentou. Realmente, trata-se um caso vergonhoso que merece duas considerações:
1º – As empresas que executaram as obras têm obrigação contratual de garantir a boa conservação ao longo de cinco anos;
2ª – O Tribunal de Contas do Estado (TCE) foi omisso e nunca fiscalizou as obras rodoviárias ora criticadas, e a Assembleia Legislativa, também não. A Imprensa, sempre de joelhos dobrados – com as exceções que não enchem uma Kombi – nunca botou o dedo na ferida sobre o pavimento, e se alguns veículos agora o fazem é porque Mauro não chefia mais a generosa Secretaria de Comunicação (Secom).
IDEOLOGIA – Mauro disputará um pleito que as bolhas radicais nos grupos de internet teimam em polarizar entre direita e esquerda. Não creio que ele tenha ideologia, mas avalio que transite entre o extremismo do lulismo e do bolsonarismo, o que em tese é ruim eleitoralmente sob todos os aspectos perante o radicalismo, mas sem que prejudique seu desempenho junto ao cidadão lúcido, que votará levando em consideração alguns quesitos tais como: trabalho prestado a Mato Grosso, capacidade política de defender o Estado e sua não vinculação familiar ou grupal com os grandes esquemas de corrupção de José Riva e Silval Barbosa, comprovados e até mesmo assumidos em delação premiada.
As suplências na chapa de Mauro não foram oficializadas, mas todos os que bebem água sabem que o primeiro será Cidinho dos Santos, e o segundo, Rogério Gallo, ambos da UP e peças do grupo de Mauro.
FUNIL – A disputa entre Mauro e Jayme será a verdadeira eleição para ambos. Quem perder na convenção sai de cena.
Derrotado, Jayme irá para Várzea Grande e Mauro segue o caminho.
Se não vencer na convenção, Mauro morre e fere gravemente a candidatura de Pivetta, além de Virgínia.
O vencedor precisará de muita habilidade para juntar os cacos para que a divisão partidária (no âmbito da federação) não seja uma vitória de Pirro.
ELE – Mauro Mendes Ferreira nasceu em Anápolis (GO), no dia 12 de abril de 1964, é empresário e engenheiro eletricista pela UFMT.
Histórico de Mauro
SISTEMA S – A presidência do Sistema Federação das Indústrias (Fiemt) caiu no colo de Mauro em 2007 e ele continuou no cargo até 2012 na condição de um dos capitães do empresariado mato-grossense. Paralelamente a isso, por um período, foi vice-presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), numa das vice-presidências que a Avenida Paulista distribui pelos estados para afagar os delegados regionais que chancelam a eternização do alto empresariado na cúpula daquela entidade que é um dos dentes do Sistema S, que suga o Brasil.
PALANQUE – Em 2008 quando Blairo Maggi (PR) governava e sua administração tinha alto índice de aprovação, Mauro foi seu candidato a prefeito de Cuiabá numa dobradinha com a professora e ex-deputada estadual Verinha Araújo (PT). Essa chapa foi escolhida a dedo por Blairo, para mostrar a harmonia entre o alto empresariado e o proletariado e, de quebra, para afagar Lula – que àquela época era considerado homem público-modelo. Blairo e seus candidatos deram com os burros n’água. Wilson Santos (PSDB), venceu o pleito em segundo turno com 175.038 votos (60,47%) e seu vice foi Chico Galindo (PTB). Mauro e Verinha ficaram em segundo com 114.432 votos (39,53%).
A derrota não o desmotivou. Dois anos depois Mauro continuava no palanque, mas dessa vez correndo atrás de votos para o governo. Naquela eleição ele não tinha a bênção de Blairo, que se empenhava até o último pé de soja pela eleição de seu ex-vice-governador Silval Barbosa (PMDB), o que acabou acontecendo, em primeiro turno; Silval havia assumido o Palácio Paiaguás em março daquele ano, com a renúncia de Blairo para disputar e vencer a eleição ao Senado. Em primeiro turno, com 759.805 votos (51,21%) e com Chico Daltro (PP) de vice, Silval bateu Mauro (PSB) e seu vice Otaviano Pivetta (PDT), que receberam 472.474 votos (31,85%); o terceiro colocado foi Wilson Santos (PSDB), com 245.527 votos (16,55%), que completava sua chapa com Dilceu Dal’Bosco (DEM).
Mesmo acumulando duas derrotas consecutivas, Mauro continuou no palanque. Em 2012, pelo PSB, em segundo turno foi eleito prefeito de Cuiabá com 169.668 votos (54,65%); seu vice foi o republicano João Malheiros. A chapa derrotada foi encabeçada pelo petista Lúdio Cabral com Francisco Faiad (PMDB) de vice – 140.798 votos (45,35%).
PREFEITO – Mauro prefeito realizou grandes obras. Seu ponto alto na administração foi a pavimentação de 500 quilômetros de ruas pelo programa Novos Caminhos. Prometeu que titularizaria os imóveis sem escritura, mas não cumpriu integralmente a promessa. Seus quatro anos na prefeitura foram marcados por uma crônica crise na Saúde Pública. Parte de sua gestão coincidiu com o período de obras para a Copa do Mundo de 2014, quando Cuiabá ganhou viadutos e trincheiras que melhoraram o trânsito urbano. Mauro não disputou a reeleição.
O empresário
A empresa-âncora de Mauro era a Bimetal Indústria Metalúrgica, que em Cuiabá produzia torres de telefonia com mercado nacional e mundial. Não é fácil entender a Bimetal. A matéria-prima das torres saía das usinas em São Paulo e era trazida para Mato Grosso em carretas; aqui, transformada, era levada para a mesma São Paulo e conseguia vencer concorrentes paulistanas, sem que o elevado frete nos dois sentidos jogasse o preço nas nuvens. Era uma proeza e tanto, pois o mercado empresarial não engole desafios da logística. Há quem diga que os incentivos fiscais davam poder de competitividade ao produto Made in Cuiabá. À época das vacas gordas a Bimetal criava asas e vale observar que naquele período, na mesma capital do agronegócio, Mauro montou uma indústria para fabricar silos e não prosperou naquela atividade. Resumindo: Havia clientela para torres de comunicação, mas na terra da soja, do milho, do algodão e do arroz o empresário Mauro não conseguia um nicho sequer de mercado para os silos que fabricava. Fica a dúvida: o negócio improvável dava lucro e o negócio viável foi por águas abaixo.
Em 2017 Mauro estava à frente de um diversificado grupo de empresas criadas a partir da Bimetal. Naquele ano a juíza Anglizey Solivan de Oliveira, da 1ª Vara Cível de Falências, Recuperação Judicial e Cartas Precatórias de Cuiabá, chancelou a recuperação judicial da Bimetal; da Bipar Investimentos e Participações; da Bipar Energia; e da Mavi Engenharia e Construções. Esse grupo de empresas é considerado de Mauro, mas na verdade ele tinha sócios nas mesmas. Assim, Mauro perdeu o rótulo de administrador exemplar que ele apresentou na campanha para prefeito em 2008 e 2012. Mauro ficou sem discurso empresarial.

Claro que a falência da Bimetal atingiu Mauro, porém, seu filho Luiz Antônio Taveira Mendes, com menos de 30 tornou-se empresário à frente de várias empresas. No cenário institucional mato-grossense o enriquecimento de Luiz Antônio continuará desafiando o entendimento popular. Para seu detalhamento seria preciso que o Ministério Público Federal e o Ministério Público Estadual, cada um em sua esfera de competência, passassem uma lupa em sua vida empresarial, incluindo a denúncia sobre a operadora Oi feita por Pedro Taques; também seria imprescindível que o TCE e a Assembleia Legislativa se debruçassem sobre as prestações de contas de Mauro, o que é improvável.
Palácio Paiaguás
De olho na candidatura ao governo em 2018, Mauro deixou o PSB e foi para o colo político de Jayme no Democratas. Foi eleito naquele ano e reeleito em 2022 pela mesma sigla. Em ambas as disputas seu vice foi Otaviano Pivetta.
Relação com a Imprensa
Capítulo 117 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o pré-candidato ao Senado Mauro Mendes (UP).
Perfeito