Mulheres que podem falar no passado e discutir o futuro
Por
Eduardo on 14 de agosto de 2026
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
eduardogomes.ega@gmail.com
Sol implacável, nuvens carregadas, ventos fortes levantando poeira, baixa umidade relativa do ar, prenúncio de chuvarada. Carros estacionados por todos os lugares, pessoas indo e vindo, de vez em quando um avião pousava na pista de terra ao lado da MT-370 cuja pavimentação seria inaugurada pelo recém-empossado governador Blairo Maggi. Escuto mais um sobrevoo, mas não presto atenção na aeronave que se prepara para aterrissar. De repente uma gritaria assusta a todos. Por alguma razão o piloto pousou fora da pista, numa terra gradeada. A irregularidade do solo fez o pequeno monomotor dar solavancos, danificou sua hélice e o trem de pouso, mas o comandante e sua passageira desembarcaram sem ajuda – ela com um corte no rosto e escoriações generalizadas. Vários correram para socorrê-la, mas não se fez necessário. Altiva, com uma toalha sobre o braço direito para estancar o sangramento, ela passou entre os presentes e foi acompanhar o corte simbólico da fita da obra. Era Margareth Buzetti.
A postura de Margareth Buzetti no pouso desastrado em Itiquira, revelou a Mato Grosso uma mulher forte, de fibra. Fiquei seu fã.
Margareth Buzetti (PP) entrou para a política e nunca explorou o episódio em Itiquira. Suplente de senadora de Carlos Fávaro (PSD) ela exerceu boa parte do mandato da chapa encabeçada por Fávaro e seu desempenho parlamentar na legislatura em curso – avalio – foi melhor do que a soma dos trabalhos em plenário de Fávaro, José Lacerda, Jayme Campos, Fábio Garcia, Wellington Fagundes, Mauro Carvalho e Rosana Martinelli.
Leio que a mulher altiva do pouso desastrado em Itiquira é candidata ao Senado pelo PP (em federação com o União Brasil) encabeçando uma chapa feminina com as suplentes Jucélia Ferro (PSDB) e a coronel da PM Grasielle Bugalho (PP em federação com o União Brasil). O surgimento desta chapa tem que ser motivo de comemoração para todos, indistintamente, em Mato Grosso, onde a política é predominantemente dominada por homens.
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Observo que os históricos políticos de Margareth Buzetti e de Jucélia Ferro foram escritos com dignidade, sem respingos de corrupção; e que a carreira militar da coronel Grasielle não tem máculas, pois de patente em patente, no dia a dia operacional e no comando ela sempre dignificou a farda que é a presença mais capilarizada do Estado ao lado do cidadão nos 142 municípios desta Terra de Rondon, do Cacique Raoni, da Irmã Adelis, de Jorilda Sabino, de Gabriel Novis, de Valdon Varjão, de Vanessa da Mata e de milhões de anônimos que construíram e constroem a verdadeira locomotiva do desenvolvimento nacional.
Com a chapa de Margareth Buzetti, Jucélia Ferro e da coronel Grasielle o eleitorado poderá conversar com elas e não somente ouvi-las, como acontece com outras figuras que se apresentam com o apelo do gênero feminino, mas que não podem falar sobre seu passado, nem revelar como se mantinham antes do ingresso na vida pública. A nova chapa joga por terra a figura metafórica da Sereia – que é bela da cintura (temporal) para cima, mas que não sai da água para mostrar do umbigo para baixo.
Sou seletivo no voto, mas deixo claro que a chapa encabeçada por Margareth Buzetti merece ser votada, tem que ser respeitada e não pode ser comparada à vulgaridade de rostinho produzido para causar impacto visual. Mato Grosso mais do que nunca precisa de voz no Senado para superar entraves estruturais, abrir caminho às relações binacionais com os hermanos bolivianos, integrar regiões, viver o sentido do pluralismo cultural que nasceu com as ondas migratórias e estabelecer parâmetros entre meio ambiente e atividade econômica.
Parabéns Margareth Buzetti, Jucélia Ferro e coronel Grasielle. Que Mato Grosso as tenha em conta na hora do voto, pois a chapa feminina formada por vocês e que acaba de ser oficializada tira a disputa eleitoral do nome pelo nome e dos discursos com a profundidade de pires.