O Brasil produz como em 1958
Por
Eduardo on 28 de outubro de 2026
Fábio Granja Júnior*
CUIABÁ
“Não assina minha carteira não.” Todo empresário brasileiro já ouviu essa frase. Ela resume um entrave que o país carrega há décadas: um sistema em que ficar parado parece mais seguro do que avançar.
A eleição acabou. O presidente foi reconduzido, os governadores estão definidos e o Congresso foi renovado. Este artigo é dirigido a quem governa a partir de 2027 e, em especial, a quem já governava: desta vez não há transição, não há período de adaptação e não há herança para explicar o resultado. O Orçamento de 2027 foi escrito por quem vai executá-lo, e nenhum trabalho é mais urgente do que fazer o Brasil voltar a produzir mais e melhor. Produtividade não é pauta de partido. É a única forma de um país com o potencial do Brasil crescer de maneira sustentável, gerar renda de verdade e dar a cada brasileiro a chance de evoluir pelo próprio trabalho.
E a conta está na mesa. A dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em agosto, R$ 11,1 trilhões, o maior nível desde a pandemia, segundo o Banco Central. No fim de 2022, era de 71,7%: onze pontos do PIB em menos de quatro anos. E vai crescer. O próprio Orçamento de 2027, enviado ao Congresso, projeta dívida de 90% do PIB até 2030; pelo boletim Focus, os 90% chegam já em 2027. Enquanto a dívida cresce, o país paga juros: R$ 1,18 trilhão nos 12 meses até agosto, 8,86% do PIB, mais de quatro vezes o orçamento federal da Saúde. Em 2025, essa despesa passou de R$ 1 trilhão pela primeira vez na história.
As metas fiscais têm sido cumpridas no papel, com despesas deixadas fora da conta. Na prática, o governo central está no vermelho desde 2023, e o arcabouço fiscal, em vigor desde 2024, ainda não teve um ano fechado no azul. De janeiro a agosto de 2026, o déficit primário somou R$ 94,9 bilhões, pior que no mesmo período do ano anterior. O Orçamento deste ano prometia superávit de R$ 34,5 bilhões; a projeção atual do próprio governo é de déficit de R$ 52 bilhões. Para 2027, a meta é superávit de R$ 73,2 bilhões, mas o Orçamento enviado entrega R$ 18,6 bilhões, e a Instituição Fiscal Independente, do Senado, projeta déficit de R$ 86,1 bilhões. A carga tributária, por sua vez, bateu recorde: 32,4% do PIB em 2025, 1,2 ponto acima de 2022.
Essa conta não tem o CNPJ do governo. Quem paga é quem produz, por três caminhos: pelo imposto, já em recorde histórico; pelo juro, que encarece o crédito de quem quer investir e empregar; e pelo risco, que afasta o investimento e trava o crescimento. Quem produz vai trabalhar mais, e mais, para pagar uma conta que não fez. Não existe saída honesta para uma dívida desse tamanho que não passe por produzir mais do que se gasta. É por isso que produtividade deixou de ser tema de seminário e virou questão de sobrevivência.
O problema é que o Brasil produz como em 1958. A produtividade do trabalho está hoje num patamar parecido com o do fim dos anos 1950 e, entre 1996 e 2025, cresceu em média apenas 0,8% ao ano, segundo o Observatório da Produtividade da FGV Ibre. Cerca de 60% desse pequeno avanço veio da agropecuária, o setor que aceitou competir de igual para igual no mercado global. Na indústria, a produtividade caiu cerca de 23% entre 1995 e 2024, e 2026 começou com recuo de 0,5% por hora trabalhada no primeiro trimestre. Na comparação internacional, o trabalhador brasileiro gera em uma hora cerca de um quarto do que gera um americano. Não por falta de esforço: ele trabalha com cerca de cinco vezes menos capital, como máquinas, equipamentos e tecnologia. Durante décadas, o país cresceu colocando mais gente para trabalhar. Com o fim do bônus demográfico e o desemprego na mínima histórica de 5,4%, esse atalho se esgotou. Daqui em diante, a renda só sobe se cada hora de trabalho render mais.
Os sintomas conversam entre si. O Brasil investe pouco: 16,5% do PIB no primeiro trimestre de 2026, abaixo dos 17,6% de um ano antes e longe dos mais de 20% necessários para crescer de forma sustentada, com poupança doméstica de apenas 15,5% do PIB. Empresta caro: a Selic está em 13,75% ao ano após cinco cortes seguidos, ainda entre as mais altas do mundo em termos reais. Mantém 37,4% dos ocupados na informalidade, de 25,4% em Santa Catarina a 57,6% no Maranhão. Caiu para o 65º lugar entre 70 economias no ranking de competitividade do IMD com a Fundação Dom Cabral e perde R$ 1,7 trilhão por ano, cerca de 19,5% do PIB, com o Custo Brasil, segundo o MDIC e o Movimento Brasil Competitivo. E forma mal: 73% dos estudantes ficaram abaixo do nível básico em matemática no Pisa, contra 31% na média da OCDE, e 29% da população de 15 a 64 anos é analfabeta funcional, segundo o Inaf. A baixa qualificação da mão de obra é o fator de maior peso no Custo Brasil, e um trabalhador que não domina a matemática básica dificilmente opera a tecnologia que tornaria sua hora de trabalho mais produtiva.
Há ainda uma armadilha na porta de saída. Empresários de todo o país relatam pedidos para não registrar a carteira, inclusive de profissionais qualificados, como mecânicos, eletricistas e motoristas, por medo de perder a renda garantida. O próprio governo federal reconheceu publicamente que é preciso tirar do trabalhador esse medo. A regra de proteção existe, mas foi encurtada em 2025 pelo mesmo governo que pede ao trabalhador para perder o medo: desde julho, a família que passa a ganhar mais de R$ 218 por pessoa mantém metade do Bolsa Família por 12 meses, e não mais por 24. Um ano é pouco para quem nunca teve estabilidade, e quem não conhece a regra decide pelo medo. Não é falta de vontade de trabalhar: de janeiro a julho de 2023, 56,2% dos empregos com carteira criados no país foram ocupados por beneficiários do programa. O problema não está na pessoa, está no desenho da saída. A política social precisa funcionar como ponte, não como endereço fixo.
A inteligência artificial chegou no meio disso. Ela ainda não tira empregos em massa, mas tende a tirar, e vai começar pelas tarefas simples que hoje servem de porta de entrada no mercado formal. A adoção já é alta: 61% dos pequenos negócios brasileiros usam IA, segundo o Sebrae, em ritmo mais acelerado que o dos americanos. O uso, porém, é raso, concentrado em marketing, e a falta de conhecimento segue como o principal freio. Para o pequeno negócio, a IA é a ferramenta de produtividade mais barata já disponível, desde que entre no processo, como financeiro, estoque, crédito e atendimento, e não fique só no post do Instagram.
Sete frentes, divididas entre União, estados e Congresso, podem tirar o Brasil do patamar de 1958 ao longo da próxima década. Uma educação básica que ensina, com alfabetização na idade certa, ensino médio técnico ligado às vagas de cada região e gestão escolar por resultado. Uma âncora fiscal crível, cumprida sem exclusões de despesa, para reduzir o prêmio de risco e permitir que juros menores e concessões levem o investimento acima de 20% do PIB. A execução das seis frentes já mapeadas pelo Observatório do Custo Brasil, um mapa que serve a qualquer governo e, por isso, deveria ser o primeiro a sair do papel. Previsibilidade na transição da reforma tributária para o IBS e a CBS, com menos exceções, porque cada exceção eleva a alíquota de todos. Uma abertura comercial gradual e pré-anunciada, começando por máquinas e insumos, que hoje encarecem o investimento. Uma transição mais longa na política social para quem é contratado e uma saída mais suave do Simples para a empresa que cresce. E letramento aplicado em IA pelas redes que já chegam ao empresário, como Sebrae, Senac, associações comerciais e CDLs. Nenhuma dessas frentes é novidade técnica; todas dependem de continuidade. Continuidade, aliás, é o que um governo reeleito tem de sobra. O que falta é prioridade.
Nenhuma delas funciona sem uma cultura de produtividade, e cultura não muda por decreto: muda por exemplo, de perto. A política pública cria as condições. Quem muda o país é o empresário que treina a equipe, o gestor público que mede resultado, o professor que ensina matemática de verdade e o trabalhador que aceita aprender uma ferramenta nova. Um país que decide pela emoção vira refém de quem grita mais alto. Um país que decide com dados escolhe melhor, cobra melhor e evolui. Potencial o Brasil tem; o agro já provou que, quando decide competir, o país dá saltos. O que falta é tornar a produtividade uma pauta permanente, acima de governos, partidos e ciclos eleitorais.
Fica aqui a mensagem a quem governa o país, os estados e o Legislativo a partir de 2027: esta é a agenda que o Brasil não pode mais adiar. Quem foi reconduzido já conhece o tamanho da conta. A dúvida é se vai pedir ao país que produza mais, ou apenas que pague mais.
*Fábio Granja Júnior é administrador, especialista em gestão de negócios, sócio da PrioriB2 e cocriador da plataforma CDL IA, com mais de 16 anos de atuação no Sistema CNDL