Onde estou? Quem sou? Para onde vou? E, afinal de contas, por que estou aqui? Essas perguntas são enigmáticas e podem nos colocar no centro do universo ou como uma pequena partícula de vida em uma imensidão. Dois caminhos opostos que nos levam da plena relevância à total insignificância.
Usando o filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain para refletir sobre essas questões existenciais, podemos começar pela primeira: “Onde estou?”. Para configurar o mundo e quem vive nele, percebi que o longa recorre a uma complexa cadeia de acontecimentos e sentimentos distintos.
Ao construir o ambiente e o dia em que nasce a personagem, o narrador descreve acontecimentos aleatórios que acontecem simultaneamente em diferentes locais do mundo. Longe do modelo tradicional de se contar uma história, o autor apresenta algo diferente, porém adequado a trama.
Enquanto um “espermatozoide com um cromossomo X, pertencente a Raphaël Poulain — pai de Amélie —, corria para encontrar um óvulo em sua esposa Amandine”, uma mosca batia 14.670 vezes as asas, o vento atingia a varanda de um restaurante e um vizinho chegava em casa após o velório de um amigo e apagava o endereço do falecido de um caderno de anotações.
Esse é apenas um exemplo de como o narrador relaciona os eventos importantes da vida de Amélie ao mundo. Tudo acontece dentro de um fluxo planetário em que vida e tempo se entrelaçam e, ao mesmo tempo, se desconectam.
A forma de apresentação também é extremamente reflexiva e me colocou diante de uma realidade cruel: somos menos que grãos de areia em um universo onde mais de 8 bilhões de pessoas vivem histórias simultâneas, cada um de nós com seu próprio mundo, formado por experiências, vivências, afinidades e perspectivas individuais.
Resumindo: vivemos o mundo que interpretamos — ou recortamos — diante de tantos acontecimentos.
E quem somos nós neste contexto?
Neste artigo, que para quem ainda não assistiu ao filme pode parecer uma viagem psicodélica, não podemos falar sobre “quem somos” sem nos confrontar um tabu. Em um mundo formado por pessoas com egos exorbitantes, a insignificância da individualidade humana é concreta.
Envolta nesse pensamento de ser “nada demais”, comecei a pesquisar em sites aleatórios quanto tempo permanecemos na memória das pessoas depois que morremos. Nenhuma das respostas encontradas se baseava em critérios científicos — e até agradeço se alguém tiver essa informação e puder compartilhar. Contudo, para concluir o raciocínio, vamos adotar metodologias “desconfiáveis”, que atribuem esse período a três gerações, ou seja, ao intervalo entre você e o seu neto.
Considerando a velocidade do tempo atual, esse prazo pode até diminuir, já que os tempos atuais exigem agilidade e reduz a duração das experiências humanas por conta do uso de mídias eletrônicas e do ambiente digital. Assim, aquelas três gerações que pareciam poucas talvez se resumam, em breve, à sua mãe e ao seu filho, duas gerações — porque esperamos que, ao menos eles, não nos esqueçam!
Tudo isso revela apenas que o tempo se esvai enquanto nós somos tomados por um narcisismo que nos leva a desejar estar no centro das atenções em um mundo que desaparecerá completamente em poucas gerações.
Mas, será que não somos nada?
Amélie, nossa heroína francesa, mostra como a definição de uma pessoa pode ser simples e, ao mesmo tempo, efetiva. No filme, a personagem define as pessoas a partir do que elas gostam ou não gostam.
Engraçado, tentei fazer o mesmo e tive certa dificuldade. É incrível como, mesmo em uma atividade íntima, ainda sentimos receio da validação alheia em relação aos nossos sentimentos.
Sendo assim, sem mais delongas, vou compartilhar minha tentativa.
Não gosto de festas. Acho confraternizações de trabalho algo penoso, porque não consigo relaxar e estou sempre em alerta. Trabalho com fé e alegria, mas viveria bem sem trabalhar e não me sentiria inútil por isso. Não suporto conversas que giram em torno de “eu tenho”, “eu sou” ou “sou amigo de”. Não quero saber da vida de famosos. Não gosto de despedidas, filmes com violência explícita e amigos que pensam apenas em pegação. Também não gosto que mexam nas minhas coisas — nem nas mais baratas —, de padre avarento, de gente que tenta ganhar no grito, de homem assediador, de mulher assediadora e de gente mimada.
Gosto de comer feijão com abóbora, ler livros de histórias, vestir pijama e chinelo, assistir desenhos tomando toddy com pão e manteiga. Entre minhas preferências, também estão esnobar quem me faz mal, brincar com cachorro, praticar esportes, escrever histórias, imaginar que tive outras vidas, tomar banho morno pela manhã e, confesso, adoro ver gente ruim se dando mal.
E você? Do que gosta e do que não gosta? Já pensou sobre isso? Surpreenda a si mesmo e não se preocupe tanto com os demais. É hora de se descobrir e entender quem você é.
Acho que, depois de se conhecer, fica muito simples saber para onde ir. A resposta é: para onde você quiser.
Só não se esqueça de correr. O tempo é curto e a sua vida precisa ser importante, em primeiro lugar, para você mesmo.
*Caroline Rodrigues é jornalista há mais de 20 anos, tenta praticar esportes desde sempre, chora em filmes em que o cachorro morre no final e conta causos em boteco. É acadêmica de Nutrição e escreve sobre temas diversos. Resumindo: fala de tudo e se especializou em muitos nadas
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