Cada um com seu zunido. Bem antes de entrar na vila o carro de boi era sentido pelos moradores por conta do barulho do cocão. Um som harmônico e sincronizado, que elevava e reduzia o tom de acordo com a velocidade. Nas ruas sem automóveis e motos, livres da poluição sonora e da violência banalizada de agora, as juntas de bois precedidas pelo candeeiro abriam caminho até o armazém de destino, com o carreiro ao lado do carro e sob o mesmo a doçura e a fidelidade de um vira-lata. A carga não ia além de uma tonelada e pouca de arroz em casca, feijão e milho, ou ainda apenas um dos produtos a granel.
Era assim!
Paz. Havia paz no distrito sem internet, telefonia, energia elétrica universalizada, sistema de tratamento de água, pavimentação e até mesmo sem o gás liquefeito de petróleo para acender os fogões, pois à época todos eram a lenha, com forno JMS e serpentina para aquecer o banho. As casas, das mais simples aos barracos, não sabiam o que era televisão, ar-condicionado, forno micro-ondas, geladeira, máquina de lavar louça ou roupa. Faltava eletroeletrônicos e sobrava vida em família.
O comércio era o básico. Padaria raiz, com pão, bolo, biscoito e no balcão servindo café com leite. Bar tanto simples quanto sofisticado tinha reservado para os senhores beberem longe do olhar da população; a cerveja era gelada na salmoura de suas sorveterias, invariavelmente alimentadas por energia gerada em motor estacionário próprio.
Bicicleta era luxo – privilégio de poucos. A namorada ia na garupa, sentada de lado, com as pernas juntas por razões moralistas e com o vestido protegido por uma telinha para não ser engolido pelos raios da roda traseira. A boca da perna da calça do ciclista era comprimida por uma paleta, para evitar que a corrente a engolisse. Mais ousados equipavam suas magrelas com farol que recebia energia de um dínamo carregado pelo movimento do pneu traseiro; durante o dia, bastava um clique para afastar e desligar o pequeno gerador.
Água pura, no filtro de barro São João, com três velas. Alimentação saudável, sem enlatados e agrotóxicos. Um naco de carne de porco de lata, feijão preto, arroz pilado em casa, angu de milho quando não se falava em transformar aquele cereal em híbrido para produção empresarial. Verduras, frutas, legumes, lambari frito, tudo natural. Ovos de galinha caipira com a gema bem amarela. Vida!
As casas com seus enormes quintais eram uma espécie de chácara urbana, com capados de engorda e quando um era abatido, a filharada da casa levava gamelas com carne para vizinhos, e de volta recebia a mesma lotada com bolos, doces ou bordados caseiros.
A referência urbana era Governador Valadares distante 20 quilômetros pela esburacada Rio-Bahia (BR-116), por onde o Nordeste descia em paus-de-arara em busca do sonho de vencer na vida em São Paulo ou no Rio de Janeiro, e em sentido oposto caminhões tocos transportavam industrializados para as capitais nordestinas; essa rodovia passava ao lado do distrito.
À noite o distrito não saía às ruas. As casas eram iluminadas por lamparinas abastecidas com Querosene Jacaré; mais tarde surgiram os lampiões a gás. Algumas moradias consumiam energia gerada pelo gerador instalado no motor de uma máquina de arroz da marca Zucatto, entre 18 e 21 horas – enquanto aquela indústria de transformação funcionava; às 20h55 um pico no fornecimento avisava que dali a 5 minutos as lamparinas precisavam estar acesas, pois a geração seria suspensa até o dia seguinte.
Nas imediações dos armazéns cerealistas a movimentação dos carros de boi com seus zunidos. Também a presença de tropas, cada uma com sua égua de madrinha mais emperiquitada do que a outra. Era o campo alimentando a cidade com a intermediação do armazenista. Alheias a esse mundo das crianças brincavam.
Aos domingos as charretes invadiam o lugar. De fabricação caseira ou ostentando a logomarca A. Pigari transportavam as famílias para as compras e andanças nos finais de semana. Havia sempre uma peça de tecido cobiçada por recatada dona de casa para a costureira em sua máquina Singer fazer como se fosse linha industrial, vestidos do mesmo pano e modelo para todas as filhas. No campo, a bola rolava sob sol a pique e não faltavam duras partidas entre solteiros e casados.
Uma vez por mês um padre visitante rezava missa em latim, de costas para os fiéis, mas ninguém ousava questionar os dogmas da Santa Madre. Em maio, o Mês de Maria, os leilões ganhavam destaque nas quermesses, e havia coroação de meninas, todas com vestes celestiais.
Veio o progresso, a chamada evolução humana. Tudo aquilo mudou. A humanidade em peso passou por uma grande transformação, que nos últimos anos foi mais acelerada ainda. Estamos reféns do mundo virtual e avançando para nos capitularmos diante da inteligência virtual. Crianças de três anos fazem do celular seu mundo.
Reproduzir em palavras o que fazemos ao longo do dia é narrar o cotidiano da impessoalidade que atinge isolada, familiar e coletivamente: é natural que cinco de uma família estejam na sala com cada um ligado ao seu celular. O encanto da vida desmorona com nossa cumplicidade.
O caminho é sem volta. Amanhã será pior, muito pior. Gostaria de encontrar a paz longe do irreal mundo em que vivemos – ou seria vegetamos? Claro que nunca terei de volta meu distrito de Alpercata perdido nos confins montanhosos de Minas onde as águas correm para o rio Doce.
Bom seria voltar àquela vida, o que não é possível, mas nem mesmo essa amarga realidade tem força para impedir um mergulho mental no ontem, despoluído desse hoje pegajoso. Basta fechar o olho (tenho visão monocular) e buscar no coração o mundo encantado que infelizmente não foi vivido por meus filhos e netos. Resta um passeio pela poesia musical de Ataulfo Alves, em “Meus tempos de criança”, canção imortalizada na voz de Nelson Gonçalves
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