BR-163 – Nortão: é assim que se constrói uma região! (XI)
EDUARDO GOMES
@andradeeduardogomes
eduardogomes.ega@gmail.com

Os 50 anos da inauguração da BR-163, em 20 de outubro de 1976, ganharam esta série no blog para falar não somente sobre aquela rodovia de integração nacional, mas, também, sobre os personagens no universo mato-grossense do Nortão, região que teve sua ocupação antecipada com aquela obra. A criação do corredor rodoviário ligando Mato Grosso ao Pará chamou a atenção aos olhos do Brasil e levou o pastor luterano e colonizador Norberto Schwantes, fundador de Canarana, Água Boa e Querência, no Vale do Araguaia, a lutar por uma área para assentar trabalhadores rurais, sitiantes e fazendeiros gaúchos que foram expulsos de suas terras; da luta de Schwantes nasceram Terra Nova do Norte – à margem da BR-163 – e sua vizinha Nova Guarita. A história do Nortão, escrita por vultos famosos e anônimos, nascidos na região ou que migraram para seus municípios é recheada de fatos importantes e interessantes. Vale a pena a leitura da série – que começou a ser postada no dia 15 deste mês de outubro – para conhecê-los.
É assim que se conquista
– Ernesto! – Disse a voz rouca e suave ao telefone*. Do outro lado da linha, o presidente linha-dura do governo militar, general Ernesto Geisel, respondeu ofegante: – Eugênia, Eugênia… guria, há quanto tempo…
Depois do telefonema, dona Eugênia Schwantes chegou altiva no Palácio do Planalto. Acompanhada por um ajudante de ordens do presidente entrou no gabinete mais importante do país. Foi recebida pelo anfitrião com um abraço e um beijo nas mãos.
Sua presença no gabinete foi rápida e 20 minutos depois deixava a sede do poder levando um “sim” que era aguardado por centenas de famílias à espera de um pedaço de terra para plantar, colher e viver em paz. O “sim” que dona Eugênia ouviu foi a semente que fez brotar sobre uma área de treinamento do Exército, as cidades de Terra Nova do Norte e Nova Guarita, que não reverenciam a memória do Ernesto e daquela mulher, que foi a figura-chave para o sim que resultou na ocupação do vazio demográfico acima de Sinop, no Nortão.
Memória – Nos anos 1970 o pastor luterano Norberto Schwantes, filho de dona Eugênia, iniciou uma colonização no Vale do Araguaia, que resultou na criação de Canarana, Água Boa e Querência, basicamente para agricultores e produtores rurais do Rio Grande do Sul, mas ele tinha uma demanda por mais área e não conseguia encontrá-la, para assentar pequenos produtores de Tenente Portela, Nonoai, Guarita, Cacique Doble, Planalto e Miraguaí, muitos dos quais enfrentavam problemas com os índios Caingangue, pela posse da terra.
A história oficial diz que a colonização de Terra Nova do Norte somente tornou-se possível por meio de uma parceria do Ministério do Interior, Exército Brasileiro, Governo de Mato Grosso, Governo do Rio Grande do Sul e a cooperativa Coopercana, idealizada e dirigida por Schwantes. Na verdade, houve sim um entendimento multidisciplinar nesse sentido, mas a área de 435 mil hectares onde Schwantes implantou o Projeto Terranova pertencia ao Exército, que naquela época não admitia sequer ouvir a expressão reforma agrária, que em outras palavras era o que o pastor luterano buscava. Antes da visita de dona Eugênia ao presidente, Schwantes conversou com o chefe do Gabinete Militar, general de divisão Hugo Abreu, que lhe deu um “não” nervoso, quase o botou para fora e mandou que o Serviço Nacional de Informações (SNI) o monitorasse. Hugo Abreu além de abominar a ideia do assentamento, defendia que a área permanecesse sob domínio dos militares, como forma de ocupação da Amazônia, numa região onde a Aeronáutica já estava presente com o Campo de Provas Brigadeiro Velloso, que chamamos de Base Aérea do Cachimbo, com 21,6 mil km², em Novo Progresso (PA).
Atendendo ao pedido de dona Eugênia, o Ernesto – como ela o chamava desde a adolescência de ambos – deu ordem para que a área fosse imediatamente transferida a Schwantes. No auge dos anos cinzentos do regime militar, pela primeira vez o Exército cedeu a um movimento que à época era visto como coisa de comunista. Terra Nova do Norte e Nova Guarita cometem injustiça com a memória do Ernesto e de sua amiga, dona Eugênia. Hoje, 10.531 cidadãos residem no município de Terra Nova do Norte, e 4.546 em Nova Guarita. Ao todo, 15.077 brasileiros ganharam o direito à cidadania, que muitos e seus antepassados não encontravam em seu lugar de origem. Dona Eugênia e seu amigo Ernesto não estão mais entre nós, que comemoramos a conquista daquela gente.
* O telefonema foi combinado dois dias antes, numa audiência que o chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, concedeu a Schwantes.
A ousadia de Schwantes
Em 1978 centenas de famílias expulsas da terra indígena dos caingangues no Rio Grande do Sul foram acampadas no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio (RS). Schwantes as defendia e as levou para Terra Nova do Norte e Nova Guarita, onde as instalou em parcelas de agrovilas por ele criadas.
No dia 8 de março de 1978, Schwantes escolheu José Almir da Silva, que presidia o Grêmio Estudantil do Colégio José de Alencar, em Ronda Alta (RS), para coordenar o primeiro grupo que viria para Mato Grosso. José Almir aceitou o desafio e desde então se transferiu para aquela localidade, onde pecuarista, foi exator, fundou e presidiu o sindicato rural.
Em 30 de junho de 1978, a caravana passou por Cuiabá e seus integrantes foram recepcionados pelo governador Cássio Leite de Barros, que presenteou José Almir com uma Bandeira de Mato Grosso, e ele a guarda em sua residência até hoje. Depois de cinco dias de viagem da capital até o destino, os primeiros moradores ali desembarcaram e iniciaram a ocupação da área.
Depois da primeira caravana, outras vieram para Mato Grosso trazendo colonos que estiveram acampados no parque em Esteio. Ao todo, foram transferidas 1.064 famílias. Posteriormente, uma das agrovilas ganhou o nome de Norberto Schwantes. Ele ainda recebeu outras homenagens no município: uma escola e uma avenida na cidade também levam seu nome.
Nacional – A ocupação populacional do Nortão criou uma região desenvolvida em Mato Grosso e resolveu problemas agrários fora de Mato Grosso. Terra Nova do Norte e Nova Guarita são exemplos dessa realidade, que inclui Novo Mundo – que abrigou brasiguaios.

O Nortão abraçou famílias de todas as regiões do país, e alguns dos filhos dos pioneiros que trocaram seu lugar de origem pelo sonho de encontrar um lugar ao sol – e crescer com a região, como se diz – ganharam renome internacional, a exemplo do treinador de futebol e ex-goleiro artilheiro Rogério Ceni, paranaense de Pato Branco, que foi bancário em Sinop, onde defendeu o clube local, o Sinop, pelo qual foi campeão mato-grossense.
Rogério Ceni é filho do pioneiro em Sinop e Santa Carmem, Eurydes Ceni, que reside em Sinop e cultiva em Santa Carmem.
Franzino e baixinho, trabalhando em Sinop na oficina de motos do Besouro, aquele mecânico de mão cheia e piloto de cair o queixo, nascido em Iguatemi, em Mato Grosso do Sul, não poderia mesmo ser reconhecido pelo nome civil de Gilmar Pereira Flores. A irreverência popular lhe deu o apelido de Joaninha.
Moto não existe somente para conserto, assim pensava o mecânico Joaninha. Também não sai da fábrica apenas para o trabalho e lazer, reforçava o pensamento. Além disso, ela é talhada para competição, para prova onde a adrenalina e a coragem se unem numa cumplicidade sem igual, acreditava – e continua com esse entendimento.
Com esse entendimento, em 2003, Joaninha trocou as ferramentas e o macacão sujo de graxa pelas provas de motocross. Sinop perdeu um mecânico de motos. O motocross mundial ganhou um ás.
A genialidade de Joaninha queria espaço, romper barreiras, superar desafios, literalmente voar decolando sobre duas rodas. Sinop era apenas o ponto de partida e Mato Grosso a primeira etapa do horizonte. Ganhou o Brasil, arrebanhou provas, conquistou o reconhecimento nacional, extrapolou as fronteiras, saiu pelo mundo e agora é nome internacional. Tornou-se incorrigível ganhador de títulos nacionais e no exterior sobre duas rodas.

Em 2000 a Miss Sinop e Miss Mato Grosso Josiane Oderdengen Kruliskoski conquistou o Miss Brasil. Morena arrasa-quarteirão, Josiane mostrou a beleza do Nortão ao país.
Josiane foi a primeira mato-grossense eleita a mais bela do país. Josiane é paranaense de Catanduvas e a exemplo de milhares de outros brasileiros chegou ao Nortão pela BR-163.
Musa das quadras

Os 50 anos da inauguração da BR-163, em 20 de outubro de 1976, ganharam esta série no blog para falar não somente sobre aquela rodovia de integração nacional, mas, também, sobre os personagens no universo mato-grossense do Nortão, região que teve sua ocupação antecipada com aquela obra. A criação do corredor rodoviário ligando Mato Grosso ao Pará chamou a atenção aos olhos do Brasil e levou o pastor luterano e colonizador Norberto Schwantes, fundador de Canarana, Água Boa e Querência, no Vale do Araguaia, a lutar por uma área para assentar trabalhadores rurais, sitiantes e fazendeiros gaúchos que foram expulsos de suas terras; da luta de Schwantes nasceram Terra Nova do Norte – à margem da BR-163 – e sua vizinha Nova Guarita. A história do Nortão, escrita por vultos famosos e anônimos, nascidos na região ou que migraram para seus municípios é recheada de fatos importantes e interessantes. Vale a pena a leitura da série – que começou a ser postada no dia 15 deste mês de outubro – para conhecê-los.
– Ernesto! – Disse a voz rouca e suave ao telefone*. Do outro lado da linha, o presidente linha-dura do governo militar, general Ernesto Geisel, respondeu ofegante: – Eugênia, Eugênia… guria, há quanto tempo…
Em 1978 centenas de famílias expulsas da terra indígena dos caingangues no Rio Grande do Sul foram acampadas no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio (RS). Schwantes as defendia e as levou para Terra Nova do Norte e Nova Guarita, onde as instalou em parcelas de agrovilas por ele criadas.

É ela – Certa feita, em Cuiabá, citando que se tratava de registro histórico perguntei ao colonizador se Santa Carmem tinha algo a ver com Carmem Miranda, e ele negou qualquer ligação. Num sorriso à meia-boca comentou baixo: “Carmem (Carmem Ribeiro Pitombo) é nome de uma tia da dona Nilza (a mulher dele)”. Espichei pra Cláudia. É pela atriz? No primeiro momento ele não respondeu diretamente. Ajeitou os óculos, espichou a mão em despedida e foi enfático: “que mulher é essa Claudia Cardinale”.
Excelente leitura!