MT: Verso e reverso (73) – O apito do trem em Rondonópolis
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
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Capítulo 73 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o apito do trem em Rondonópolis.
Ferroviarista é a figura que se intitula especialista em trem, no caso para Rondonópolis. Convivemos com eles, que são lobistas disfarçados de doutores na superficialidade, que discutem o trem como se os trilhos fossem patrimônio familiar e curral para render força eleitoreira.
O céu carrancudo. Ventos atípicos para a época. Temperatura elevada. Baixa umidade relativa do ar apesar da época do inverno amazônico. Centenas de operários com seus capacetes e uniformes deixam tudo de lado e se amontoam próximo aos trilhos. Todos os olhares voltados para o Sul. Alguns esfregam as mãos calejadas. Conversam entre si. Sou um estranho no ninho. Acompanho o que fazem e não desgrudo o olhar do ponto em que eles miram. Não demorou muito. Cerca de 15 minutos e escutamos o barulho do trem, que um funcionário assegurou que chegaria às 16 horas. A composição surgiu puxada por uma máquina vermelha com o número 605. Foi um vai pra lá vem pra cá entre o pessoal. No ponto indicado o maquinista parou. Não houve gritaria, ninguém jogou o capacete para cima e nenhuma palma se ouviu. O operariado humilde e submetido a rígidas regras queria apenas presenciar o feito histórico da chegada do primeiro trem no Complexo Intermodal de Rondonópolis (CIR). À época o celular era apenas telefone móvel e nenhum fez registro fotográfico. Eram 16h10.
A empresa não autorizava conversa com jornalistas. Deixei o local sem nenhuma entrevista, mas realizado porque presenciei um dos capítulos mais importantes de Rondonópolis. Peguei o carro. Parei numa lan house na avenida Lions Internacional. Enviei o texto sobre o feito para o Diário de Cuiabá. No outro dia, cedo, numa reportagem exclusiva os leitores tomaram conhecimento do apito do trem na Terra de Rondon.

Bem antes daquela data, e da inauguração oficial da ferrovia pela presidente Dilma Rousseff e o governador Silval Barbosa, em 19 de setembro de 2013, o trem povoou cabeças ilustres.
Em 1900 o engenheiro civil e deputado federal nascido em Poconé, Manoel Esperidião da Costa Marques defendia a construção de uma ferrovia ligando Cuiabá ao porto de Santos. Um ano depois, o jornalista e escritor Euclides da Cunha bateu na mesma tecla; Euclides era entusiasta do transporte ferroviário. Na metade do século passado, a professora Maria Dimpina Lobo Duarte escrevia artigos nos jornais e revistas cuiabanos pedindo a ferrovia sonhada por Costa Marques e Euclides da Cunha.
O governo federal nunca demonstrou interesse pela ferrovia para Mato Grosso. Porém em 1973, com a crise do petróleo como consequência da Guerra do Yom Kipur entre árabes e israelenses, o barril de petróleo virou arma econômica e seu preço subiu no mercado internacional, do qual o Brasil era totalmente dependente. Os militares buscavam uma saída doméstica para a autossuficiência.
Em 14 de novembro de 1975 o presidente Ernesto Geisel anunciou a criação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool) para abastecer a frota de veículos que seria lançada a álcool ou convertida para aquele combustível. Era o sonho com o fim da importação do petróleo, mas na época não se falava no ganho ambiental com a mudança do combustível fóssil para o álcool que não lança metais pesados na atmosfera.
O Proálcool precisava de canaviais fora de São Paulo, pois a cana paulista tinha destinação internacional por meio do açúcar. Geisel contava com um estrategista econômico e outro político; João Paulo dos Reis Velloso era o ministro do Planejamento, e o general Golbery do Couto e Silva chefiava a Casa Militar e sempre tirava um coelho da cartola.

De Santa Fé do Sul a Rondonópolis a ferrovia recebeu o nome de Senador Vicente Emílio Vuolo. O trecho ferroviário estadualizado e em obras ligando Rondonópolis a Lucas do Rio Verde, com um ramal para Cuiabá, também foi batizado de Ferrovia Senador Vicente Emílio Vuolo. À época da concessão federal, Vuolo não era mais senador. Em 1978 o Senado seria renovado em dois terços, mas com um senador indicado, o chamado biônico; porém para Mato Grosso seriam três vagas, uma vez que o senador Mendes Canalle optou por cumprir os quatro anos restantes de seu mandato por Mato Grosso do Sul, que acabara de ser emancipado. Com Gastão Müller nomeado senador, o eleitorado escolheria dois senadores, sendo que o mais votado teria oito anos de mandato, e o segundo, quatro. Benedito Canellas foi o campeão nas urnas e Vuolo ficou em segundo lugar. O trecho estadual da ferrovia, em obra, também recebeu o nome de Senador Vicente Emílio Vuolo.
De Sumaré (SP) a Rondonópolis a Brado Logística opera o sistema double stack – que na versão livre do inglês para o português significa um vagão sobre o outro. Esta modalidade dobra a capacidade de volumes na mesma viagem e atende cargas fracionadas, carne congelada para exportação e outros itens.
Se tem algo que Rubens Ometto sabe fazer é ganhar dinheiro. Tanto assim, que é bilionário, em dólares, segundo a Forbes. À frente de negócios gigantescos, maior produtor mundial de etanol, maioral no transporte de cargas ferroviárias no Brasil, o dono do CIR não disputaria sozinho (nem concorrendo) a concorrência para construir uma ferrovia que roubasse a lucratividade de seu empreendimento rondonopolitano.