MT: Verso e reverso (69) – Cezare Pastorello
EDUARDO GOMES
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Capítulo 69 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o vereador Cezare Pastorello, pré-candidato a deputado estadual (PT).
Vereador pelo terceiro mandato consecutivo, Pastorello nasceu no Rio de Janeiro e se tornou cacerense adotivo em setembro de 2007, quando chegou àquela cidade, de onde nunca mais saiu.
A trajetória de Pastorello nas urnas é positiva. Em 2016, filiado ao PSDB, em Cáceres, ele recebeu a maior votação ao cargo: 1.205 votos. Quatro anos depois, pelo Solidariedade, foi reeleito com 684 votos – o quarto mais votado. Nas eleições em 2024, pelo PT cravou 894 votos, permanecendo em quarto lugar. Em meio a essas vitórias, em 2018 concorreu para deputado estadual pelo Solidariedade, por fidelidade partidária, para colaborar com a candidatura do médico e deputado estadual Leonardo Albuquerque, para deputado federal.
Em 10 anos de militância política, Pastorello assinou três fichas de filiação. Primeiro, no PSDB, em 2016, para o qual foi convidado pela agora prefeita Eliene Liberato, e assumiu sua secretaria no diretório municipal. Naquele ano, o empresário Francis Maris foi eleito prefeito pela legenda tucana, e tentou controlar a atuação parlamentar de Pastorello, que não aceitou o cabresto. Por isso, em 2018, pelo Solidariedade dobrou com Leonardo Albuquerque numa chapa para deputado estadual e deputado federal.
Em 2020, pelo Solidariedade venceu a segunda eleição consecutiva para vereador.
Nas eleições de 2022 Pastorello coordenou em Cáceres a campanha de Lula para presidente. Foi uma disputa dura naquela cidade: Lula cravou 21.730 votos e Bolsonaro recebeu 21.725. O corre-corre pelos votos o aproximou do PT e os petistas o levaram para o partido – de aliado virou companheiro. Em 2024 venceu a disputa para vereador, mas daquela vez petista de carteirinha e isso o motiva a sonhar com a Assembleia Legislativa.
Pastorello legisla num município bicentenário do tamanho de Israel e com quase 100 mil habitantes. São muitas as demandas cacerenses e quase todas fora da competência municipal ou carentes de parcerias com os governos estadual e federal. Essa realidade deixa um pequeno corredor de atuação para os vereadores.
Cáceres é uma vergonha no tocante à distribuição de água e tratamento de esgoto. Esse gargalo ambiental vai além da capacidade orçamentária da prefeitura e depende da mão estendida das esferas políticas em Cuiabá e Brasília. A cidade não avança nessa área por falta de uma voz legítima na Assembleia em sua defesa – Pastorello quer ser essa voz.
A extensa fronteira com a Bolívia deixa vulnerável a segurança cacerense. Mato Grosso e Brasília não conseguem ver a área fronteiriça além da esfera policial ou militar. O tráfico formiguinha que cruza as infindáveis ‘cabriteiras’, para ser minimizado e reduzido àquilo que é considerado ‘aceitável’ precisa da presença do cidadão na região. Ou seja, é urgente a ocupação civil tanto nas vilas quanto na zona rural, mas para tanto torna-se imprescindível a criação de políticas especiais para despertar interesses de agropecuaristas, comerciantes e industriais, e da criação de projetos de assentamentos da reforma agrária.
Falta uma voz na Assembleia para sensibilizar o país sobre a necessidade da ocupação do vazio demográfico na fronteira por uma força trabalhadora e que a região ofereça segurança jurídica, o que não acontece.
Uma das facetas do narcotráfico é a quantidade de mulheres bolivianas presas nas operações policiais e que cumprem pena em Cáceres. Em sua maioria elas são vítimas da miséria social boliviana, o que facilita seu recrutamento pelos barões do pó. Encontrar uma saída jurídica com base em entendimento entre os dois países, para que elas cumpram suas penas do outro lado da fronteira é uma boa bandeira, que nunca foi levantada na Assembleia. Pastorello quer atuar nessa área.
Cáceres nasceu graças ao rio Paraguai, que durante dois séculos foi praticamente seu único acesso. A cidade é o ponto mais ao Norte da Hidrovia Paraná-Paraguai, que termina em Nueva Palmira, no Uruguai, 3.442 km ao Sul. A exploração comercial da navegação, com embarcações adaptadas à sua realidade, e a estruturação portuária cacerense precisam de forte representação política. Isso em sintonia com a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) Engenheiro Adilson Domingos dos Reis, recém-instalada e que na realidade é pouco mais que um elefante branco, em busca da industrialização e da efetiva entrada no município no mercado internacional. Pastorello se debruça sobre esse vácuo que precisa ser ocupado pelo desenvolvimento.
Poucos municípios brasileiros têm tamanho potencial turístico quanto Cáceres. A famosa indústria sem chaminé cacerense não é objeto dos debates na Assembleia. Com Pastorello esse tema terá presença constante.
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A saída rodoviária para os portos chilenos, sobretudo Arica, pelo Corredor Bioceânico Atlântico-Pacífico, é uma antiga aspiração da região de fronteira. Do lado boliviano, o recém-empossado governador de Santa Cruz, JP Velasco, veio a Mato Grosso e estendeu a mão num gesto rm busca da fraterna convivência dos dois povos. Buscar o vaivém dos pesadões de Cáceres, Pontes e Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trindade com Santa Cruz de la Sierra, Cochabamba, La Paz e o Pacífico chileno é a forma mais racional pela melhor logística para escoar as commodities agrícolas do bolsão de Comodoro a Cáceres e Barra do Bugres ao mercado asiático liderado pelos mandarins chineses.
O fortalecimento da agricultura familiar com um leque de cobertura para o pequeno agricultor gera renda no campo e resulta no abastecimento dos mercados de Cáceres e região com hortifrutis, ovos, pequenos animais, embutidos e lácteos. Na visão de Pastorello esta tem que ser a âncora de sua atuação parlamentar.
Cáceres é a porta de entrada do Gasoduto Bolívia-Mato Grosso e a cidade não tem um city gate. Sua instalação permitirá o abastecimento da frota convertida ao GNV num raio de 250 km com um combustível mais barato e que não lança poluentes na atmosfera. Além disso, o gás natural poderá alimentar as empresas que se instalarem na ZPE.
O fortalecimento da Universidade do Estado (Unemat) e sua ampliação de modo a trasformá-la em referência no ensino universitário mato-grossense é uma das metas de Pastorello, que também planeja lutar para que o Hospital Regional de Cáceres Dr. Antônio Fontes ganhe maior dimensão enquanto hospital universitário, para ampliar o atendimento das demandas regionais na região de fronteira e que possa oferecer boas condições para o internato e a residência médicas do curso de medicina da Unemat.
ELE – Carioca, Cezare Pastorello Marques de Paiva nasceu em 19 de fevereiro de 1976. Criança, em 1983 Pastorello mudou para Alta Floresta acompanhando a família e antes dos 13 anos tornou-se leitor devorador de importantes obras: leu Karl Marx. Adolescente voltou ao seu Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio Dom Pedro II. Por sua crônica mania de leitor e seu senso de organização foi designado para catalogar e separar as obras clássicas da Biblioteca de Letras Clássicas Antenor Nascentes, da unidade de São Cristóvão, daquele educandário; essa função resultou numa homenagem da qual Pastorello muito se orgulha: o título de Guardião daquela biblioteca.
No Rio, além da grade curricular, estudou Latim e Grego. De volta a Mato Grosso, a UFMT foi seu endereço e ele passou no vestibular de Computação. Aos 17 anos, foi trabalhar no Tribunal de Justiça, nomeado pelo desembargador Salvador Pompeu de Barros Filho, e por um breve período prestou serviços ao programa Prodeagro, financiado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Em 2004, Pastorello prestou três concursos públicos: para o Ministério Público Federal, Ministério Público Estadual e para o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) – passou nos três. Optou pelo TRT.
O grande salto que o levou a Cáceres aconteceu em 2007. Por razão familiar, Pastorello deveria optar por morar em Rondonópolis, Cáceres ou Lucas do Rio Verde e ele não conhecia nenhuma dessas cidades. Quando viu Cáceres, não teve dúvidas: o lugar era ali. Virou cacerense adotivo a exemplo do Dr. Sabino Vieira, José Castrillon, Alexander Solon Daveron, Dra. Catarina Dalbem, Ivo Cuiabano Scaff, Emilson Pires de Souza, Paulo Garcia Nanô, Manuel Jorge Ribeiro, Kassem Mohamed Fares, Walter Fidélis, Pedro Neto da Silva – o Netinho, Márcio Lacerda e tantos outros que contribuíram e que contribuem para o desenvolvimento daquela cidade onde o cidadão quando quer demonstrar apreço por alguém o chama de “Meu peixe”. É esse Meu Peixe que quer ser a voz cacerense na Assembleia Legislativa, onde a Terra de Albuquerque não se faz ouvir há muito tempo.
PS – Continuem lendo a série. Amanhã (12), o capítulo 70.