Boa Midia

A gratidão de ‘Itanhangá’ com Lula

EDUARDO GOMES
@andradeeduardogomes
eduardogomes.ega@gmail.com 

 

Mato Grosso é bolsonarista. Itanhangá é mais ainda. No primeiro turno das eleições neste ano, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 3.373 votos (83,61%) em Itanhangá, e Lula, 618 (15,14%). O resultado  foi a maior vitória proporcional de Flávio entre os 142 municípios mato-grossenses e botou Itanhangá no Top 10 das maiores vitórias de Flávio no país. O resultado em Itanhangá visto apenas como a voz das urnas no bolsão de prosperidade do agronegócio formado por Sinop, Sorriso, Boa Esperança do Norte, Vera, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Santa Rita do Trivelato, Nova Ubiratã, Santa Carmem, Marcelândia, Feliz Natal, Cláudia e Tapurah, além dele, é algo natural, pela forte presença do bolsonarismo raiz naquela região. Porém, se observada a curta existência daquela localidade e conhecido seu histórico fica evidenciado que a relação de Itanhangá com o presidente Lula foge à lógica política, violenta o princípio ético e joga por terra o sentimento de gratidão.

Memoriol – No começo dos anos 1990, o movimento sem terra em Mato Grosso era estigmatizado pelo agronegócio e enfrentava a mão pesada do Estado. O acampado era visto como bandido, preguiçoso, invasor de terra e não havia a quem recorrer, pois o então governador Jayme Campos defendia os interesses dos proprietários, a Assembleia fazia tanto silêncio quanto a bancada federal. Foi nesse cenário que 1.149 famílias de Lucas do Rio Verde, Diamantino e Tapurah desarmaram suas barracas de lona plástica defronte o Incra, em Cuiabá, e rumaram para a  Fazenda Vale do Arinos, município de Tapurah, onde chegaram no dia 12 de agosto de 1994. O pesadelo virou sonho para quem se abrigava nas barracas de lonas, pois a eles foi dado o Projeto de Assentamento Tapurah/Itanhangá, numa área do Incra então integrante do município de Tapurah.

O vento soprava forte no cerrado quando as famílias desembarcavam. Todas carregando a amarga experiência de terem sido acampadas na histórica fazenda São João, em Diamantino, até serem despejadas em 9 de maio de 1994. Dali, um grupo foi para Cuiabá e montou barracas na porta do Incra. Negocia dali, negocia daqui e o assentamento em Itanhangá saiu do papel. Virou realidade. Virou vila em 12 de agosto daquele ano e cidade em 29 de março de 2000 por uma lei sancionada pelo governador Dante de Oliveira, oriunda de um projeto do deputado José Riva aprovado pela Assembleia Legislativa.

Na língua tupi-guarani, Itanhangá significa pedra de fogo. A denominação do município tem origem na sabedoria popular. Antigos moradores juram que era muito comum avistar bolas de fogo nas áreas acidentadas próximo ao perímetro urbano. Daí deu no que deu.

De ‘bandidos’ a parceleiros do Incra, os ex-acampados deram o sopro de vida à vila de Itanhangá. Conseguiram suas parcelas de terra no momento em que o Brasil botava em prática duas grandes políticas sociais: o desembolso do Bolsa Família, criado em outubro do ano anterior, e o programa Luz para Todos, que surgiu um mês após o Bolsa Família. Todos em seus lotes com energia e a assistência do governo com a transferência de renda para complementar a despesa familiar. Na terra, na energia e no Bolsa Família,  o DNA do presidente Lula.

Prisão de Caminski

Inversão – Em 2014, portanto 20 anos após o surgimento de Itanhangá, parte da reforma agrária que assentou os pioneiros estava violentada. A qualidade da terra despertou a cobiça, e muitos parceleiros não resistiram à tentação das ofertas por suas parcelas e as venderam, o que levou a Polícia Federal a desencadear a “Operação Terra Prometida”, que prendeu o ex-prefeito de Lucas do Rio Verde, Marino Franz; o ex-prefeito de Tapurah, Milton Geller e seu irmão Odair – ambos irmãos do então ministro da Agricultura, Neri Geller; e o vereador por Itanhangá, Silvestre Caminski (PPS). Silvestre foi preso pela PF na Assembleia Legislativa, onde participou de uma audiência pública para discutir a situação fundiária em seu município; ele era liderado pelo deputado José Riva, que controlava a Assembleia. Todos foram acusados de grilagem, formação de organização criminosa e outros crimes – todos foram soltos e nenhum chegou a ser julgado.

O agronegócio desfigurou o princípio da reforma agrária em Itanhangá, mas, ainda assim, há centenas de famílias de parceleiros pioneiros. Itanhangá não é caso isolado de desfiguração fundiária em Mato Grosso, praticamente todos os assentamentos do Incra e do Instituto de Terras (Intermat) tiveram lotes agrupados, são ocupados por produtores rurais que ‘compraram’ lotes ao fio do bigode ou documentados por contratos de gaveta. Porém, em Itanhangá, a saída dos parceleiros abriu espaço para a chegada do lado mais à direita do bolsonarismo raiz, que é o agronegócio ou agrobolsonarismo.

Com ou sem a presença do agronegócio, o eleitorado de Itanhangá não aceitou Lula e entrou no clima de Fla-Flu torcendo para um ou para outro, sem o sentimento de quem precisa votar em alguém que defenda o país, começando pelo município, que é sua base territorial.

PS – Acompanhei o trama dos acampados no Incra, que foram assentados em Itanhangá. Cobri a Operação Terra Prometida e presenciei a prisão de Silvestre Caminski. Estive em Itanhangá incontáveis vezes. Fui o primeiro repórter a entrevistar o então presidente da Câmara de Itanhangá, Hildo Cezar Dallapria (PP),  que foi vítima de emboscada em 20 de junho de 2006. Dallapria foi atingido por oito tiros de calibre 22 e teve uma das mãos parcialmente mutilada pelas balas.

Conheço bem Itanhangá e sua história, e desde o primeiro turno conheço também o sentimento de muitos que foram retirados dos acampamentos pela política agrária de Lula, e receberam assistência na esfera social do mesmo Lula.

 

 

 

35781144 e 35781365 66

 

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