Minha desconfiança com o entretenimento instantâneo começou numa manhã de sexta, a caminho do trabalho. A situação trivial, naquele vagão de metrô, teria sido há muito esquecida, salvo por um detalhe curioso: todas as pessoas sentadas, dentro do meu campo visual, tinham a cabeça inclinada e os olhos pregados em seus respectivos celulares. Havia, entre elas, rostos curiosos e concentrados; alguns pareciam divertidos; outros, tristes. O único traço comum a todos era o isolamento social.
Vivenciamos, com o advento dos modernos aparelhos celulares, uma era de conforto, comunicação e acesso à informação sem precedentes. Informação no sentido mais amplo possível: da singela música infantil ao esquema de funcionamento de um artefato bélico nuclear, passando por toda a sorte de conteúdo pensado para capturar a atenção do usuário pelo maior período de tempo possível. Onipresentes na rede, algoritmos eficientes identificam preferências individuais, realimentando o usuário em um interminável carrossel de novidades afins.
É sabido que o cérebro humano tende a repetir ações que ativem o sistema de recompensa baseado nos chamados “hormônios do prazer”, cuja finalidade é o reforço de comportamentos favoráveis à sobrevivência do indivíduo, como o estresse da caça, a concentração do aprendizado ou o esforço físico produtivo. Como não há dilemas de sobrevivência envolvidos na interminável rolagem da telinha, temos, nesse caso, o reforço de um hábito que leva o usuário a consumir horas do seu tempo numa atividade absolutamente estéril, tudo pelas endorfinas “baratas” e instantâneas proporcionadas pelo celular.
Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura. Ler exige, contrariamente ao entretenimento instantâneo, investimento de longo prazo. Adiando a recompensa, comunicamos ao nosso cérebro que coisas boas exigem esforço, investimento e participação. Ler demanda esforço intelectual, disciplina e comprometimento. É treino mental. Treino que abre portas para a satisfação da tarefa cumprida, do trabalho bem-feito, do aprendizado e da realização pessoal.
Se o usuário compulsivo das telas tende à preguiça e à procrastinação – pois está viciado em recompensas imediatas –, o leitor assíduo treina sua mente para as demandas da vida e para a ação.
E aí, de qual lado você quer ficar?
*Marcel Bennet é escritor e autor do livro “Pássaro de Fogo – O Talismã de Yelnya”
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