Boa Midia

Quando o Sol ultrapassa os fósseis: o Brasil desenha um novo horizonte energético

 

Isis Nóbile Diniz*

SÃO PAULO

 

 

Emissões de energia estáveis, geração solar empatando com as fósseis e biocombustíveis protagonistas em 2025

Há momentos em que os números contam histórias que vão além das estatísticas. Ano passado, em 2025, a geração de energia solar alcançou a produção de todas termelétricas fósseis no Brasil, pela primeira vez. O Sol, que há tanto tempo ilumina o país tropical, ganhou um novo lugar na paisagem energética brasileira.

A abundância de Sol e a de vento, somadas à tradição nacional no uso de fontes renováveis na geração de energia elétrica, oferecem ao país condições singulares para construir uma economia menos dependente dos combustíveis fósseis. Essa vantagem já aparece nas emissões de gases de efeito estufa (GEE) do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), divulgadas esta semana pelo Observatório do Clima, que conta com a participação do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA). Mesmo com o crescimento da atividade econômica, as emissões que causam o aquecimento global associadas à energia, praticamente, não avançaram.

Todo o setor de energia brasileiro teve uma pequena alta de 1,2% nas emissões, passando de 422 MtCO₂e para 427 MtCO₂e (milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, medida usada para contabilizar os diferentes gases de efeito estufa em uma só unidade). A presença expressiva das fontes renováveis ajudou a conter o avanço.

Quando falamos do setor de energia, abordamos também a energia que move os veículos. O transporte responde, todos os anos, por cerca de metade das emissões nacionais desse setor. Em 2025, bateu recorde com 228 milhões de toneladas de dióxido equivalente (MtCO₂e). Desse total, 123 milhões vieram do transporte de cargas e 105 milhões, de passageiros. Uma das possíveis explicações é o aquecimento da economia. Afinal, com mais atividade econômica, cresce também a necessidade de transportar pessoas e mercadorias.

Mesmo com o avanço dos veículos elétricos de passageiros, que já têm participação relevante nas vendas anuais totais de carros, o consumo de combustíveis fósseis continua se elevando. Em 2025, o consumo de diesel de petróleo aumentou 3%, enquanto o de gasolina A, sem a mistura de etanol, e o de gasolina C, vendida nos postos, também cresceram.

Nossa sorte é que o Brasil conta com outro aliado: os biocombustíveis. O etanol puro ou misturado à gasolina e o biodiesel ao diesel ajudaram a reduzir as emissões totais do setor, mostrando que é possível seguir produzindo, crescendo e se deslocando, com menos impacto sobre o clima.

O consumo de etanol, em geral, avançou 4%, todas as porcentagem deste texto são de dados de 2025 em comparação com 2024. Juntos, etanol e biodiesel representaram um quarto dos combustíveis no transporte nacional, um recorde. Vale lembrar que os biocombustíveis ajudam na mitigação das emissões e na redução da dependência externa de importações. No entanto, salvaguardas, principalmente em relação ao uso de terra, são necessárias.

Vale lembrar que, dentro desse contexto, ainda precisamos avançar para cidades em que o transporte coletivo seja a primeira escolha, confortável e acessível, e uma logística de transporte de cargas mais eficiente, capaz de conectar regiões sem ampliar na mesma proporção as emissões.

O sistema elétrico também pode acompanhar esse caminho para uma transição energética justa. Para aproveitar melhor a energia solar e eólica, necessitamos investir em armazenamento e desenvolver soluções que permitam equilibrar a oferta e a demanda. O desafio é fazer com que a energia do Sol e do vento, disponível em determinados momentos e lugares, possa chegar a quem precisa sem ser descartada por ser gerada em excesso.

O Sol e os recursos naturais sempre estiveram aqui. O que muda é a capacidade de transformá-los em novas possibilidades. Que este marco seja um sinal de que podemos construir um futuro energético mais limpo, justo e conectado às necessidades do país. Um amanhã que já começou a nascer, mesmo sabendo que ainda temos desafios relevantes no processo de transição energética brasileira.

*Isis Nóbile Diniz, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA)

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