Desde muito cedo as pessoas recebem a informação de que vão morrer um dia. Mas a grande maioria vive como se a morte fosse apenas uma possibilidade. E bem distante. Luis Fernando Verissimo já brincava com isso: “Vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca”.
Para muita gente, velhas são as pessoas com 20 anos a mais do que elas. Mas, com o passar do tempo, é inexorável que as rodas de conversa ganhem novos assuntos. Futebol, maquiagem, política, trabalho, filhos, vinhos e viagens continuam em cena. Mas ganham a companhia de colesterol, glicemia, nomes de remédios, dores pelo corpo, esquecimentos, indicações de médicos e de farmácias.
De repente, percebe-se que levantar do sofá virou um movimento complexo e que já não é raro procurar os óculos que estão no topo da própria cabeça. O relógio inteligente informa os batimentos cardíacos. Mas o joelho passa a dar a opinião mais sincera. A impressão é que o corpo abriu franquias e que cada articulação administra sua própria crise. É quando a pessoa entra num cômodo e precisa consultar a memória como quem consulta o arquivo morto.
Tem gente que lida com o envelhecimento de forma azeda. Mas há quem consiga rir de si mesmo. Talvez façamos piadas porque sabemos que somos mortais. É como se o humor ajudasse a admitir fragilidades sem solenidade. Em vez de dizer “estou envelhecendo”, alguém pode preferir dizer: “meu joelho prevê chuva melhor do que qualquer aplicativo”. É a autoironia funcionando como amortecedor emocional, como um idioma comum, um convite à conversa.
O envelhecimento escancara a noção de finitude, submersa por longo tempo. Ela aparece sorrateira, quando se comentam aposentadorias, perdas, limitações, afastamento de parentes. E bate firme quando se percebe a quantidade de contemporâneos que estão morrendo. Conversar sobre isso democratiza a vulnerabilidade. Talvez por isso haja tantos risos em hospitais e em velórios, piadas sobre idade, ironia sobre os próprios limites. O humor não elimina a morte. Mas impede que ela monopolize a conversa.
No fim das contas, envelhecer talvez seja perceber que o corpo perde vigor ao passo que o repertório ganha profundidade. Enquanto for possível transformar tudo isso em conversa — e, de preferência, em boas risadas — quem sabe a finitude mereça um entendimento equilibrado: inevitável, sim; proibida, não.
Porque há assuntos pesados demais para serem carregados sem uma generosa dose de bom humor.
* Sergio Riede é jornalista, bancário aposentado e autor do livro “Ninguém solta a alça do caixão de ninguém”
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