Quando a convenção renova a política
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
eduardogomes.ega@gmail.com
Nas matérias não se põe legenda em placa que sinaliza distância rodoviária (Juína 100 km) e sobre convenção partidária o texto tem que ser objetivo: divulgar o resultado e o que passar disso é o que se chama conversa pra boi dormir ou abrir espaço para o jus sperniandi de quem perdeu. Pois bem, boa parte da Imprensa está mergulhada em versões do que aconteceu na quinta-feira (30) na convenção do União Brasil, onde o partido abriu mão de lançar uma candidatura partidária ao governo para se coligar com o Republicanos na cabeça de chapa. Vejamos.
Para o leitor fica difícil entender o malabarismo gutembergueano adaptado para a internet, onde o ex-governador Mauro Mendes (UP) leva a pecha de traidor e traíra; o senador Jayme Campos (UP) ganha contornos de vítima a um passo da beatificação; e sem muita convicção – para fugir de eventuais processos – alguns colegas insinuam que convencionais poderiam ter sido ‘comprados’. Nessa luta Jayme foi secundado pelo irmão Júlio Campos (UP), deputado estadual decano e vice-presidente da Assembleia. Não compactuo com esse jornalismo e apresento o fato como o vi, e não do modo que colegas o tratam e um marqueteiro o estampa – como sendo uma conspiração traiçoeira. Só que o marqueteiro não diz que seu posicionamento leva em conta o famoso lucro cessante que o atinge, pois se o resultado da convenção fosse outro ele seria o guru da campanha Viúva Porcina – aquela que foi sem ter sido.
É de conhecimento de todos os que vivem entre Alto Taquari e Guarantã do Norte, Vila Rica e Comodoro, Rondolândia e Torixoréu, incluindo minha Rondonópolis e Jarudore, que Mauro e Jayme travaram uma guerra pelo controle partidário, que se arrastou no último ano, de modo bem intenso; o primeiro defendendo o governador Otaviano Pivetta (Republicanos) para o governo, e o outro querendo voltar ao Palácio Paiaguás, de onde governou entre os anos de 1991 e 1994. Portanto, a convenção foi o palco democrático para que tal guerra ou disputa fosse decidida.
O universo convencional é reduzido – e cá pra nós não tem participação popular nem ouve manifestações partidárias. Cada membro do diretório ou delegado é um mundo. O seu mundo, que é ele (ou ela) vota de acordo com seus interesses.
Claro que num conjunto de mundos assim, quem está no poder tem mais chances de vencer. Pensem nisso: a estrutura dos votantes é formada por figuras umbilicalmente ligadas e dependentes da política em todas as suas formas, inclusive as que são mantidas longe do povo. Portanto, o resultado é o mais natural possível.
Comparativo. Tanto Jayme quanto Pivetta são políticos antigos, experientes e experimentados. Pivetta leva vantagem por ser o governador, estar em evidência e ter em mãos a famosa caneta que tudo pode no abençoado e ensolarado Mato Grosso do Marechal Rondon, do cacique Raoni Metuktire, da Irmã Adelis e de Valdon Varjão. Jayme, mesmo exercendo mandato de senador e demonstrando vitalidade percorrendo os 903 mil km² da nossa terra é figura distante para a maioria e esta qualificação merece o próximo parágrafo:
Lá em cima disse que Jayme governou entre 1991 e 1994 e portanto deixou o poder há mais de 35 anos. Considerando-se as faixas etárias da população, o fluxo migratório para Mato Grosso, os que mudaram para outros estados ou morreram, resta uma pequena parcela da população que aqui vivia quando ele estava no poder. Após o Palácio Paiaguás Jayme foi prefeito e até secretário municipal na sua Várzea Grande, mas o que acontece naquela cidade não chega ao conhecimento da população estadual. Alguém pode perguntar se o mandato dele no Senado não o credencia. Peço os dois próximos parágrafos para falar sobre isso:
Não credencia de maneira nenhuma. Jayme não é diferente da média da bancada federal nem da Assembleia Legislativa. Os senadores, deputados federais e deputados estaduais perderam a essência parlamentar, não fiscalizam e pouco produzem na elaboração e aperfeiçoamento das leis. São meros distribuidores de emendas parlamentares.
Não busquem leis importantes de autoria de Jayme, não tentem encontrar um debate acalorado dele em plenário ou numa reunião externa. Jayme e seus pares parlamentares mato-grossenses ficam restritos ao universo das emendas. O município contemplado com uma emenda nem sempre toma conhecimento de tal fato, e o prefeito que a recebe costuma ficar em silêncio. Há exceções em períodos pré-eleitorais quando se anuncia que o parlamentar fulano enviou um caminhão ou uma motoniveladora para a prefeitura de são josé dos calcanhares – fora disso nada.
Mesmo sem espaço na mídia amiga e enfrentando o gigantismo do estado velhaco que sempre encontra um artigo, um inciso ou algo assim para sublinhar a legalidade das emendas, o cidadão começa a formar opinião quanto a elas e, isso, creio, será prejudicial eleitoralmente para Fávaro, Wellington, Wilson Santos, Emanuelzinho Pinheiro, Dr. João, Max, Juca do Guaraná, Diego Guimarães, Chico Guarnieri, Janaína Riva, Dilmar, Coronel Fernanda, Elizeu Nascimento, Fábio Tardin, Coronel Assis, José Medeiros, Júlio Campos, Thiago Silva, Botelho, Beto Dois a Um, Faissal, Rodrigo da Zaeli, Nelson Barbudo, Barranco, enfim, para todos os parlamentares, pois sem exceção a uma só voz se rotulam pais das emendas tais e quais.
Creio que na disputa aberta, sem artimanhas e sem rodeios que travou com Mauro, Jayme não teve apoio político de muitos que ele contemplou com emendas. Entendo que elas ajudaram a derrotá-lo e que pelo menos o pouparam da voz das urnas, que não gritam por emendas, mas contra elas.
MEMÓRIA – A disputa no União Brasil, que tentam satanizar, não é caso isolado em Mato Grosso.
Em 1998, antes da denominação atual, o partido de Jayme ao invés de lançar nomes da sigla para as duas disputas majoritárias, se coligou com o PMDB de Carlos Bezerra o apoiando para o Senado; o resultado foi a derrota de Júlio Campos para o governo e a reeleição de Dante de Oliveira (PSDB) para governador – o que era o sonho de consumo de Bezerra.
Em 2002, o partido de Jayme rompeu regionalmente a aliança que tinha nacionalmente com o PSDB e apoiou Blairo Maggi (PPS) para o governo. Blairo venceu, mas mesmo no palanque vitorioso, Jayme perdeu.
RESUMO – Em várias declarações antes da convenção Jayme disse que se fosse derrotado iria para casa. Na data do ato convencional Júlio falou que ele e Jayme iriam para casa se os convencionais não aprovassem Jayme. Tomando ao pé da letra a fala de ambos, o resultado da convenção contribuiu para a renovação política mato-grossense. O resto é o direito ao choro.