MT: Verso e reverso (71 ) – Mar interior de Mato Grosso
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
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Capítulo 71 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o mar interior de Mato Grosso.
O Atlântico é distante, mas Mato Grosso tem o rio Araguaia, que recebe bom fluxo de turistas na Temporada de Praia. É o nosso mar interior.
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Temporada de Praia é a frase que define o período das águas baixas no lendário Araguaia, na região central do Brasil. A estiagem que começa em abril aos poucos diminui o volume azulado do grande rio. Em julho as margens revelam incontáveis praias de areia fina e infinitamente branca, em Mato Grosso, na barranca esquerda, e em Goiás, do outro lado. Barra do Garças é símbolo desse período de sol, calor, água fresca e abundante vegetação ciliar.
A Temporada de Praia acontece em julho, mês de férias e de intensa movimentação turística no Brasil, e se estende a outubro. Seu cenário é o mesmo nas águas e nas praias – muito parecidas nos municípios de Barra do Garças, Torixoréu, Cocalinho, Luciara, Pontal do Araguaia, Araguaiana, São Félix do Araguaia e Santa Terezinha. A diferença fica por conta da infraestrutura das cidades.

A melhor dica ao turista que vai ao Araguaia em busca de praia é levar barraca de camping; a exceção fica por conta de Barra do Garças com suas vizinhas: Pontal do Araguaia e a goiana Aragarças – que formam uma conurbação com 100 mil habitantes. Em Barra a hotelaria é considerada boa.

As águas do rio são mornas e não sofrem com a agressão ambiental tão comum do Brasil.
Na região, a fiscalização ambiental nunca botou placa com os dizeres, Praia imprópria para banho.
A mata ciliar do Araguaia é exuberante. Pássaros de todos os tamanhos e cores dão um toque especial; o atrevido martim-pescador faz sobrevoos sobre os barcos e se exibe num bailado alucinante ao mergulhar em busca de pequenos peixes. Capivaras costumam apresentar espetáculo à parte subindo ou descendo o barranco ribeirinho. Botos surgem aqui e ali com seu balé de deixar os bailarinos do Tchaikovsky de queixos caídos. Cardumes nadam em desespero fugindo de predadores naturais como parte do ciclo da vida na natureza.
A temperatura do período da Temporada de Praia é quente e a umidade relativa do ar não é afetada pela adversidade climática do verão amazônico, pois até nisso o rio é generoso e, em sua cumplicidade com o ar, manda lufadas de vento ameno sobre os corpos quase nus em exposição ao sol nas areias.
Nas barracas de praia predomina a culinária goiana com pratos à base de peixe, mas com alternativa ao trivial carregado no pequi, palmito gueroba, milho cozido, galinha caipira. Pra quem prefere lanche rápido, não falta moqueca, isca de lambari, pamonha doce ou salgada, curau e milho assado na brasa. Isso, sem falar na boa talagada da branquinha pura e com rosário, destilada em alambique de capelo.
No rio e em suas margens se faz de tudo, ou quase tudo. Natação, passeios de barco ou em jet sky, voos em ultraleves de aluguel, pescaria, futebol de praia, safári fotográfico, futevôlei e, claro, namorar, ou alguém é tão louco a ponto de imaginar que a beleza do Araguaia não funciona também como elixir libidinoso?

O Araguaia é ótimo ao longo do dia e durante a noite também. As cidades ribeirinhas promovem shows artísticos com bons nomes da música nacional e grupos regionais. Quando o sol se põe é o momento do lual, que tem hora pra começar – ao escurecer – e pra terminar – quando a alvorada com sua beleza engole outra beleza, a da lua.
Lual é música cantada ou instrumental, ao pé da fogueira, sob a areia com o rio passando ao lado em murmúrio e o barulho dos peixes pulando n’água e a lua por testemunha silenciosa pra não abafar os acordes dos violões, a harmonia das sanfonas, os tinidos do triângulo, os ritmos dos pandeiros, os sons dos saxofones e as vozes da brasilidade apaixonada.
Em Cocalinho a Temporada de Praia tem um ingrediente bem apimentado. É o esporte aquático radical feito sobre quatro rodas. Uma oficina na cidade monta geringonças ao estilo das gaiolas da competição cross rodoviária. Esse veículo artesanal desafia as águas do Araguaia em sua parte mais rasa e faz muito sucesso entre os turistas.
Em São Félix do Araguaia começa a maior ilha fluvial do mundo: a Ilha do Bananal, com quase dois milhões de hectares e que se estende até a tríplice divisa de Mato Grosso, Tocantins e Pará.
Bananal nasce no encontro das águas do rio das Mortes com o Araguaia. Nesse ponto o Araguaia se divide em dois: o rio que corre pela direita ganhou o nome de Javaés e o da esquerda preservou a denominação. Bananal é território imemorial de índios araguaianos.

Aragarças, do lado goiano, não pode ser excluída do roteiro. Afinal, a Praia Quarto Crescente – a mais famosa e movimentada do Araguaia – fica naquela cidade separada de Barra do Garças pelo Araguaia.
De Aragarças se vê um cenário a imagem do Cristo Redentor, cartão-postal de Barra do Garças, na parte acidentada daquela cidade ao pé da Serra Azul, perto de seu balneário termal.
O vaivém do turista entre as duas margens do Araguaia não é complicado pelo fuso horário. Mato Grosso tem uma hora a menos em relação a Brasília, mas no Araguaia essa regra não vale. Lá, se diz que, o horário aqui é o de Goiânia.

BARRA – Barra do Garças é a principal cidade turística de Mato Grosso. Além das belezas do Araguaia, o município tem um imponente balneário de águas quentes na área urbana.

A temperatura das águas nas piscinas do balneário termal oscila entre 36º e 42º centígrados e durante a semana funciona em horário comercial, mas não atende às segundas-feiras. Aos domingos o funcionamento é dilatado. Há armários com chaves para se guardar objetos. Lanchonete e restaurante garantem alimentação e bebidas. Para a criançada existe um play ground e para os adeptos de exercícios físicos no local funciona gratuitamente uma academia sob a copa das árvores. Há estacionamento externo privado e flanelinhas olham o carro do turista, à espera de trocados. Ônibus urbanos fazem linha regular do centro às águas quentes.
