MT: Verso e reverso (86) – Carlos Fávaro
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
eduardogomes.ega@gmail.com
Capítulo 86 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o senador Carlos Fávaro (PSD), pré-candidato à reeleição e que conseguiu a proeza de destinar uma faraônica emenda de 26,5 milhões em 2023 para o município de Jangada recapear a pavimentar ruas.
Se o agronegócio tem voz em Mato Grosso essa é a de Carlos Fávaro, o afilhado político de Eraí Maggi Scheffer, que alcançou o ‘milagre’ de chegar ao Senado mesmo derrotado nas urnas, graças a justificativa de bancas de advocacia – as mais caras do Brasil -, que conseguiram uma decisão monocrática que lhe conferiu a bionicidade que nos remeteu aos anos de chumbo da ditadura militar. Produtor rural, Fávaro foi indicado por Eraí para ser vice-governador de Pedro Taques em 2014, mas o abandonou. Sobre Fávaro, Taques disse que a política adora traição, mas abomina os traidores.
ELE – Carlos Henrique Baqueta Fávaro, produtor rural paranaense radicado em Lucas do Rio Verde, no Nortão, entrou no noticiário em 29 de novembro de 2011 ao assumir a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja). Àquela época, tanto a Aprosoja regional quanto a nacional eram presididas pelo produtor Glauber Silveira, o Maguila, que se eternizava no poder. Alguns líderes do agro passaram a se sentir desconfortáveis com aquele cenário, e a presidência em Mato Grosso caiu no colo de Fávaro. Não caiu por sorte nem por coincidência – foi decisão de Eraí, um dos homens mais fortes do agro brasileiro e que costuma dar as cartas de modo discreto.

Fávaro na Aprosoja era parte de um plano de Taques com apoio de Eraí à frente do agro. À época, Taques era senador pelo PDT. Eraí via em Fávaro (filiado ao PP) o nome ideal para compor a chapa de Taques ao governo em 2014, por sua capacidade de articulação, boa oratória e afinidade ruralista.
No dia 5 de novembro de 2013, em nome do projeto 2014, Fávaro se reelegeu presidente da Aprosoja e com intensidade migrou para as páginas dos jornais, sites, rádio e TV.
Analistas diziam reservadamente que a candidatura de Taques ao governo precisaria de um bom vice, para se viabilizar. Taques é emburrado, impessoal, não cultiva amizade, arrogante e nos primeiros momentos políticos não conseguia se desvincular da função de procurador da República, da qual abriu mão para concorrer ao Senado em 2010. Nas rodas de jornalistas se dizia que o ideal seria um político carreirista e populista para compor sua chapa; alguém com o perfil de Zé Carlos do Pátio, de Rondonópolis; Wilson Santos, de Cuiabá; ou Nilson Leitão, em Sinop, que são figuras identificadas pelo DNA do palanque.
Eraí pensava diferente e botou Fávaro na chapa de Taques.
No salto da Aprosoja para a chapa de Taques, Fávaro transmitiu a presidência para seu vice, Ricardo Tomczyk, advogado que cultiva em Rondonópolis e que seria secretário de Estado no governo Taques.
O plano
Menos de um ano após a posse de Taques e Fávaro, praticamente não havia oposição a eles. Taques chegou ao poder com a sirene ligada, e os principais nomes que poderiam lhe fazer oposição: Silval Barbosa e José Riva cairam em desgraça, enrodilhados por condenações e acumulando prisões .

O campo estava aberto para Taques se reeleger e Fávaro ser senador em 2018. A oposição estava assustada com a massificação da prisão de políticos e empresários. Eraí, porém, avaliava que José Riva ainda tinha peso político e sabia que ele controlava o PSD, muito embora o presidente regional fosse o ex-vice-governador de Silval, Chico Daltro. Eraí se reuniu com Gilberto Kassab e a legenda caiu no colo de Fávaro em 28 de setembro de 2015. Eraí e Taques queriam o espólio partidário do cacique do PSD, mas refugavam o grupo chamado Viúvas de Riva. A ordem era um expurgo paralelamente à renovação de filiações.
Fávaro tornou-se o novo mandachuva do PSD e sucessor de José Riva, e exigiu que alguns nomes se desfiliassem, e dentre eles, José Riva; Janaína Riva – filha de Riva, deputada estadual eleita com 41.171 votos, a segunda maior votação para o cargo em 2014 – e o deputado estadual Gilmar Fabris. Os Riva pegaram o boné. Fabris articulou com Fávaro e Taques, e permaneceu.
Janaína em 2018 foi reeleita com 51.546 votos – maior votação para a Assembleia – e foi empurrada para o MDB do então cacique e deputado federal Carlos Bezerra, que não permitia crescimento de lideranças acima da linha de cintura partidária. Em Brasília, ao botar o jamegão na ficha do MDB, Janaína Riva foi prestigiada pelo vice-presidente Michel Temer; o presidente do Senado, Eunício de Oliveira (CE); Bezerra; e o deputado federal Valtenir Pereira. Com José Riva o PSD tinha peso na Assembleia Legislativa. Com Fávaro, murchou. Em plenário somente o deputado Nininho, que se filiou após a queda do antigo cacique. Na bancada federal não havia representante. Entre as 14 maiores prefeituras, o partido administrava apenas a de Lucas do Rio Verde, com Flori Luiz Binotti.
Fávaro cumpriu bem o papel do desmanche para a reconstrução do PSD. Eraí queria isso, também por indisposição com José Riva, que tentou incriminá-lo por supostamente utilizar cooperativas para vendas de commodities, o que aliviava a carga tributária.
O PSD ressurgiu com 23 prefeitos, sendo que alguns cumpriam o segundo mandato, a exemplo de Mauro Rosa, de Água Boa, a principal cidade do Vale do Araguaia administrada pela sigla; tinha 20 vice-prefeitos e 260 vereadores. Parte desses políticos foi eleita em 2016. O grupo das Viúvas de Riva, no âmbito das prefeituras, deixou o poder em 1º de janeiro de 2021.
À princípio o plano, não contava com a derrota de Taques em sua tentativa de reeleição, e ainda teve que ser reconfigurado no dia 5 de abril de 2018 com a renúncia de Fávaro do cargo de vice-governador. Eraí o queria senador quatro anos depois, mas acontece que uma rusga com Taques colocava em risco o projeto ao Senado. A lei dizia que em caso de viagem do governador ao exterior, automaticamente o vice seria revestido do cargo. Taques – como se diz nos meios políticos, não é flor que se cheire – poderia embarcar para Santa Cruz da la Sierra, de uma hora pra outra, e se fizesse isso, Fávaro seria inelegível para senador. Dos males o menor. Uma carta e muitos discursos pregando desprendimento chancelaram o adeus à vice-governadoria
Fávaro e o CAR
Em 4 de abril de 2016 Fávaro assumiu a Secretaria de Meio Ambiente (Sema) substituindo a promotora de Justiça Ana Luiza Ávila Peterlini de Souza, e permaneceu no cargo até 18 de dezembro de 2017, quando o transmitiu a André Torres Baby. Ana Peterlini foi impedida de permanecer na Sema, por ser integrante do Ministério Público (MP), que assim o entendeu.
Durante a gestão de Fávaro na Sema, uma investigação do MP teria descoberto um crime com sério impacto no meio ambiente em Mato Grosso, na emissão irregular de Cadastro Ambiental Rural (CAR).
Preliminarmente teriam sido descobertos 650 casos de irregularidades em CARs. Em razão disso, o MP teria pedido à Vara Especializada do Meio Ambiente (Vema), prisões preventivas de servidores ligados ou suspeitos de ligação com a fraude na emissão, e também a prisão preventiva de Fávaro, O pedido teria sido feito em 22 de setembro de 2018. A fonte dessa informação é ligada ao MP e acrescentou que no grupo político de Fávaro houve desespero, pois se ele fosse preso, seu projeto político seria inviabilizado. Esse caso foi estranhamente abafado.
Derrota para o Senado
Em 2018, Fávaro disputou o Senado. Recebeu 434.972 votos, ficando em terceiro entre os candidatos. O pleito foi vencido por Selma Arruda (PSL), com 678.542 votos e Jayme Campos (DEM), com 490.699. Derrotado, Fávaro entrou com a ação que resultou na cassação da chapa de Selma Arruda por abuso de poder econômico.
Degolada a senadora, o advogado de Fávaro e ex-ministro José Eduardo Cardozo conseguiu uma proeza: o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, em decisão monocrática no dia 31 de janeiro de 2020, em pleno recesso forense, determinou que o Senado desse posse a Fávaro e que o mantivesse no cargo até a eleição de um senador ou senadora na eleição suplementar de novembro. Em 28 de abril de 2020, o presidente Davi Alcolumbre (DEM/AP) entregou a cadeira ao afilhado de Eraí. Vale observar que na fundamentação de José Eduardo Cardozo havia um chororô do à época governador democrata Mauro Mendes pelo mandato manga curta para Fávaro, pois Mato Grosso estaria sendo prejudicado por contar com apenas dois senadores.
Fávaro levou para a bionicidade no Senado os suplentes de sua chapa derrotada: Geraldo Macedo (PSD) e José Lacerda (MDB).
Senador e ministro
Em 2022, Fávaro disputou o Senado e venceu, com 371.857 votos, mas mudou sua chapa em relação ao pleito anterior. Retirou Geraldo Macedo e botou Margareth Buzetti (PP) na primeira suplência, mantendo José Lacerda na outra. Ao todo, 11 nomes concorreram ao cargo, e seus principais adversários foram: Coronel Fernanda (Patriota), com 293.362 votos; Nilson Leitão (PSDB), com 157.504 votos; e José Medeiros (Podemos), com 138.922 votos.
O presidente Lula nomeou Fávaro ministro da Agricultura e Pecuária e ele praticamente não ocupou sua cadeira no Senado, até recentemente, quando entregou o cargo para tentar a reeleição.
No primeiro mandato Fávaro foi um zero à esquerda na Senado. No segundo sua presença foi pinga-fogo para votar projetos estratégicos já que a suplente Margareth Buzetti (PP) não é confiável para Lula. Em suma, no cargo de senador Fávaro é uma página em branco.
ESCANDALO – Em 2024, a Conab, da estrutura do Mapa, foi palco do escândalo do arroz, também chamado de Escândalo Nerizzo – mistura de Neri (Geller) com arroz em italiano, ’rizzo’. Foi uma atabalhoada tentativa de importação de arroz que movimentaria um montante bilionário.
Quando do Nerizzo, Mato Grosso controlava o Mapa: Fávaro, de Lucas do Rio Verde, era o ministro; Irajá Lacerda (PSD), de Cáceres, secretário-executivo; Neri Geller (PP), de Lucas do Rio Verde, secretário de Política Agrícola; Teti Augustin (PT), de Rondonópolis, assessor especial; Rosa Neide (PT), de Cuiabá, diretora Administrativa, Financeira e de Fiscalização da Conab; Thiago José dos Santos (PP), de Nortelâdia, diretor de Abastecimento da Conab; e Jônatas Pulquério (PP), de Cuiabá, diretor de Gestão de Riscos do Mapa.
A tentativa intempestiva da importação do arroz foi duramente criticada por orizicultores e entidades de classe do agro. A justificativa para importar até 300 mil toneladas de arroz era a proteção do consumidor diante de possível desabastecimento do mercado em razão das enchentes no Rio Grande do Sul, mas os produtores gaúchos negavam tal risco e questionavam a importação. A Conab anunciou que a princípio importaria 263,3 mil toneladas pelo montante de 1,316 bilhão, com preço médio por quilo de R$ 4,9982.
O escândalo levou Lula a suspender o negócio e a exonerar Neri. Dentre as fundamentações para o cancelamento, o fato de as empresas envolvidas no negócio não atuarem na área e terem ligações quase umbilicais com Neri. Resumo: ninguém foi punido e o caso foi encerrado sem paternidade, porque ninguém é pai de filho feio.
No Ministério Fávaro criou em Nossa Senhora do Livramento, a Embrapa da Baixada Cuiabana, que é uma unidade mista de pesquisa e inovação voltada para o pequeno agricultor. Porém, a grande presença do ministro Fávaro em Mato Grosso foi na área de conservação e de recuperação de estradas de interesse do setor rural; quanto a essa atuação nada se pode dizer, pois a estrada recuperada num dia, no outro poderá será danificada por chuva, e prevalece a máxima do Jogo do Bicho: Vale o que está escrito.
Emenda suspeita

Mesmo fora do Senado, Fávaro encontrou meios para destinar emendas parlamentares a aliados. Em 2023, o prefeito Rogério Meira (PSD), de Jangada, recebeu uma emenda de 26,5 milhões para pavimentar e recapear ruas de sua cidade, que é sede de um município com 7.400 habitantes. A dinheirama jorrou farta nos cofres da prefeitura, que contratou duas empresas para as obras: a Aliança Construtora, com sede em Várzea Grande, que assinou dois contratos no montante de 15,24 milhões, e um com a Miloca Locação e Pavimentação, de Jangada, de 11,26 milhões. Emenda parlamentar por si é suspeita, mas essa de Fávaro para Jangada saltou aos olhos e virou manchete nacional, praticamente abafada por aqui. No entanto, em novembro do ano passado, no auge do escândalo na imprensa brasileira, o presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Sérgio Ricardo, instaurou uma tomada de contas especial (ou seja, em outras palavras uma investigação) e foi para a mídia afirmando que o caso passaria pelo crivo do TCE. Com o anúncio de Sérgio Ricardo, o que era silêncio mais silencioso ainda ficou sob a justificativa de que as autoridades estavam passando a emenda a limpo. Transcorridos seis meses o TCE não moveu uma palha sequer e caso o tenha feito, juntou seu silêncio ao silencioso mundo do Quarto Poder sempre bem empenhado.
Mais um mandato

Fávaro quer mais um mandato de senador e sonha continuar liderando a esquerda em Mato Grosso. Para sua pré-chapa ele teria convidado o produtor de algodão em Campo Verde e seu correligionário Alexandre Schenkel, para a primeira suplência; e oficialmente convidou – e ela aceitou – a sindicalista Carmen Machado (PV) para a segunda.
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Capítulo 86 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o senador Carlos Fávaro (PSD), pré-candidato à reeleição e que conseguiu a proeza de destinar uma faraônica emenda de 26,5 milhões em 2023 para o município de Jangada recapear a pavimentar ruas.