MT: Verso e reverso (154) – Calixto Guimarães o jornalista e cantor do Araguaia
Por
Eduardo on 18 de agosto de 2026
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
eduardogomes.ega@gmail.com
Capítulo 154 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto destaca Calixto Guimarães.
Sua voz não se faz mais ouvir. Seus textos deixaram de pautar a legião que o seguia. Suas composições não voltam aos festivais regionais de canções. Um tiro de espingarda no meio da mata o levou para outro plano. Na segunda-feira, 14 de julho de 2014 ele caçava na fazenda Matão, em São Félix do Araguaia, acompanhado por um irmão e um amigo chamado Joaquim Jorge, mas que atende pelo apelido de Loiro Magaiver. A fatalidade: o amigo disparou e Calixto Guimarães, de 54 anos, tombou sem vida. Levou a música, o texto e a composição para o túmulo. O Araguaia se entristeceu.
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Calixto nasceu em Goiânia, no dia 19 de abril de 1960. Vivia em Alto Boa Vista e com seu violão e sua voz percorria Mato Grosso e Goiás encantando o público que o ouvia. Fora da arte, no jornalismo, assumia a bandeira da lógica em defesa dos posseiros da Fazenda Suiá-Missú, conhecida como Fazenda do Papa.
No Araguaia, Calixto foi a voz da Comunicação que se levantou contra a desintrusão da antiga Fazenda do Papa para o aldeamento de índios xavantes. Contra essa decisão escreveu o livro Desordem e Retrocesso na Guerra do Indigenato.
O adeus de Calixto deixa um vácuo na defesa dos posseiros expulsos da antiga Fazenda do Papa.
Dois dias depois do seu adeus escrevi no jornal Diário de Cuiabá o artigo “De cabeça“, em sua homenagem, identificando-o com a grafia Kalixto, que é como ele costumava assinar suas produções literárias e musicais. Também tentei junto ao então deputado estadual Neldo Weirich, de Canarana, que apresentasse um projeto na Assembleia Legislativa, denominando o estadualizado – como se discutia a perspectiva dessa obra – Contorno Leste da Rodovia BR-158 de Jornalista Calixto Guimarães.
Weirich respondeu que atenderia o pedido, pois ele também via na denominação uma justa homenagem, mas engavetou a solicitação.
De cabeça
Suiá-Missú morre pela segunda vez. Agora, porque o coração de Kalixto Guimarães não bate mais. Antes, por conta da corrente antinacionalista que expulsou milhares de brasileiros daquela área, que em sua região, no Araguaia, é mais conhecida como Fazenda do Papa.
Na frieza de uma página da internet leio que na tarde da segunda-feira, 14, um tiro acidental de espingarda fechou para sempre os olhos do jornalista, escritor, músico, compositor e figura humana exemplar Kalixto, na zona rural de São Félix do Araguaia.
Nos meios jornalísticos, Kalixto foi uma das poucas vozes em defesa dos posseiros de Suiá-Missú. Ao empunhar essa bandeira, foi isolado pela classe política, porque político teme se solidarizar com causa que gere desgaste perante os ditos formadores de opinião pública que coabitam nas entranhas da mídia brasileira consciente ou inconscientemente atrelada aos interesses internacionais.
Nunca vi um de seus textos ousados, realistas, verdadeiros, puros e carregados nas cores verde e amarelo serem lidos no plenário da Assembleia Legislativa. Sua causa não ganhava ressonância na mídia porque suas matérias colocavam os interesses nacionais acima da avidez por dinheiro que move jornalistas.
“Não quero que você descanse em paz, pelo menos até que o Brasil se reencontre com a brasilidade”
Grande Kalixto! Do além, saiba que muito admirei sua luta e que, mesmo pequeno e fraco, meu pensamento sobre a antiga Fazenda do Papa é semelhante ao seu. A diferença entre nós fica por conta de meu texto limitado enquanto o seu irradiava saber. Muito me alegrei em 30 de junho deste ano ao receber um e-mail seu sobre a edição Nº 40 da Revista MTAqui, no qual você escreveu: “Cordiais cumprimentos Brigadeiro MTAqui!!! Esta edição chegou em boa hora com o destaque sobre a BR-158… Pulmão do Araguaia! A sua caneta dourada tem sido a única dentre as tantas da artilharia do jornalismo mato-grossense, que vem tendo a coragem de mirar na verdade dos fatos sem medo de atingir as trincheiras do inimigo”.
Por maior que seja sua derrota (minha também) no desfecho da antiga Fazenda do Papa que virou terra indígena Marãiwatsédé, ela não significa desonra nem fracasso. Ao contrário, lhe confere o galardão dos guerreiros dos bons combates e sempre o fará lembrado – até mesmo pelos algozes dos ex-posseiros – na condição de homem digno, que se pautava pela razão, pelo humanismo e o amor pátrio.
A antiga Fazenda do Papa é fato consumado. Dela resta a desgraça coletiva que se abate sobre milhares de brasileiros de mãos calejadas, de crianças indefesas, de portadores de necessidades especiais, de mulheres, de idosos, de jovens. Dela sobra esse triste mosaico social que vegeta sem hoje e amanhã em Alto Boa Vista e região. Dela fica o grande legado de sua luta.
Tenho plena convicção que amanhã teremos novos despejos ou desintrusões, como dizem os juristas. Jarudore tem os dias contados para ser riscado do mapa. Quando isso acontecer, a soldadesca repetirá o que fez na antiga Fazenda do Papa, demolindo a vila Estrela do Araguaia e a zona rural na área transformada em terra indígena.
A diferença do ontem para o amanhã sombrio que nos espera é que o povo mato-grossense não terá a sua – essa sim – caneta dourada. Do lado de cá da vida estendo-lhe a mão, por mim, por minha mulher, meus filhos, minha nora, minhas netas e, se me permitem, pela população consciente de Mato Grosso.
Não quero que você descanse em paz, pelo menos até que o Brasil se reencontre com a brasilidade. Ao contrário, espero que seu espírito irrequieto mova anjos, arcanjos e querubins, e que as legiões celestes levem até Deus o preito que norteou sua vida. O Senhor haverá de atendê-lo. Depois dessa vitória, que sua alma repouse entre as estrelas e que seu fulgor seja visto pelas famílias de todos os até agora injustiçados pela política do entreguismo nacional. Que nesse amanhã de glória os pais digam aos filhos: “Pra ver a estrela Kalixto é preciso levantar a cabeça”.
Levante a cabeça, Mato Grosso!
PS – Continuem acessando a série. Amanhã (19), o capítulo 155.