Boa Midia

MT: Verso e reverso (150) – Homero Pereira, a voz do agro no Congresso

Eduardo Gomes

@andradeeduardogomes

eduardogomes.ega@gmail.com

Capítulo 150 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto destaca o deputado federal Homero Pereira, a voz do agronegócio no Congresso.

Homero Pereira e José Riva travaram uma disputa inédita na Assembleia Legislativa. Na eleição de 1990 ambos foram candidatos a deputado por uma coligação de partidos nanicos. O primeiro pelo PRN e o outro pelo PMN. Empataram em votação ficando no topo da suplência: 3.103 votos, e isso levou a decisão para o critério etário. Homero Pereira nasceu no dia 25 de maio de 1955; mais novo, Riva é de 8 de abril de 1959. Resumo: Homero Pereira virou primeiro suplente, e pelo sistema de rodízio parlamentar chegou ao plenário em 26 de maio de 1992 substituindo o correligionário Geraldo Reis, e pela mesma prática voltou ao cargo outras vezes, até que em 6 de dezembro de 1994, Geraldo Reis renunciou. Homero Pereira ganhou a titularidade e filiado ao PP concluiu o mandato.

Homero Alves Pereira, técnico agrícola e economista, era paulista de Adamantina e foi um dos principais líderes ruralistas mato-grossenses. Presidiu o Sindicato Rural de Alto Araguaia, município onde cultivou lavouras. Presidiu o Conselho Administrativo do Senar/MT, foi vice-presidente e presidente do Sistema Famato (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso), conselheiro do Sebrae/MT, membro do Conselho de Desenvolvimento do Estado de Mato Grosso, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), superintendente da Conab em Mato Grosso e Rondônia e secretário estadual de Desenvolvimento Rural em parte do primeiro governo de Blairo Maggi (2003/06).

Deputado federal pelo PPS em 2006, e 2010 pelo PR, Homero Pereira não concluiu o segundo mandato. Vítima de um câncer em 1997, ele venceu a doença, mas novamente foi acometido pelo mesmo mal, contra o qual lutou durante muitos meses.

Na Câmara Homero Pereira defendeu a agropecuária nas discussões sobre a elaboração da Lei de Proteção da Vegetação Nativa (LPVN), denominada Novo Código Florestal Brasileiro, cuja sanção pela presidente Dilma Rousseff aconteceu em 25 de maio de 2012 coincidentemente a data em que Homero Pereira completava 57 anos. Foi autor do projeto do Marco Temporal das Terras Indígenas.

Mato Grosso costuma brigar no abstrato, mas evita o debate real. Foi assim em 2007, quando o Brasil foi signatário da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. À época, a única voz mato-grossense que se levantou foi a do deputado federal Homero Pereira, que protestou com veemência, mas que não teve eco em sua bancada constituída pelos senadores Jonas Pinheiro e Jayme Campos, ambos calados, e Serys Slhessarenko, transbordando de alegria; e na Câmara, onde Carlos Abicalil comemorava diante do bico calado de Wellington Fagundes, Thelma de Oliveira, Carlos Bezerra, Pedro Henry, Eliene Lima e Valtenir Pereira.

Lula era presidente em 2007 e em 13 de setembro daquele ano o Brasil e outros 142 estados botaram o jamegão na dita Declaração, que teve votos contrários por parte dos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, e que recebeu a abstenção da Rússia, Azerbaijão, Bangladesh, Butão, Burundi, da nossa vizinha Colômbia, Geórgia, Quênia, Nigéria, Samoa e Ucrânia.

Essa declaração transforma todas as etnias indígenas em povos independentes da Federação a que pertencem. Se algum cacique recorrer à ONU contra algo que ele considere agressão cultural, territorial, étnica ou de qualquer outra natureza, efetivos militares poderão ser deslocados para o Brasil em defesa das supostas vítimas. Para que fique bem mais claro, trata-se dos famosos Boinas-Azuis.

Por Mato Grosso somente Homero Pereira discordou da assinatura brasileira na Declaração. Somente ele demonstrou preocupação. Os demais da bancada permaneceram em berço esplêndido. A Assembleia Legislativa, como sempre, voltada para o aleitamento de seus membros. O governo de Blairo Maggi fingiu que não viu. A Imprensa não questionou; não li todos os textos da época; não assisti os jornais regionais da televisão nem ouvi programas jornalísticos de rádio, mas sem medo de errar digo que a indiferença prevaleceu. O conjunto social mato-grossense passou ao largo. Porém, no meu modesto espaço de repórter, cumpri meu papel.

Esse tema não sacudiu o Congresso tanto por seu lulismo de submissão, quanto pelo fato de que os estados com grandes terras indígenas são periféricos politicamente por conta de suas reduzidas bancadas, e por não pertencerem às nobres regiões Sul e Sudeste, além do Nordeste litorâneo.

Não poderia ser diferente em Mato Grosso. Isso é o que deduzo com base no meu conhecimento sobre a atuação das ongs internacionais por aqui, sobre o preciosismo do Ministério Público Federal, sobre o radicalismo da Funai e sobre a simpatia insana de jornalistas pela chamada causa indígena.

Líder nacional do agronegócio, rico em minérios estratégicos e nobres, abundante em água, com regularidade climática e de luminosidade, contemplado por invejável topografia e estrategicamente no centro geodésico da América do Sul, Mato Grosso é barulhento, mas não trava o bom combate, a exemplo de Homero Pereira.

Em setembro de 2013, Homero Pereira filiado ao PSD abriu mão o mandato e se aposentou; no domingo, 20 de outubro daquele ano, no Hospital Sírio-Libanês, na capital paulista ele perdeu a luta pela vida e seu corpo foi velado em Cuiabá, no auditório do Senar, que recebeu seu nome, e sepultado no Cemitério Parque Bom Jesus de Cuiabá, no dia seguinte.

ARTISTA – A música era uma das paixões de Homero Pereira. Gostava de noite, de cantar e tocar violão. Tinha ritmo e boa voz. Mesclava MPB com sertanejo, dor de cotovelo e guarânias. Certa vez em Sorriso ele deu um verdadeiro show abusando da voz, ritmo e repertório. Falei que estava surpreso, e quase ao pé do ouvido ele fez uma revelação: foi cantor da noite. Pedi detalhes. Rindo após um copo de cerveja, desconversou: “Cantor não conta, canta”.

Homero Pereira deixou a viúva Irena Alves Pereira e dois filhos de seu casamento: Homero Alves Pereira Júnior e Joice Alves Pereira.

PS – Continuem lendo a série. Amanhã (14 de agosto), o capítulo 151.

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