O senhor da guerra não gosta de crianças
Caroline Rodrigues*
CUIABÁ
Você já parou para pensar quem são os abatidos em uma guerra? O livro Sem Despedidas, da escritora sul-coreana Han Kang, me fez pensar sobre essa questão e perceber que, enquanto os generais decidem, a população recolhe os corpos em um cenário marcado pela aporofobia da guerra.
A aporofobia é um termo criado, em 1990, pela filósofa espanhola Adela Cortina e descreve o sentimento de aversão aos pobres. Trata-se de um conceito que dialoga com outro termo bastante discutido atualmente: a necropolítica, que trata do poder do Estado de definir quem vai viver e quem vai morrer.
No romance, Han Kang traz relatos da Guerra da Coreia (1950-1953), pesquisados pela autora em documentos e arquivos daquela época, a partir da perspectiva dos principais atingidos: as pessoas comuns que, como eu e você, acordam cedo para trabalhar, fazem contas para encaixar o orçamento dentro do salário e buscam, no pouco tempo que resta – entre acordar, trabalhar e dormir – aproveitar o que a vida oferece.
Para se ter uma ideia da barbárie, fiz uma pesquisa rápida no Google para descobrir quantos líderes, dirigentes e integrantes do primeiro escalão morreram durante a Guerra da Coreia. Encontrei registros de tentativas de assassinato, mas nenhuma morte.
Contudo, a quantidade de vítimas registradas chega a quase um milhão de pessoas. Para ser mais precisa, 928.224 mortos, sendo 178.224 do lado sul (capitalista) e 750.000 do lado norte (socialista).
Todas essas pessoas eram moradores locais e soldados, muitos deles alistados à força. Todos envolvidos em um cenário no qual a animosidade era patrocinada pelo próprio Estado, enquanto os violentados eram integrantes da população em geral.
Não quero dar spoilers dessa maravilhosa obra escrita por Han Kang, mas acredito que dois trechos merecem ser mencionados para ilustrar meu posicionamento.
Em um deles, uma personagem relata que, em uma pequena ilha agrícola da região sul do país, muitas pessoas foram presas sob a acusação de serem simpatizantes do comunismo.
Depois de permanecerem encarceradas por longos períodos e sem alimentação adequada, foram levadas até a praia, onde um quadrado foi desenhado na areia com uma baioneta. Os militares colocavam todos dentro daquele espaço e ordenavam que, de dez em dez, saíssem e se posicionassem à frente. Em seguida, essas pessoas eram metralhadas, e outros dez ocupavam seus lugares.
Entre lágrimas, desespero e pedidos de clemência, a chacina prosseguia. As filas eram compostas por homens, mulheres — algumas gestantes —, crianças e idosos.
Outro ponto que me chocou foi a iniciativa do governo de criar uma espécie de educandário (leia-se prisão) para reabilitar jovens que possuíam ideias comunistas. O livro relata que jovens das vilas eram perseguidos e que alguns líderes comunitários afirmavam que, após a passagem pelo centro de correção, os participantes receberiam sementes e terras.
Assim, muitas pessoas foram enganadas para ingressar no programa e acabaram morrendo ali, já que poucas retornavam.
A mentira era sustentada porque o governo estabelecia metas de recrutamento para cada comunidade e, diante da pressão, os responsáveis utilizavam artifícios vis, mesmo sabendo que as vítimas seriam levadas ao sacrifício.
Embora a narrativa se passe na região sul da península, tenho certeza de que, no lado norte, também ocorreram ações voltadas ao extermínio dos capitalistas. Vale lembrar que, em ambos os lados, os torturados, estuprados, submetidos ao trabalho forçado, mortos ou afastados de suas famílias eram pessoas comuns, como eu e você.
Tudo isso nos revela a face aporofóbica da guerra, que condena os mais pobres em prol de uma elite que parece jogar War — o conhecido jogo de estratégia militar — sem se preocupar com quem são as pessoas que compõem as peças sacrificadas ou reduzidas a pó ao longo da partida.
Por isso, peço aos leitores que chegaram até aqui que reflitam antes de apoiar qualquer guerra. Pensem sobre os verdadeiros interesses envolvidos e sobre os inúmeros corpos de gente comum que ficam pelo caminho.
Talvez esse seja o grande diferencial de Han Kang. Ela não escreve sobre quem desenha as fronteiras nem sobre quem declara as guerras. Ela escreve sobre quem enterra os mortos, procura os desaparecidos e tenta seguir vivendo quando o conflito acaba.
*Caroline Rodrigues é jornalista há mais de 20 anos, mestre em Comunicação, tenta praticar esportes desde sempre, chora em filmes em que o cachorro morre no final e conta causos em boteco. É acadêmica de Nutrição e escreve sobre temas diversos. Resumindo: fala de tudo e se especializou em muitos nadas
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Você já parou para pensar quem são os abatidos em uma guerra? O livro Sem Despedidas, da escritora sul-coreana Han Kang, me fez pensar sobre essa questão e perceber que, enquanto os generais decidem, a população recolhe os corpos em um cenário marcado pela aporofobia da guerra.