MT: Verso e reverso (151) – A cassação de Augusto Mário pelo AI-5
EDUARDO GOMES
@andradeeduardogomes
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Capítulo 151 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o jornalista e político Augusto Mário Vieira cassado pelo AI-5.
Mato Grosso foi atingido pelo AI-5 logo no começo de sua vigência. Dentre os políticos cassados, o mais conhecido foi o deputado estadual Augusto Mário Vieira, da Aliança Renovadora Nacional (Arena), o partido dos militares no poder. Esse fato ocorrido há mais de 57 anos ainda mexe com o imaginário político mato-grossense.
Ninguém jamais saberá sobre os bastidores da cassação de Augusto Mário, que perdeu o mandato e os direitos políticos por 10 anos na tarde de 14 de fevereiro de 1969, por força de um Ato Institucional 5 (AI-5) aplicado pelo Conselho de Segurança Nacional (CSN) com o jamegão do presidente da República, marechal Artur da Costa e Silva.
Os militares não revelaram o motivo para a cassação, mas no caso de Augusto Mário ficou implícito que seria por corrupção. A sessão que o condenou também cassou dois prefeitos e 91 deputados estaduais por subversão ao regime; além dele, em Mato Grosso foram atingidos pela mesma medida de exceção os deputados estaduais Ney Ângelo, João Chama e Sebastião Nunes da Cunha.
No dia 15 de fevereiro de 1969 a mesa diretora da Assembleia, eleita na véspera, foi comunicada e recebeu ordem para proibir a entrada dos cassados no prédio onde funcionava. O presidente era Renê Barbour (Arena) e o primeiro-secretário Cleómenes Nunes da Cunha (MDB).
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Augusto Mário fazia dura oposição ao governador Pedro Pedrossian. O deputado tentava cassar seu mandato democraticamente em plenário, acusando-o de corrupção. Além da rivalidade política dos dois havia ranço regional entre ambos: o deputado era oriundo da União Democrática Nacional (UDN), que se abrigou na Arena; Pedrossian tinha berço no PSD (que foi parcialmente engolido pela Arena). Augusto Mário era cacerense e empunhava a bandeira da cuiabania contra o governador, que tinha domicílio em Campo Grande e que à época, ensaiava os primeiros passos para o desmembramento territorial mato-grossense, o que acabou acontecendo em 11 de outubro de 1977.
Pedrossian se sentia acuado em Cuiabá. Políticos da época revelam que o governador foi a Brasília no dia 4 de fevereiro e levou duas relíquias na mala. Uma era um dossiê contra o deputado e outra um anel de diamante.
A papelada contra o parlamentar o acusava de ser procurador de cerca de 60 professores fantasmas da rede pública estadual que lecionariam em escolas existentes e inexistentes. À época, apesar da insegurança jurídica com a quebra da institucionalidade, os militares diziam que sentiam urticária quando desconfiavam que algum político estivesse lesando os cofres públicos.
A cassação de Augusto Mário o pegou de surpresa. Ele sabia que não conseguiria cassar o governador em plenário, mas imaginava que Pedrossian seria cassado pelos militares, pois contra ele também pesavam graves denúncias de maracutaias.
JOIA – Enquanto Augusto Mário planejava cada passo que daria, Pedrossian armava uma laçada contra ele.
Pedrossian comprou em Poxoréu um diamante muito valioso, capaz de virar a cabeça de toda mulher, principalmente da primeira-dama do Brasil, dona Yolanda Barboza da Costa e Silva, que era citada enquanto madame que convivia em rodas de intelectuais, artistas e milionários.
Pedrossian teria botado o anel no dedo de dona Yolanda e a papelada em sua bolsa de grife. O resto ela se arranjaria com o “Artur” e arranjou mesmo.
O que o deputado sequer imaginava é que a mulher do Artur estava fascinada com o diamante mais bonito que foi pego nas bandas da Raizinha, em Poxoréu.
Augusto Mário ficou fora da vida pública impedido de votar e ser votado, mas sempre manteve acesa a chama de que um dia voltaria aos meios políticos.
ANISTIADO – Com a anistia, Augusto Mário voltou ao cenário político. Tentou retornar à Assembleia em 1982, pelo PMDB (que havia incorporado o PP, ao qual se filiou), mas não conseguiu. Quatro anos depois conquistou a cadeira da qual foi afastado pela força do arbítrio, mas morreu no começo da legislatura instalada em 1° de fevereiro de 1987. O deputado sofreu um infarto fulminante em 25 daquele mês e ano. Era líder do governador Carlos Bezerra e foi substituído pelo correligionário e vereador por Rondonópolis, Moacir Gonçalves de Araújo.
Augusto Mário Vieira nasceu na bicentenária Cáceres, no dia 31 de outubro de 1928. Jovem, mudou-se para Cuiabá. Foi professor, radialista, jornalista e fundou jornal. Em 1950, pela UDN, elegeu-se vereador pela capital. Conquistou mandatos de deputado estadual pelo mesmo partido em 1958 e 1962, e 1966 pela Arena. Presidiu a Assembleia e em 19 de janeiro de 1967, a seu pedido, o governo lançou o edital para construir a sede do Legislativo, que durante anos funcionou na Praça Moreira Cabral, que então era considerado o centro geodésico da América do Sul. Foi um dos maiores oradores mato-grossenses.
Em Cuiabá uma avenida e um Centro de Educação Infantil Cuiabano (CEIC) levam o nome de Augusto Mário Vieira; o CEIC substitui uma escola municipal de ensino básico que reverenciava a memória daquele político.
A cadeira de Augusto Mário foi ocupada pelo advogado e defensor público Moacir Gonçalves de Araújo (PMDB), que era vereador por Rondonópolis e primeiro suplente de deputado peemedebista.
PS – Continuem lendo a série. Amanhã (15), o capítulo 152.
Capítulo 151 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o jornalista e político Augusto Mário Vieira cassado pelo AI-5.