O PSOL em Mato Grosso: Entre a Autonomia e os Desafios da Gestão Partidária
Moises Franz*
CUIABÁ
O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) em Mato Grosso, historicamente reconhecido por sua postura combativa e defesa de pautas progressistas, encontra-se em um momento de profunda reflexão e questionamento interno. As recentes denúncias e a insatisfação de membros da direção estadual, conforme exposto em relatos internos, apontam para uma crise que abrange desde a gestão financeira até a própria essência democrática do partido no estado.
Um dos pontos mais sensíveis levantados diz respeito à gestão dos recursos do fundo partidário. É notável a perplexidade diante da destinação de verbas significativas para despesas que, à primeira vista, parecem destoar dos princípios de austeridade e proximidade com as bases que o PSOL historicamente prega. A locação de uma sede em um edifício de elite como o Maruanã, em Cuiabá, contrasta com a realidade de muitos militantes, como os diretórios de Rondonópolis e Várzea Grande que nem uma sala possui para o partido nestes locais, sendo urgente a necessidade de otimizar recursos para a expansão e fortalecimento do partido em outras regiões. Questiona-se, ainda, a disparidade nos gastos com pessoal, como o valor destinado a serviços de Advocacia, limpeza e aluguel, sugerindo a possibilidade de alternativas mais econômicas e eficientes, como a contratação de diaristas, advocacia autônoma, que poderiam liberar fundos para outras prioridades de expansão partidária.
A questão financeira se aprofunda com um gasto que consome cerca de 70% do Fundo partidário para pagamento de um único advogado, levantando a indagação sobre a real necessidade ou tantos processos ou a eficácia da assessoria jurídica existente. A falta de apoio do assessor jurídico, que recebe um salário considerável, aos diretórios municipais de Rondonópolis e Várzea Grande na regularização de suas prestações de contas entre outras assessorias para criação de novos diretórios, são indicativos de uma centralização de recursos e de uma desconexão com as necessidades das bases. O histórico de contas reprovadas pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MT) como no ano anterior, apenas reforça a urgência de uma revisão transparente e rigorosa da gestão financeira do partido.
No campo da democracia interna e das articulações políticas, as tensões são igualmente evidentes. A denúncia de que decisões cruciais, como a formação de coligações para as próximas eleições majoritárias, são tomadas de forma unilateral, sem consulta aos membros da direção estadual, como: Moises Milton e Janaina, com a retirada de nomes de pré-candidatos ao governo sem diálogo, representam um sério abalo à construção coletiva. A suposta coligação branca com o Barão do Agronegócio do PSD de Carlos Favaro, imposta de maneira arbitrária, levanta questionamentos sobre a autonomia ideológica do PSOL e a interferência de forças externas na definição de seus rumos políticos. Tais práticas minam a confiança e a participação dos militantes, essenciais para a vitalidade de um partido que se propõe a ser socialista e democrático.
A necessidade de renovação na direção do PSOL em Mato Grosso emerge como um clamor por maior transparência, responsabilidade e alinhamento com os princípios fundadores do partido. A expertise de membros com formação em contabilidade e direito, que se propõem a acompanhar de perto as finanças e sugerem alternativas como advocacia freelance e contabilidade home office, aponta para caminhos viáveis de economia e otimização de recursos. A economia de mais de 50% da verba estadual, que poderia ser redistribuída aos diretórios municipais, é uma meta ambiciosa, mas fundamental para fortalecer a presença do PSOL em todo o estado e garantir que o dinheiro do contribuinte, representado pela verba do fundo partidário seja gasto de forma ética e eficiente.
Em suma, o PSOL em Mato Grosso enfrenta um momento decisivo. A superação dos desafios de gestão financeira e a reafirmação dos princípios democráticos internos são cruciais para que o partido possa cumprir seu papel na construção de uma sociedade mais justa e igualitária, sem se desviar de sua identidade e de seu compromisso com a base militante, não sendo usado como puxadinho de outros partidos pela ganância por receber recursos não republicanos.
*Moises Franz, Secretário de Comunicação do PSOL/MT e Vice-Presidente da Federação PSOL/REDE em MT