Boa Midia

Execução vale mais que estratégia

Mário Quirino*

CUIABÁ

A Starbucks viveu uma daquelas lições que entram para os manuais do mundo corporativo. A empresa apostou que um gênio da estratégia poderia recolocá-la nos trilhos. Trouxe para o comando um CEO com passagem pela McKinsey & Company, alguém brilhante, respeitado, acostumado a desenhar frameworks impecáveis e a orientar fundadores sobre como construir negócios vencedores.

Dentro da sala do conselho, tudo fazia sentido. Nos slides, cada movimento parecia lógico, estruturado e promissor. O problema é que uma empresa não roda em PowerPoint. A empresa roda na loja, no caixa, na equipe e no cliente impaciente na fila.

Quando a teoria encontrou a operação, o mundo real cobrou seu preço. As operações travaram, a experiência do cliente se deteriorou e os investidores perderam a confiança. Em 17 meses, cerca de 30 bilhões de dólares em valor de mercado evaporaram. Não por falta de inteligência, mas por falta de execução.

Existe uma diferença entre quem explica o jogo e quem joga o jogo. Consultores são extraordinários em estratégia, análise e diagnóstico. Mas empresas reais vivem de decisões imperfeitas, pressão diária, equipes desmotivadas, fornecedores atrasando e fluxo de caixa apertado. Empresa é operação. E a operação não aceita a teoria como desculpa.

Diante da crise, a Starbucks fez um movimento revelador. Substituiu o estrategista por um operador vindo da Taco Bell, alguém acostumado à linha de frente, a milhões de clientes por dia, a cadeias de suprimento complexas e à economia real de loja. Não era apenas um pensador, era um construtor. O mercado reagiu quase instantaneamente, recuperando mais de 20 bilhões de dólares em valor em poucos dias.

Investidores entendem algo que muitos empresários ainda resistem em aceitar, execução vence inteligência. O mercado não paga por discurso sofisticado, paga por entrega consistente.

Essa história revela uma reflexão que se aplica muito além de uma multinacional. Vejo diariamente profissionais acumulando cursos, certificações, MBAs e discursos afiados. O conhecimento é valioso, sem dúvida. Mas o mercado respeita as cicatrizes. Respeita quem já liderou equipes difíceis, quem já enfrentou folhas de pagamento pesadas e quem já decidiu sem ter todas as respostas.

O mundo dos negócios não recompensa quem sabe mais, recompensa quem resolve mais. Quem decide mesmo sem conforto. Quem ajusta a rota diariamente. Quem constrói cultura. Quem faz acontecer apesar do cenário imperfeito.

Empresas não crescem em slides. Crescem na execução silenciosa e consistente de todos os dias. No fim, a pergunta que fica é simples e incômoda: você está acumulando conhecimento ou está acumulando experiência real de jogo? Porque o mercado não promove quem parece pronto, ele promove quem já provou que consegue entregar.

*Mário Quirino é especialista em Desenvolvimento Humano e Diretor Executivo do BNI Brasil em Mato Grosso

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