Boa Midia

Dorileo: Um personagem da cultura cuiabana

Uma de suas características marcantes era certamente a finura no trato, a gentileza e a cordialidade. Poucos, como ele, lembravam na atualidade aquelas figuras cavalheirescas de uma Cuiabá de antanho, sobre as quais falam em suas crônicas um Cesário Neto ou uma Dunga Rodrigues. Fala fluída e permeada de humor, quase sempre marcada por fina ironia, não se furtava a uma boa conversa. Não por menos era extremado amante de sua terra natal. Com ele convivi por perto de trinta anos em nossas reuniões da Academia Mato-Grossense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, aos quais deu forte contribuição.
Benedito Pedro Dorileo, ou simplesmente, como preferia, Professor Dorileo, nos deixou neste inicio de tarde do dia 12, mal completara o seu 85º natalício, mas já combalido por terrível enfermidade. Nascido em 10 de dezembro de 1934, era filho de Pedro Gratidiano Dorileo e de Joaquina Maria de Almeida, com ele parte, um pouco da história cultural e educacional cuiabana e mato-grossense.
Dorileo, embora tenha namorado a política, tendo sido Vereador em Cuiabá nos anos de 1960 pelo antigo PSD, no entanto foi no campo do magistério que ele dedicou a existência e deu sua contribuição mais significativa. Apaixonado pela educação e apreciador do idioma pátrio, ainda muito jovem lecionou Língua Portuguesa no Colégio Salesiano São Gonçalo, no Ginásio Dom Aquino e na Escola Técnica Federal. Em 1968 foi um dos fundadores do Instituto de Ciências e Letras de Cuiabá, gênese da futura Universidade Federal, tendo sido o primeiro Chefe do Departamento de Letras e Presidente do Conselho Administrativo. Posteriormente, enfileirou-se entre os fundadores da Universidade Federal de Mato Grosso da qual se tornaria, anos depois, Reitor no biênio 1982 – 1984, sendo o primeiro a ser escolhido por eleição da
comunidade universitária.
Entrementes, como diplomado em Direito, Pedro Dorileo demonstraria a inequívoca vocação pela área pública. Submete-se a concurso para o Ministério Público do Estado e escolhe a atividade na Defensoria Pública. Aposentar-se-ia como Procurador de Justiça. Foi um dos fundadores, e o primeiro Secretário, da Associação Matogrossense do Ministério Público. Curiosamente, nos primeiros anos a sede da AMMP funcionou no seu escritório particular, praticamente sendo mantida às suas expensas.
Aplicado, dedicado, querido pela comunidade acadêmica, o Professor Dorileo seria paraninfo de várias turmas de formandos, receberia comendas e títulos universitários e exerceria diferentes cargos e funções honoríficas. Membro do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras, Reitor honorário do Fórum Nacional de ex-reitores, presidente de honra da Associação Matogrossense de Professores do Estado. A partir do final da década de 1950, quando foi redator do jornal O Social Democrata, porta-voz do partido politico ao qual era filiado, prestaria extensa colaboração na imprensa mato-grossense. Publicou os seguintes livros: Miçanga (1971), Egéria Cuiabana (1976), Universidade, o Fazejamento (1978), Pensar para fazer (1984), Centenário da Egéria Cuiabana (1995), Nomeação de Reitor (1996), Cholo (2003), Ensino Superior em Mato Grosso (2006), Zulmira Canavarros, a Egéria Cuiabana (2016) e, ainda este ano, embora já combalido, trouxe a lume Folhas Evocativas.
Neste seu canto de cisne, Dorileo reuniria, em 528 páginas cerca de 160 textos, onde, escrevendo sobre história, literatura e memórias, mostra o seu acendrado amor a sua Cuiabá, sempre querida e reverenciada. Como ele mesmo diz, trata-se de “abordagem para assuntos referentes à eterna Capital mato-grossense, a Cidade Verde de Dom Aquino Corrêa – a Cuiabá dos 300 anos, em 2019, minha terra natal.”. E, arrematando com modéstia e entusiasmo, diz ser esse livro: “mais seleta do que antologia – de maneira muito simples. Assim, em ligeiro esforço, tentando afivelar resultados complexos de combinações, sobressai esta oferta despretensiosa.”.
O professor Benedito Pedro Dorileo, que teve na maior da parte de sua existência uma figura de excepcional presença na pessoa de sua esposa Dona Marlene, deixa um legado pessoal, cultural e profissional que honra a tradição da vetusta cuiabania, orgulha seus descendentes e estimula e entusiasma seus contemporâneos.

 

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é membro, dentre outros, do Instituto dos Advogados Brasileiros (RJ) e da Academia Mato-Grossense de Letras, da qual foi Presidente por três gestões.

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