MT: Verso e reverso (63) – Gisela Simona
Eduardo Gomes
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Capítulo 63 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza a pré-candidata a deputada federal Gisela Simona filiada ao União Brasil em federação com o PP.
Gisela é suplente de deputada federal e preside o União Brasil Mulher de Mato Grosso. Seu nome figura entre os puxadores de votos na chapa que dentre outros deverá ter o deputado federal Fábio Garcia, ex-deputado federal Nilson Leitão, ex-deputado federal Victorio Galli, médico em Cuiabá Marcello Sandrin, coronel César Roveri, Antônio Bosaipo e a ex-primeira-dama de Mato Grosso Virgínia Mendes; Roveri não é filiado, mas por ser policial a legislação faculta sua filiação fora do prazo concedido aos demais.

Gisela sabe que sua chapa não elegerá mais do que dois para a Câmara. Também tem consciência que o mais votado deverá ser Fábio Garcia e brigará pelo segundo lugar com Leitão e Galli.
Virgínia Mendes não tem vivência política, mas seu nome foi massificado pela mídia, com incontáveis postagens diárias nos sites em todas as regiões mato-grossenses – em algumas datas o mesmo site postava três ou quatro matérias diárias com ela, que falava sobre tudo. Com a renúncia de seu marido, Mauro Mendes, que deixou o cargo para disputar o Senado, o nome de Virgínia sofreu um processo de volatilização muito rápido, e inclusive um site a criticou por suposto uso da máquina pública em seu benefício. Portanto, é possível que a votação da ex-primeira-dama não seja expressiva.
Quem é Gisela?
Tempo é fábrica de esquecimento. Alguém já disse isso.
Quem se lembra do ponta-esquerda Mitu, do Mixto, nos anos 1970?
Quem? Quem? Quem?
O passado está relegado ao seu tempo, no ontem. Mitu, porém continua em cena, não com seu dribles desconcertantes nem com seus cruzamentos perfeitos … nada disso, o craque Alvinegro da Getúlio Vargas se chamava Hamilton Ribeiro de Souza e está vivo entre nós por sua descendência que se formou a partir de seus filhos, que se destacam na figura da advogada Gisela Simona, uma negra cuiabana, de origem humilde, que ganhou Mato Grosso por sua retidão profissional na Superintendência do Procon, órgão ao qual chegou em 2002, sem apadrinhamento e por força de sua aprovação em concurso público.
Caçula da perradinha de cinco filhos do casal Arenil Maria e Hamilton, Gisela Simona Viana de Souza tinha apenas 1 ano quando sua família ganhou nove filhos de uma só vez. Esse aumento familiar na verdade foi o maior gol marcado por seu pai, que em campo era o craque Mitu, que tantas vezes levou a torcida ao delírio estufando as redes adversárias. Uma tragédia em família foi a razão para a filharada passar de cinco para 14. O tio de Gisela, Benedito Joel, sofreu um acidente vascular cerebral e não sobreviveu. A mulher de Benedito Joel, dona Ana Matildes, ao ser informada, não suportou o adeus do marido e seu coração parou de bater. Ficaram nove crianças na orfandade, porém nenhuma foi abandonada: todas foram acolhidas na condição de filhos dos tios Arenil e Hamilton.
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Gisela cresceu num ambiente familiar onde todos sabiam que por serem pobres e negros teriam que enfrentar muitas barreiras. A cada raiar do dia recebia lições de vida. Seu avô tinha um pequeno rebanho bovino leiteiro nas imediações da Guarita, em Várzea Grande. Todos os dias cruzava o rio Cuiabá – que une as duas cidades – para vender leite nas ruas da capital.
Ao cair da noite, dona Arenil reunia a filharada para uma boa prosa. Certa vez ela revelou que morava em Várzea Grande e estudava na Escola Senador Azeredo, em Cuiabá. Sua família era muito pobre, e ela, para economizar fazia o trajeto da casa à escola, com os chinelos nas mãos. Guerreira, a mãe de Gisela conquistou diploma de Pedagoga, e agora, aposentada, tem mais tempo para continuar levando adiante seus ensinamentos familiares aos filhos e netos.
Hamilton é uma saudade sem fim pra Gisela e sua família. Fato raro para sua época, o craque Mitu quando deixava o gramado assumia sua identidade profissional de professor de História. Culto, aos 50 anos o professor Hamilton recebeu o canudo de advogado. Os pais de Gisela sempre se empenharam muito para que os filhos estudassem. Esse empenho responde em parte pelo perfil da filharada, que bem pode ser identificado como sendo uma família de educadores.
Filha de peixe, peixinho é. Gisela buscou no esporte a chave que abrisse a porta aos seus estudos. Por ser boa jogadora de basquete, o Colégio Coração de Jesus lhe deu uma bolsa de estudos. Antes, em Várzea Grande, foi aluna da Escola Municipal Joãozinho e Maria, que mais tarde ganharia o nome de Escola Municipal Professora Marilce Benedita de Arruda; de lá, se matriculou em Cuiabá na Escola Vicente Maria Botelho, de onde o basquete a levou para o Coração de Jesus.
Cáceres foi amor à primeira vista. Gisela desembarcou naquela bicentenária cidade para cursar Direito na Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e carrega o orgulho – no melhor sentido possível – por integrar a terceira turma de formandos em Ciências Jurídicas e Sociais daquela instituição. Ao receber o canudo em 1999 se sentiu duplamente realizada: parte de sua caminhada até a beca e a foto de formatura foi aplainada pelo esporte, a exemplo do que aconteceu com seu pai; o diploma era o mesmo do seu ídolo, herói e fonte de inspiração.
O período em Cáceres foi gratificante não somente pelo curso. Naquela cidade, que é sede de um município maior do que Sergipe e tem intensa presença de bolivianos, por ser fronteiriça, Gisela aprendeu na prática regras de condutas entre povos distintos e conheceu a realidade econômica e os desníveis sociais na faixa de fronteira que se caracteriza pela absoluta ausência do Estado em muitas esferas. Na Unemat, sempre levantou a voz nas discussões acadêmicas. No Diretório Central do Estudantes brigou pelo reconhecimento do curso de Direito pelo MEC, e em nome dessa bandeira chegou a fazer greve de fome.
Faculdade à parte, era hora de trabalhar. Depois de tirar de letra o Exame de Ordem, Gisela foi aprovada em concurso público para a carreira de Conciliadora de Defesa do Consumidor, na esfera da carreira jurídica no Procon. Em 21 de fevereiro de 2001, o governador Dante de Oliveira lhe deu posse naquele cargo. À época, o Procon ainda era palavra meio estranha à população, mas aos poucos virou referência em defesa do consumidor. No batente diário, Gisela se destacou muito. Jornais e TVs passaram a ouvi-la. Seu nome chegou ao principal gabinete do Palácio Paiaguás e em 2008 o governador Blairo Maggi a nomeou superintendente do Procon.
Blairo entregou o governo a Silval Barbosa, e Gisela permaneceu no cargo. Em janeiro de 2015 Pedro Taques tomou posse enquanto governador, e Gisela foi mantida, mas sua intransigente postura em defesa do consumidor desagradou Taques e outras figuras da classe política, por duas razões: a superintendente mexeu com grandes interesses nos setores de combustíveis e transportes. Políticos e empresários, juntamente com políticos empresários dos dois setores sentiam urticária ao ouvirem a palavra Gisela. Essas figuras pediram sua cabeça, o que foi prontamente aceito por Taques em março de 2017.
Primeiro palanque
Em 2018 o senador Wellington Fagundes (PL) disputou o governo tendo Sirlei Theis (PV) em sua chapa enquanto vice. Gisela foi candidata a deputada federal pelo PROS, numa das coligações de Wellington aos cargos proporcionais, a Força da União IV, formada pelo PR (agora PL), PRB, PP, PTB, PT, PODE e PROS.
Sem recursos para campanha e, em razão disso impossibilitada de percorrer a quase continentalidade mato-grossense, Gisela centrou sua campanha em Cuiabá e Várzea Grande. Foi a campeã de votos ao cargo em Cuiabá, com 33.762, e segunda colocada em Várzea Grande, com 11.750. Alcançou 50.682 votos ficando com a primeira suplência de sua coligação que elegeu Neri Geller (PP), Emanuel Pinheiro, o Emanuelzinho (PTB), José Medeiros (PODE) e Rosa Neide (PT).
Gisela recebeu o resultado com alegria. Foi sua estreia eleitoral e, na sua Cuiabá, além de conquistar a maior votação ao cargo, bateu Emanuelzinho, (27.376 votos). Em Várzea Grande foi vice-campeã, com o vereador Ícaro Reveles (PSB) em primeiro com 14.004.
Novamente superintendente
Após as eleições de outubro de 2018 o nome de Gisela ganhou força política, principalmente em Cuiabá. Partidos passaram a considerá-la peça-chave na disputa da prefeitura neste 2020. Em fevereiro, o então governador democrata Mauro Mendes a nomeou superintendente do Procon em substituição a Eduardo Rodrigues da Silva.
Mesmo sendo servidora do órgão e considerada exemplar em sua função, a volta de Gisela não pode ser considerada apenas procedimento administrativo. A máquina pública foi montada para que os políticos exercessem plenos poderes sobre ela. O Procon é um órgão apolítico e funciona assim, mas a nomeação de sua direção passa pelo fígado ou o coração de quem governa.
Mauro Mendes fatiou seu governo com deputados e partidos. O PROS tem uma cadeira na Assembleia Legislativa com o deputado João Batista Pereira de Souza, que adota o nome parlamentar de João Batista do Sindspen, para facilitar sua identificação enquanto sindicalista do sistema prisional, que se faz representar pelo Sindspen.
O governador precisava de apoio parlamentar, e João Batista é estratégico por representar servidores públicos, que desde o governo anterior, de Pedro Taques, estavam insatisfeitos por achatamento salarial, retenção da RGA, falta de realização de concursos públicos para algumas áreas em defasagem funcional pelo reduzido quadro, e também pelo escalonamento de salários e sua quitação no mês subsequente ao trabalhado.
João Batista integrvaa uma legislatura que se dividia entre duas bancadas: uma, situacionista crônica, independentemente de quem exerça o poder, e outra, de oposição confiável – que é onde ele legislava.
Cuiabá é uma cidade com forte presença de servidores públicos. Essa condição facilitou para que a população aceitasse com naturalidade a nomeação de Gisela logo após sua participação na campanha de Wellington, que foi o principal adversário de Mauro Mendes. Justiça se faça e política à parte, o Procon tem a cara de Gisela e ela não leva para mesa de trabalho sua filiação partidária.
Aliança com Abílio
