Boa Midia

SÉRIE – Verso e reverso de Mato Grosso (3)

EDUARDO GOMES
@andradeeduardogomes
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Em 1970, produtores rurais compraram parcelas da Gleba Celeste, onde mais tarde surgiria o município de Santa Carmem. Os negócios eram fechados com base em informações de corretores e a localização dos imóveis por mapas elaborados pela Colonizadora Noroeste do Paraná (Sinop), de Ênio Pipino. Foi assim, naquele ano, que o agricultor Henrique Avelino Pereira se tornou proprietário em Santa Carmem. Um ano após o negócio, Henrique trocou Diamante do Norte, no Paraná, por uma aventura na Amazônia. Para conhecer a área, viajou de ônibus até Cuiabá, de onde num monomotor voou até o acampamento do 9º Batalhão de Engenharia de Construção (9º BEC) na BR-163, no lugar onde mais tarde seria Lucas do Rio Verde. Para completar o trajeto, de jipe, chegou à gleba.

Henrique foi o primeiro morador nas imediações da futura cidade. Depois de sua chegada começou a construção da vila com a abertura da Avenida do Comércio, onde o estabelecimento pioneiro foi a loja de Ana José da Silva. Gente de todos os cantos do país mudou-se para Santa Carmem nos primeiros anos de sua colonização, mas o grosso do contingente populacional era originário do Sul, sobretudo do Paraná.

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O motorista da C-10, Ênio Pipino

Nortão, sexta-feira, 16 de maio de 1980. Pé firme no freio. A Chevrolet C-10 para. O motorista engata a primeira marcha puxando a alavanca pra baixo. Lentamente a camionete cruza a pequena ponte de madeira sobre o rio Azul, mas o faz engasgando. Aos trancos chega à vila de Santa Carmem. O remédio é procurar um mecânico. Um mecânico, não; o único do lugar, o jovem paranaense Aarão Avelino Pereira. O cliente era ninguém menos que Ênio Pipino, o dono da colonizadora Sinop.

Tímido, Aarão recebe Ênio Pipino e faz o diagnóstico mecânico. “É o platinado, seo Ênio. Mas vou dar um jeito”. Num piscar de olhos a peça é lixada e o veículo está pronto, tinindo. A oficina funcionava debaixo da copa de um frondoso tamboril, à base do improviso. O cliente pergunta a Aarão se ele não tinha um lote para se instalar. “Quem sou eu, seo Ênio!”, Aarão admite sua fraqueza.

Sem muita conversa, Ênio Pipino doou ao mecânico um lote na avenida principal e sua oficina ali funcionou até 2015, quando baixou as portas, pois Aarão perdeu parte da capacidade motora ao ser afetado por uma neuropatia, que o deixou preso a uma cadeira de rodas.

Aarão, um terreno e a neuropatia

A doação do terreno nobre para Aarão deixou claro a sensibilidade do colonizador Ênio Pipino, e sua preocupação em facilitar o trabalho daqueles que trocavam seus lugares de origem pela aventura da construção das cidades de Sinop, Cláudia, Vera e Santa Carmem, que ele colonizava na Gleba Celeste, na Amazônia Mato-grossense, na região que ganhou o nome de Nortão.

No sábado 19 de novembro de 2016 estive com Aarão em sua casa, na fazendinha de sua família, ao lado de Santa Carmem, onde o ouvi para um livro que publiquei naquele ano focalizando a rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163) e o Nortão, a região que era um grande vazio antes de sua construção e virou a cereja do bolo de Mato Grosso. Na véspera, ele completou 60 anos. Foi a segunda vez que o vi. A primeira aconteceu em 1999, quando levantava material para uma série sobre os 500 anos do Brasil. A doença não o abateu e seu sonho era vencê-la e fazer aquilo que sempre fez e mais gostava: trabalhar na oficina.

Infelizmente a neuropatia o venceu.

MUNICÍPIO – Santa Carmem dista 26 km de Sinop pela rodovia pavimentada João Adão Scheeren (MT-140), o município tem 6.000 habitantes e sua área territorial é de 3.812 km². Sua proximidade com Sinop, que é o maior polo da região, prejudica seu crescimento, pois a primeira opção é construir na cidade grande, mas, por outro lado a vizinhança tem seu lado positivo: a prefeitura investe menos em Educação e saúde, e a população tem a opção de comprar no comércio sinopense, que por suas características oferece melhores preços. Santa Carmem foi importante polo madeiro e figura entre os municípios do agronegócio.

O município foi criado em 19 de dezembro de 1991, desmembrado de Sinop e Cláudia, por uma lei de autoria do deputado Hermes de Abreu e sancionada pelo governador Jayme Campos.

ELE – Aarão chegou ao lugar em 1970 acompanhando o pai. Prestou o serviço militar no 9º Batalhão de Engenharia de Construção (9º BEC), em Cuiabá. Em 1983 foi nomeado subprefeito de Santa Carmem, na gestão do prefeito Geraldino Dal Maso, em Sinop.

PS – Continuem lendo a série. Na terça-feira, 24, será postado o quarto capítulo. Boa leitura.

Fotos:

1 – Prefeitura de Santa Carmem

2 – Colonizadora Sinop

3 – Eduardo Gomes

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