BR-163 – Grito e sangue na rodovia
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
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Meio século. A inauguração da BR-163 completa 50 anos no dia 20 deste mês de outubro. Celebrando a data o blog publica esta série, que não observa cronologia nem prevalência dos fatos. A rodovia que é a alma, o pulmão e o coração do Nortão, também é palco de manifestações e tragédias rodoviárias. O prefeito de Ipiranga do Norte, Ilberto Effting e o líder caiapó cacique Raoni Metutktire são personagens deste capítulo.

Grandes rodovias trancadas. Agências do Banco do Brasil isoladas por tratores. A Esplanada dos Ministérios tomada por um mar de chapéus, tratores, colheitadeiras e caminhões. A gigantesca manifestação levou o país a refletir sobre a importância da agricultura, do agronegócio e do produtor rural. Era o Grito do Ipiranga. O ano: 2006. A razão? A busca desesperada por uma política agrícola justa e que oferecesse reais garantias jurídicas a quem produz. Aquele movimento nasceu em Ipiranga do Norte, município à época com um ano de instalação.

Em maio de 2007 seu primeiro prefeito, o Alemão, foi afastado do cargo por decisão da Câmara Municipal e do Tribunal de Contas do Estado (TCE). O vice-prefeito Orlei José Grasselli, o Graxa – ex-parceleiro – assumiu a prefeitura. Um ano e três meses depois a Justiça devolveu o mandato a Alemão, mas ele permaneceu pouco tempo no cargo. Debilitado e emocionalmente ferido pela condenação, à qual não teve direito de defesa – como atesta sua absolvição judicial. Em 5 de setembro de 2008 Alemão sofreu um infarto em seu gabinete; foi atendido na emergência em seu município e removido para o Hospital Regional de Sorriso, mas não resistiu. Alemão fechou os olhos para sempre. Levou a marca da injustiça que o fulminou. Deixou a chama da luta dos produtores rurais por seus direitos.
Aquele homenzarrão forte, com seu botoque inconfundível, roupas coloridas, símbolo e líder do povo Caiapó, ouvido no mundo inteiro e recebido nos gabinetes mais importantes das nações desenvolvidas teimava em conter as lágrimas que, mais teimosas do que ele, rolavam por seu rosto queimado pelo sol xinguano. Com seu choro silencioso, o cacique Raoni Metuktire mostrava seu lado afetivo e familiar. Diante dele, no necrotério, em Nova Mutum, o corpo de seu filho Tedje Metuktire, de 35 anos. Tedje e outros 10 de sua etnia morreram num acidente na BR-163, nas proximidades de Nova Mutum, em 8 de abril de 2004.