MT: Verso e reverso (76) – O Ernesto
EDUARDO GOMES
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Capítulo 76 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o presidente Ernesto Geisel.
– Ernesto! – Disse a voz rouca e suave ao telefone*. Do outro lado da linha, o presidente linha-dura do governo militar, general Ernesto Geisel, respondeu ofegante: – Eugênia, Eugênia… guria, há quanto tempo…
Depois do telefonema, dona Eugênia Schwantes chegou altiva no Palácio do Planalto. Acompanhada por um ajudante de ordens do presidente entrou no gabinete mais importante do país. Foi recebida pelo anfitrião com um abraço e um beijo nas mãos.
Sua presença no gabinete foi rápida e 20 minutos depois deixava a sede do poder levando um “sim” que era aguardado por centenas de famílias à espera de um pedaço de terra para plantar, colher e viver em paz. O “sim” que dona Eugênia ouviu foi a semente que fez brotar sobre uma área de treinamento do Exército, as cidades de Terra Nova do Norte e Nova Guarita, que não reverenciam a memória do Ernesto e daquela mulher, que foi a figura-chave para o sim que resultou na ocupação do vazio demográfico acima de Sinop, no Nortão.
MEMÓRIA – Nos anos 1970 o pastor luterano Norberto Schwantes, filho de dona Eugênia, iniciou uma colonização no Vale do Araguaia, que resultou na criação de Canarana, Água Boa e Querência, basicamente para agricultores e produtores rurais do Rio Grande do Sul, mas ele tinha uma demanda por mais área e não conseguia encontrá-la, para assentar pequenos produtores de Tenente Portela, Nonoai, Guarita, Cacique Doble, Planalto e Miraguaí, muitos dos quais enfrentavam problemas com os índios Caingangue, pela posse da terra.
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A história oficial diz que a colonização de Terra Nova do Norte somente tornou-se possível por meio de uma parceria do Ministério do Interior, Exército Brasileiro, Governo de Mato Grosso, Governo do Rio Grande do Sul e a cooperativa Coopercana, idealizada e dirigida por Schwantes. Na verdade, houve sim um entendimento multidisciplinar nesse sentido, mas a área de 435 mil hectares onde Schwantes implantou o Projeto Terranova pertencia ao Exército, que naquela época não admitia sequer ouvir a expressão reforma agrária, que em outras palavras era o que o pastor luterano buscava. Antes da visita de dona Eugênia ao presidente, Schwantes conversou com o chefe do Gabinete Militar, general de divisão Hugo Abreu, que lhe deu um “não” nervoso, quase o botou para fora e mandou que o Serviço Nacional de Informações (SNI) o monitorasse. Hugo Abreu além de abominar a ideia do assentamento, defendia que a área permanecesse sob domínio dos militares, como forma de ocupação da Amazônia, numa região onde a Aeronáutica já estava presente com o Campo de Provas Brigadeiro Velloso, que chamamos de Base Aérea do Cachimbo, com 21,6 mil km², em Novo Progresso (PA).
Atendendo ao pedido de dona Eugênia, o Ernesto – como ela o chamava desde a adolescência de ambos – deu ordem para que a área fosse imediatamente transferida a Schwantes. No auge dos anos cinzentos do regime militar, pela primeira vez o Exército cedeu a um movimento que à época era visto como coisa de comunista. Terra Nova do Norte e Nova Guarita cometem injustiça com a memória do Ernesto e de sua amiga, dona Eugênia. Hoje, 10.531 cidadãos residem no município de Terra Nova do Norte, e 4.546 em Nova Guarita. Ao todo, 15.077 brasileiros ganharam o direito à cidadania, que muitos e seus antepassados não encontravam em seu lugar de origem. Dona Eugênia e seu amigo Ernesto não estão mais entre nós, que comemoramos a conquista daquela gente.
* O telefonema foi combinado dois dias antes, numa audiência que o chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, concedeu a Schwantes.
PS – Continuem lendo a série. Amanhã (20), o capítulo 77.