Boa Midia

Inteligência Artificial Física: o futuro do varejo começa na educação profissional

Edson Dahmer*

CUIABÁ

A IA entra em uma nova fase, deixando de ser apenas assistente digital e passando a integrar o mundo real. Para o comércio de bens, serviços e turismo, o desafio agora é formar pessoas para operar essa transformação

Recentemente, durante a participação na NRF Retail’s Big Show, a maior feira internacional de varejo do mundo, realizada em Nova York, ficou evidente que estamos diante de uma nova etapa da revolução tecnológica. Se nos últimos anos a Inteligência Artificial foi associada principalmente a chatbots e assistentes de texto, agora ela avança para algo mais estrutural: a chamada Inteligência Artificial física.

Não se trata apenas de software. Trata-se de sistemas que “veem, ouvem e agem”. Sensores, câmeras, robôs, dispositivos vestíveis, veículos autônomos e máquinas inteligentes integrados ao ambiente produtivo. A IA deixa de estar restrita à nuvem e passa a rodar diretamente nos dispositivos, o chamado modelo on-device. Isso significa mais velocidade, mais eficiência e maior segurança no uso de dados.

Essa transição lembra o que ocorreu com a internet nas últimas décadas. Primeiro, conectamos informações. Depois, conectamos pessoas. Agora, conectamos objetos, ambientes e processos. Alguns especialistas já utilizam a expressão “internet física” para ilustrar essa integração entre o digital e o mundo concreto. A Inteligência Artificial física é a infraestrutura cognitiva dessa nova etapa.

O impacto para o comércio já é profundo.

Sistemas de monitoramento inteligente reduzem perdas no varejo. Logísticas automatizadas aumentam a precisão e diminuem custos operacionais. Sensores corporais e dispositivos vestíveis ampliam segurança no trabalho. Robôs colaborativos auxiliam no estoque e na organização de centros de distribuição. Veículos autônomos redesenham cadeias de suprimento. Estamos falando de produtividade, competitividade e sustentabilidade econômica.

Segundo análises recentes do mercado financeiro e de relatórios internacionais apresentados na própria NRF, o setor de IA embarcada (chips de alta performance, hardware de inferência e infraestrutura física para sistemas inteligentes) tende a crescer de forma acelerada na próxima década. Não é exagero afirmar que a chamada “IA física” pode se tornar tão estratégica quanto o setor automotivo foi no século XX.

Para Mato Grosso, estado que se destaca pela força do agronegócio e pela expansão do comércio de bens e serviços, essa transformação traz uma pergunta essencial: estamos formando pessoas para essa nova realidade?

A tecnologia avança em ritmo exponencial. A qualificação profissional precisa acompanhar essa velocidade.

A Inteligência Artificial não substitui a necessidade de pessoas. Ela redefine competências. O profissional do comércio do futuro precisará compreender dados, interpretar sistemas inteligentes, operar tecnologias embarcadas e tomar decisões estratégicas apoiadas por algoritmos. Não basta consumir tecnologia; é preciso saber utilizá-la de forma produtiva e ética.

É nesse ponto que a educação profissional assume papel central.

No Senac-MT, temos acompanhado essa transformação de maneira estruturada. Desde o ano passado, ampliamos a oferta de cursos voltados à aplicação prática da Inteligência Artificial no ambiente empresarial. Entre eles, destacam-se Aplicação de Inteligência Artificial para Negócios, IA for Business – Inteligência Artificial Aplicada à Gestão, Introdução à IA: Inteligência Artificial na Prática e Marketing de Conteúdo em Redes Sociais com Inteligência Artificial, entre outros.

Não se trata de formar programadores apenas. Trata-se de preparar empresários, gestores e trabalhadores para compreender como a IA impacta processos, vendas, relacionamento com clientes, logística e tomada de decisão.

E no dia 25 de fevereiro, realizaremos uma Oficina de IA voltada a empresários de diferentes segmentos do comércio mato-grossense. O objetivo é promover reflexão estratégica: como essa tecnologia pode ser incorporada de maneira responsável e produtiva às rotinas empresariais?

O debate sobre Inteligência Artificial não pode se limitar a grandes centros globais. Ele precisa acontecer nas cidades do interior, nas micro e pequenas empresas, nos setores de serviços e turismo que movem a economia regional. Democratizar o acesso ao conhecimento tecnológico é condição para reduzir desigualdades e ampliar oportunidades.

Há também uma dimensão ética e institucional. A adoção de tecnologias inteligentes exige governança, proteção de dados e responsabilidade social. Se a IA física representa uma nova infraestrutura do mundo real, a educação profissional é a infraestrutura humana dessa transformação.

Não podemos tratar o tema com entusiasmo ingênuo nem com resistência conservadora. Precisamos de equilíbrio estratégico. A história demonstra que sociedades que investem em formação técnica e tecnológica saem na frente nos ciclos de inovação.

Mato Grosso reúne vocação produtiva, dinamismo empresarial e capacidade de adaptação. O que definirá nossa posição na próxima década não será apenas a adoção de tecnologia, mas a capacidade de formar talentos aptos a operá-la.

A Inteligência Artificial entrou em uma nova fase. Ela deixa de ser apenas “assistente de texto” para tornar-se parte da infraestrutura do mundo físico. Empresas que compreenderem essa transição estarão melhor posicionadas para liderar a próxima onda de inovação.

A educação profissional precisa estar no centro dessa estratégia. O futuro do varejo e dos serviços não será apenas digital. Será físico, inteligente e integrado. E começa, necessariamente, pela formação de pessoas.

*Edson Dahmer –Diretor regional do Senac em Mato Grosso. Atua na articulação entre educação profissional, desenvolvimento econômico e inovação para o setor do comércio de bens, serviços e turismo

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