O verdadeiro valor de um Canal de Denúncias para as empresas
Por
Eduardo on 26 de outubro de 2026
Eleide Corrêa*
CUIABÁ
Durante muito tempo, falar sobre denúncias dentro das empresas foi um assunto cercado de receios. Para alguns, a existência de um Canal de Denúncias poderia representar um sinal de problemas internos. Para outros, seria apenas mais uma exigência relacionada às práticas de compliance. Hoje, considero que precisamos ampliar essa discussão e compreender o papel estratégico que esse instrumento pode desempenhar na evolução das organizações.
O verdadeiro valor de um Canal de Denúncias não está na quantidade de manifestações recebidas, mas na capacidade da empresa de transformar essas informações em ações concretas de melhoria.
Uma organização pode receber poucos relatos e, ainda assim, enfrentar problemas importantes que permanecem desconhecidos. Da mesma forma, um volume maior de manifestações não significa, necessariamente, um ambiente organizacional mais problemático. Pode indicar que as pessoas passaram a confiar nos mecanismos disponíveis para expressar suas preocupações. Por isso, acredito que a principal pergunta não deve ser quantas denúncias uma empresa recebe, mas o que ela faz a partir das informações que chegam até sua gestão.
Na Saga CAP Holding, desde a implantação do Canal de Denúncias, já percebemos impactos positivos significativos, entre eles, destaco a possibilidade de identificar situações que antes poderiam passar despercebidas, compreender melhor determinadas questões internas e reconhecer oportunidades para a adoção de medidas preventivas e corretivas.
Essa experiência tem reforçado minha convicção de que ouvir também é uma forma de gerir. Quando uma organização cria condições para que colaboradores e outros públicos possam comunicar situações inadequadas, abre espaço para identificar fragilidades, aperfeiçoar procedimentos e fortalecer as relações de confiança.
Entretanto, disponibilizar um canal, por si só, não é suficiente. É fundamental que ele seja acessível, confiável e acompanhado de procedimentos adequados de recebimento, análise e encaminhamento das manifestações. Também é indispensável assegurar a confidencialidade, a imparcialidade na apuração e a proteção contra retaliações.
Outro aspecto que considero essencial é o envolvimento das lideranças. Uma cultura ética não se constrói apenas com documentos, políticas ou ferramentas tecnológicas. Ela depende, sobretudo, da postura de quem toma decisões e da disposição de reconhecer que processos e comportamentos podem precisar de ajustes.
Nesse contexto, o Canal de Denúncias também deve ser compreendido como um instrumento de prevenção. Informações recebidas podem revelar falhas de comunicação, dificuldades nos relacionamentos profissionais, riscos operacionais ou situações que exigem maior atenção da gestão. Quando devidamente analisadas, essas manifestações contribuem para evitar que problemas se agravem.
É importante compreender, ainda, que nem todo relato representa uma irregularidade comprovada. Cada situação exige análise responsável, respeito às pessoas envolvidas e procedimentos que assegurem a adequada apuração dos fatos. A credibilidade do canal depende tanto da disposição para ouvir quanto da seriedade com que cada manifestação é tratada.
Na minha avaliação, um Sistema de Gestão de Compliance se fortalece quando deixa de ser percebido apenas como um conjunto de regras e passa a fazer parte das decisões cotidianas. Isso significa transformar princípios como ética, respeito e transparência em práticas efetivas, capazes de orientar comportamentos e aperfeiçoar a gestão. O desafio das empresas, portanto, não é simplesmente incentivar que as pessoas falem, mas demonstrar, por meio de atitudes, que suas manifestações são tratadas com responsabilidade.
A experiência que estamos construindo mostra que a incorporação de um Canal de Denúncias pode representar mais do que um avanço nos mecanismos de controle. Pode contribuir para uma mudança de mentalidade, na qual ouvir, avaliar e corrigir passam a integrar o próprio processo de desenvolvimento organizacional.
Acredito que empresas verdadeiramente comprometidas com a ética não são aquelas que afirmam não ter problemas, mas aquelas que desenvolvem mecanismos para identificá-los, enfrentá-los e aprender com eles. Afinal, uma organização que se dispõe a ouvir também se permite evoluir, e é nessa capacidade de transformar informação em melhoria que está o verdadeiro valor de um Canal de Denúncias.
*Eleide Corrêa, diretora da Saga CAP Holding