MT: Verso e reverso (70) – Dom Pedro Casaldáliga
EDUARDO GOMES
@andradeeduardogomes
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Capítulo 70 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza Dom Pedro Casaldáliga.
Para descansar eu quero só esta cruz de pau /
Com chuva e sol /
Estes sete palmos /
e a Ressurreição”

O cemitério dos marginalizados socialmente. Uma cova aberta na terra ao lado do rio Araguaia, nos arredores de São Félix do Araguaia. Essa é a morada do bispo prelado emérito daquela cidade, missionário clareatiano, poeta e contestador Dom Pedro Casaldáliga, ou simplesmente Pedro, que é como ele gostava de ser chamado.
Pedro fechou os olhos para sempre em 8 de agosto de 2020, na Santa Casa de Batatais, interior paulista, onde lutava contra doenças que teimavam em minar sua resistência, já abalada pela idade.
Seu sepultamento cumpriu sua vontade: queria repousar ao lados dos que em vida foram excluídos, e fazer de seu epitáfio mais um grito em defesa da igualdade social que foi uma de suas bandeiras.
Sua trajetória de vida se funde e se confunde com o Vale do Araguaia. Sua morte não significa o fim de seus ideais, que são levados adiante por outros religiosos e seguidores de seus ensinamentos.

Espanhol de Balsareny, província de Barcelona, nascido em 16 de fevereiro de 1928, Pere Casaldàliga i Pla – o Pedro – chegou ao Araguaia em 1970 designado para administrar a Prelazia de São Félix do Araguaia. Em 27 de agosto de 1971 foi nomeado bispo prelado pelo papa Paulo VI e sagrado bispo por Dom Tomás Balduíno, bispo da Diocese de Goiás (GO). Em seguida assumiu a Prelazia e a Catedral Prelatícia Nossa Senhora da Assunção, naquela cidade.
Alcançado pela expulsória canônica aos 75 anos, tirou a batina, sendo substituído por Dom Leonardo Ulrich Steiner.
Ao tirar a batina, Pedro recebeu mais que a aposentadoria canônica: ganhou um bota fora. O núncio apostólico no Brasil, Dom Lorenzo Baldisseri, sugeriu que ele deixasse São Félix do Araguaia, para não interferir na missão pastoral de seu sucessor. Pedro lhe deu uma banana imaginária e permaneceu naquela cidade que adotava como sua.
O bispo Dom Adriano Ciocca Vasinp assumiu a prelazia, que se estende por São Félix do Araguaia, Luciara, Alto Boa Vista, Porto Alegre do Norte, Confresa, Canabrava do Norte, Vila Rica, Santa Terezinha, São José do Xingu, Santa Cruz do Xingu, Novo Santo Antônio, outros municípios e o distrito de São José do Fontoura (de Campinápolis).
O CONVÍVIO – Em 2019, em São Félix do Araguaia, uma desgastada cadeira de rodas, ao lado de seu antigo aposento, testemunhava sua vida na casa onde morou sob os cuidados de dois enfermeiros, dois cuidadores de idosos, duas funcionárias que faziam a limpeza e da onipresente dona Diolice Dias de Farias, uma goiana que desde 1992 foi seu braço direito. Sem permanência constante, mas sempre atento, o padre Ivo Cardozo, da Prelazia – no bom sentido – foi o cão de guarda do prelado.
A QUEDA – Pedro enfrentava o Mal de Parkinson há 20 anos, era hipertenso e sofria de labirintite.
Em 30 de julho de 2015 fraturou o fêmur da perna esquerda num acidente doméstico e se submeteu a uma cirurgia com o médico Antônio José de Araújo, no Hospital Pio X, em Ceres (GO). “Eu o levei pra lá, onde foi atendido pelo SUS“, revelou padre Ivo acrescentando que a fratura foi decorrente de uma queda provocada pela debilidade causada pelo Mal de Parkinson. Desde então, a saúde foi definhando. Pedro passou, então, a se manifestar pelo olhar penetrante. Acompanhava tudo ao seu redor, mas imóvel, consciente que o ciclo da vida se fechava.

Capítulo 70 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza Dom Pedro Casaldáliga.