Quinquagésimo sétimo capítulo da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o deputado estadual e pré-candidato à reeleição, Lúdio Cabral. (PT).
Segundo político que mais disputou eleições nos últimos anos – sete 0 Lúdio somente é batido pelo Procurador Mauro (PSD), com nove. Lúdio costura bem sua caminhada política. Para outubro, seu irmão James Cabral é pré-candidato a deputado federal. James é domiciliado em Cáceres, um dos mais importantes municípios mato-grossenses, e dobrará com o mano, o que reforçará sua tentativa de reeleição, muito embora James não conste em nenhuma lista dos prováveis eleitos para a Câmara. É uma tática familiar e política legal, porém, sem fundo de moralidade.
Lúdio Frank Martins Cabral é goiano de Rio Verde nascido em 15 de março de 1971. Em 1985, aos 14 anos, mudou-se para Cáceres com a família. Na adolescência trabalhou três anos em um banco. Em 1990 passou no vestibular de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso e em 1996 concluiu o curso. Em seguida foi para Ribeirão Preto (SP) onde fez residência médica em Medicina Preventiva e Social no campus da Universidade de São Paulo (USP), naquela cidade.
Médico sanitarista do governo estadual e da Prefeitura de Cuiabá, Lúdio tem pouco tempo para a Medicina, pois há 22 anos está nos palanques. Nas últimas duas décadas ele foi o segundo político que mais participou de eleições em Mato Grosso, perdendo apenas para o Procurador Mauro (PSD) que registrou ? candidaturas no período.
PALANQUES – A trajetória de Lúdio na vida pública sempre foi pelo PT. Tudo começou em 2004 ao se eleger vereador por Cuiabá com 2.640 votos. Quatro anos depois foi reeleito com 3.849 votos. Na primeira eleição adotou na urna o nome de Dr. Lúdio, e na segunda, de Dr. Lúdio Cabral. Vale observar que no período da faculdade Lúdio presidiu a Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina.
Em 2010, embalado pelas vitórias para vereador, concorreu para deputado estadual, mas perdeu. Não passou de 11.431 votos. Esse tropeção não o desanimou e dois anos depois, apadrinhado pelo governador Silval Barbosa (PMDB) foi candidato a prefeito de Cuiabá numa chapa com o vice Francisco Faiad (PMDB) e o pleito foi vencido por Mauro Mendes (PSB) com o vice João Malheiros (PR) pela coligação de seus partidos com o PDT, PPS e PV. Mauro recebeu 137.125 votos no primeiro turno e 169.688 (54,65%) no segundo; Lúdio somou 131.877 votos no primeiro e 140.798 (45,35%) no segundo turno. João Malheiros era deputado estadual e não assumiu o cargo de vice-prefeito optando por permanecer na Assembleia.
Em 2014 quando nacionalmente e em Mato Grosso ninguém sabia onde o PT acabava e o PMDB começava, e vice-versa, novamente Silval apostou politicamente em Lúdio e o lançou candidato ao governo com a deputada estadual Teté Bezerra (PMDB) de vice. O pleito foi vencido pelo senador Pedro Taques com o vice Carlos Fávaro (PP). Taques ganhou fácil no primeiro turno, com 833.788 votos (57,25%) e Lúdio, o segundo colocado, recebeu 472.507 votos (32.45%).
Lúdio mal curou a rouquidão com os discursos em 2014 e correu para novo palanque. Em 2018 venceu a eleição para deputado estadual com 22.701 votos e foi reeleito com 47.533 votos. Em 2024 Lúdio foi candidato a prefeito de Cuiabá com a vice Rafaela Fávaro (PSD), que é filha do senador Carlos Fávaro. No primeiro turno Abílio Brunini (PL) recebeu 126.944 votos; Lúdio, 90.719; Botelho apoiado por Mauro Mendes e os irmãos Jayme e Júlio Campos, 88.977; e Domingos Kennedy (MDB), 13.805. No segundo turno Abílio venceu com 171.324 votos ao passo que Lúdio cravou 147.127.
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Em Cuiabá, na disputa domiciliar para deputado estadual, nas eleições em 2018 e 2022 Lúdio foi o mais votado ao cargo, com 12.690 votos, em 2018, e com 22.356 votos. Lúdio tem o perfil perfeito de liderança esquerdista: formação acadêmica, militante nos meios universitários e com discurso político da luta de classes. Assim, na superficialidade, mas quando se busca o verdadeiro cidadão Lúdio no passado ele pode até ser encontrado numa plenária petista, mas nem por isso deixará de ser visto nas reuniões mais reservadas do grupo de Silval.
As candidaturas de Lúdio a prefeito e ao governo não foram meros afagos do PMDB de Silval com ele. O Partido dos Trabalhadores participava do governo em Mato Grosso. Rosa Neide foi secretária estadual de Educação e em novembro de 2020, quando Rosa Neide era deputada federal a Delegacia Fazendária cumpriu mandados de busca e apreensão em sua mansão em Cuiabá, na Operação Fake Delivery, que investigava um suposto rombo superior a um milhão de reais na compra de materiais escolares para aldeias indígenas pela secretaria de Rosa Neide. Com foro privilegiado Rosa Neide foi ao Supremo Tribunal Federal e o ministro Alexandre de Moraes barrou a operação autorizada pela juíza Ana Cristina Mendes, da 7ª Vara Criminal de Cuiabá. Rosa Neide não foi reeleita, perdeu o foro privilegiado, mas a ação hiberna no Judiciário.
Na campanha de Lúdio para prefeito em 2012, ninguém menos que o então poderoso secretário Eder Moraes respondia por seus elos com cabos eleitorais, movimentos comunitários etc.
Com Lúdio, em 2014
O passado de Lúdio o incomoda, muito embora ele sempre diga que jamais participou de ato ilícito ou que tenha levado algum tipo de vantagem. Em 2014 nós conversamos na redação do Diário de Cuiabá sobre esse cenário. Disse a ele que o casamento do PT com o PMDB em Mato Grosso simplesmente reproduzia o casório nacional dos dois partidos, que resultou dentre outras coisas na Operação Lava Jato – desqualificada pelo STF alguns anos depois. Ele, porém, ponderou que os fatos em Mato Grosso eram extremamente graves e poderiam respingar em sua trajetória política, que segundo ele era feita com as mãos limpas. Mesmo com o pé atrás, Lúdio assegurou que não desistiria da política.
Em fevereiro de 2017 surgiu um escândalo envolvendo Lúdio a Faiad. O Ministério Público e a Delegacia Fazendária (Defaz) lançaram a 5ª fase da Operação Sodoma e ambos afirmaram que logo após a eleição em 2012 Faiad foi nomeado secretário de Administração de Silval, para arrecadar recursos para quitar débitos decorrentes daquela campanha e que o Auto Posto Marmeleiro e a Saga Comércio e Serviço de Tecnologia e Informática teriam sido utilizados para tanto, após vencerem uma série de licitações do governo e que teriam pago 5,1 milhões de reais em propina.
O entrosamento de Lúdio com Silval foi citado na Operação Lava Jato. Em delação premiada o então diretor de Infraestrutura da Odebrecht (rebatizada Novonor) Benedito Barbosa e Silva Júnior, o JB, revelou que Lúdio teria recebido propina de 1 milhão de reais na campanha para governador em 2014, e que seu codinome no esquema desmontado pela Operação Lava Jato era Ema. Segundo as investigações, a Odebrecht teria torrado dinheirama com o esquema de Silval, que era esteio político de Lula em Mato Grosso. Lúdio nega com todas as letras.
Mato Grosso tem grande capacidade de perdoar e de esquecer. Isso pode ser benéfico para Lúdio. Em 2014 a estreante em política Janaína Riva (PSD) se elegeu deputada estadual utilizando-se da estrutura eleitoral e de campanha de seu pai, José Riva, mandachuva na Assembleia por 20 anos e que naquele pleito foi alcançado pela Lei Ficha Limpa. O pai Riva assumiu em delação premiada que liderou um esquema que surrupiou 175 milhões de reais dos cofres públicos e ninguém se refere a Janaína, agora no terceiro mandato na Assembleia, como beneficiária do caos provocado por Riva, o pai.
Nenhum dos participantes do esquema de Silval está preso. Cuiabá e Várzea Grande ainda convivem com obras inacabadas da Copa do Mundo de 2014, quando a dinheirama tomou Doril, e não há pai para aquele filho feio.
O histórico parlamentar de Lúdio é pouco mais que uma página em branco. Sua passagem pela Câmara foi bem discreta. Na Assembleia, por ser oposicionista ao governo Mauro Mendes (União), ele sequer se arriscou com projetos de lei. Seus discursos trombam com a base do governo, mas nem por isso ele radicaliza e legisla numa faixa que pode ser considerada de oposição confiável.
PS – Contiuem lendo a série. Amanhã (28), o capítulo 58.