MT: Verso e reverso (94) – Thiago Silva

Eduardo Gomes

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Capítulo 94 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o deputado estadual e pré-candidato a deputado estadual Thiago Silva (MDB).

ELE – Thiago Alexandre Rodrigues da Silva, o Thiago Silva, nasceu em Rondonópolis no dia 15 de agosto de 1982. É economista com pós-graduação em administração pública e gerência de cidades, ciências políticas e engenharia de produção; fez MBA em gestão estratégica de negócios e MBA em marketing.

Trabalhou na Amaggi e na ADM – gigantes do agro  – e por um curto período lecionou na Unic em Cuiabá. Na Prefeitura de Rondonópolis foi gerente de Planejamento e Fomento à Micro e Pequena Empresa, no auge do poder de Carlos Bezerra representado por seus então aliados Zé Carlos do Pátio e Percival Muniz.

A vida pública de Thiago Silva seguiu os passos de seu pai, Joaquim Silva, que foi influente líder comunitário de Bezerra. Thiago Silva presidiu as associações de moradores de bairro do Eldorado, Mirassol, Santa Fé e Copacabana.

POLÍTICA – Em 2012 Percival Muniz foi eleito prefeito e Thiago Silva (PMDB) conquistou uma cadeira de vereador, com 1.624 votos. Quatro anos depois Zé do Pátio venceu a eleição para prefeitura e Thiago Silva (PMDB) foi reeleito com 3.264 votos. Dois anos depois, Thiago Silva virou deputado estadual (PMDB), com 19.339 votos e se manteve no cargo em 2022 com 30.506 votos.


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Em 2024 Thiago Silva (MDB) foi candidato a prefeito com o vice Luiz Fernando Homem de Carvalho, o Luizão (Republicanos), que disputou a prefeitura em 2020 ficando em segundo lugar com 20.653 votos (20,31%). Cláudio Ferreira (PL) venceu o pleito com 56.356 votos; Thiago Silva foi derrotado com 40.831 votos; e em terceiro lugar ficou Paulo José (PSB), com 26.027 votos.

A chapa de Thiago Silva foi representada pela coligação Juntos por Toda Rondonópolis formada pelo MDB, o Republicanos de Luizão, PRB, Agir e União Brasil.

DEPUTADO – Thiago Silva é deputado do baixo clero, com atuação parlamentar discreta e duas vezes esteve no centro de escândalos. Em dezembro de 2021 o Programa do POP, na TV Cidade Verde, em Cuiabá, denunciou que o deputado teria utilizado um avião fretado pela Assembleia, para transportar a dupla gospel Daniel & Samuel, que se apresentou em Primavera do Leste e Vila Rica. A mesma emissora mostrou que Thiago Silva visitou a ExpoBela – feira agropecuária de Vila Bela da Santíssima Trindade, voando em avião pago pela Assembleia e participou de um ato político num palanque ao lado do prefeito anfitrião André Bringsken (MDB).

Em suma: Thiago Silva, que é evangélico, teria percorrido cidades com uma dupla gospel, que se apresentou para um público evangélico e seu potencial eleitor. Se não fosse pelo avião pago pelo contribuinte não haveria nada demais, porém voar às custas do contribuinte ganha outro sentido. Não houve resposta consistente e o caso caiu no esquecimento em meio a tantos escândalos.

O segundo escândalo atingiu Thiago Silva e outros 13 deputados estaduais. Na segunda-feira 16 de junho de 2025, o portal UOL expôs 14 deputados estaduais e outras autoridades que estariam envolvidas num escândalo milionário para compra de kits para a reforma agrária por meio da Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (Seaf) e o nome de Thiago Silva está naquela relação.

O escândalo veio à tona em 24 de setembro de 2024, quando a Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (DECCOR) da Polícia Civil deflagrou a Operação Suserano, com alvo na Seaf, cumprindo 50 ordens judiciais, das quais 28 mandados de busca e apreensão, e decretou o bloqueio de bens dos investigados até o montante de 28 milhões. O escândalo resultou na demissão do secretário da Seaf, Luluca Ribeiro, e de sua equipe, pelo então governador Mauro Mendes (UP). Luluca foi indicado ao cargo pela deputada estadual Janaína Riva (MDB), trabalha em seu gabinete, e sua mulher, Kézia Limoeiro, é chefe do gabinete da deputada.

À época da Operação Suserano, manchetes davam conta de que a empresa Instituto de Natureza e Turismo (PRONATUR) teria recebido mais de R$ 28 milhões para a compra de kits para a agricultura familiar, por meio de recursos de emendas parlamentares estaduais. PRONATUR teria sido contratada pela Seaf, sem licitação. Com base nos fatos apontados, Mauro Mendes demitiu a cúpula da Seaf.

A apuração pela DECCOR por meio da Operação Suserano, foi em atendimento a uma reclamação feita em setembro de 2024 pela Controladoria-Geral do Estado (CGE), por ordem do à época governador em exercício, Otaviano Pivetta. A CGE apurou preliminarmente que havia superfaturamento na compra dos kits em até 80%.  A delegada da Polícia Civil, Juliana Rado, instaurou inquérito, mas não o concluiu por conta da citação de nomes com prerrogativa de foro. O caso seria apurado pelo núcleo competente do Ministério Público, mas até então permanece o silêncio. A Assembleia não cogitou sequer instalar uma CPI para passar o escândalo a limpo.

Thiago Silva permanece calado sobre o escândalo da Seaf, que à época atingiu em cheio o MDB, pois além dele foram citados os deputados Dr. João e Juca do Guaraná – à época todos do MDB, e a indicação da cúpula da Seaf partiu de Janaína Riva, como parte do fatiamento do poder – antes da Seaf era controlada por Teté Bezerra, que é uma das principais figuras do MDB.

Os voos com a dupla gospel representaram pouco na trajetória de Thiago Silva. Seu verdeiro voo é outro, na esfera política e ele começou quando Thiago Silva chegou à Assembleia, em 2019, onde se encontrava Janaína Riva, filha de José Riva. Pouco antes, em 2016, Bezerra foi para Brasília com Janaína Riva e num ato de gala, com a presença do vice-presidente Michel Temer, filiou Janaína Riva ao PMDB.

Em 2014 José Riva era ficha suja e não disputou mais um mandato de deputado estadual. Em seu lugar concorreu Janaína Riva. Mesmo sem mandato e acumulando processos, Riva não abriu mão de lutar pelo poder. José Riva alinhavou com Bezerra para filiar Janaína Riva, para que ela ocupasse o maior espaço político em Mato Grosso.

Bezerra tinha e tem ascendência sobre Thiago Silva, e o deixou juntamente com Janaína Riva costurando o amanhã político para José Riva, pois sua idade (a de Bezerra) inviabilizava sua permanência na política. Jovens, cheios de sonhos, Janaína Riva e Thiago Silva passaram a dar as cartas do MDB. A eles juntou-se o então prefeito de Primavera do Leste, Léo Bortolin, que foi vereador e chegou à prefeitura em eleição suplementar e depois se reelegeu. Com o apoio de José Riva, que sempre teve força junto aos prefeitos e vereadores, Léo foi eleito presidente da Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM).

Quem viu a participação de Janaína Riva na convenção que homologou Thiago Silva em 2024 sabe dimensionar o tamanho de seu entusiasmo. O mesmo aconteceu pouco antes quando Léo Bortolin foi eleito presidente da AMM.

Durante anos José Riva não se manifestava politicamente em público. Porém, recentemente ele entrou em cena e percorreu municípios acompanhando sua filha caçula, Jéssica Riva (MDB), pré-candidata a deputada estadual em pré-campanha. A participação do ex-deputado no movimento político da filha ganhou espaço nos sites e jornais, pelo significado de sua participação: José Riva quer eleger Jéssica Riva para a Assembleia, e Janaína Riva para o Senado. Caso consiga, ela terá força para num passo seguinte chegar ao governo estadual – não se pode desconsiderar o fato de Janaína Riva ser nora do senador e pré-candidato a governador Wellington Fagundes (PL). Com todas as letras e sem ferir a legislação eleitoral, José Riva articula bem uma abrangente conquista ampliada dos poderes políticos. Thiago Silva, pelos laços partidários e de amizade com Janaína Riva, pode se tornar uma das peças importantes nesse contexto, desde que reeleito. O voo continua.

VOTO A VOTO – Thiago Silva tem a simpatia de parcela dos ex-liderados por Bezerra e o apoio de José Riva e suas filhas, mas mesmo assim, para se manter no cargo ele terá que enfrentar Jéssica Riva nas urnas para assegurar uma cadeira na bancada do MDB na Assembleia.

A caminhada de Thiago Silva não será fácil no MDB, na esquerda, nos meios evangélicos ao qual pertence e em Rondonópolis.

Prognósticos políticos apontam que dificilmente algum partido conseguirá eleger quatro ou mais deputados estaduais. No caso do MDB, Thiago Silva não estaria entre os três nomes considerados puxadores de votos, que seriam Jéssica Riva, Dr. João (deputado em busca de reeleição) e Léo Bortolin, que não é mais prefeito, mas preside a Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM).

As irmãs Riva: pedras no caminho de Thiago Silva

Jéssica Riva receberá todas as luzes do MDB, que é presidido regionalmente por sua irmã Janaína Riva, como parte do projeto político de seu pai, José Riva. Dr. João tem base eleitoral em Tangará da Serra, o sexto maior município de Mato Grosso, e uma composição suprapartidária local facilitará sua caminhada: o vice-prefeito e ex-vereador Eduardo Sanches (UP) que seria candidato a deputado estadual abriu mão daquela disputa e concorre para a Câmara dos Deputados, numa dobradinha tangaraense com Dr. João. Léo Bortolin articulou muito bem sua candidatura, na presidência da AMM, da qual está licenciado por exigência da legislação eleitoral.

Liderado de berço por Bezerra, que sempre foi a maior figura da esquerda mato-grossense, Thiago Silva não será o único nome da raiz socialista em Rondonópolis que é considerada referência nacional de direita. Em tese, Zé Carlos do Pátio e Júnior Mendonça têm mais perfil do lulismo do que ele, que tenta disfarçar seu berço político acendendo uma vela para cada uma das correntes ideológicas, enquanto Zé do Pátio sempre se descabelou por Lula, e Júnior Mendonça é filiado ao PT.

Em Rondonópolis, município com 177.492 eleitores, a disputa será acirrada pela quantidade de pré-candidatos a deputado estadual puxadores de votos. São eles: Nininho (Republicanos) e Sebastião Rezende (UP), ambos em busca de reeleição; Gilmar Fabris (PSD), que presidiu a Assembleia; Alessandra Ferreira (Podemos), primeira-dama; Júnior Mendonça (Fé Brasil), ex-presidente da Câmara; Zé Carlos do Pátio (Fé Brasil), que foi deputado e prefeito; e o empresário Neles Farias (Novo); além de outros eventuais nomes, mas com menor peso. Dentro desse universo, Thiago Silva disputará votos evangélicos com Sebastião Rezende, Alessandra Ferreira e Neles.

O apoio que Thiago Silva recebeu de Léo Bortolin em 2024 não se repetirá, pois ambos estarão nos palanques atrás dos mesmos votos. Além de Léo Bortolin, na região de Rondonópolis há outro nome de considerável expressão eleitoral, o ex-prefeito de Poxoréu por dois mandatos consecutivos, Nelson Paim (PSDB), que também tem trânsito político em Primavera, onde é empresário da aviação agrícola.

Em suma, a pré-candidatura de Thiago Silva poderá prejudicar a representação de Rondonópolis na Assembleia, por conta da pulverização de votos. Porém, para o plano político de José Riva será importante, porque ele contribuirá para a votação das irmãs Janaína e Jéssica Riva – para a primeira, diretamente, e para a outra, com o reforço da legenda. Sem o apoio do padrinho Bezerra, que no passado foi decisivo e que aposentou pelo avançado da idade, Thiago Silva terá respaldo da família Riva. Ele voa para tanto.

PS – Continuem lendo a série. Na terça-feira (10 de junho), o capítulo 95.

Em capítulos anteriores a série focalizou:

Zé do Pátio (PV federado com o PT e o PCdoB)

Neri Geller (Podemos)

Nilson Leitão (UP)

Dilmar Dal Bosco (UP)

Procurador Mauro (PSD)

Lúdio Cabral (PT federado com o PCdoB e o PV)

Valdir Barranco (PT federado com o PCdoB e o PV)

Gisela Simona (UP)

Moisés Franz (PSOL)

Cezare Pastorello (PT federado com o PCdoB e o PV)

Natasha Slhessarenko (PSD)

Gilberto Cattani (PL)

Victorio Galli (Podemos)

Carlos Ernesto Augustin, o Teti (PSB)

Wellington Fagundes (PL)

Carlos Fávaro (PSD)

Rosana Martinelli (MDB)

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