MT: Verso e reverso (152) – Antônio Paulo da Costa Bilego

Eduardo Gomes

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Capítulo 152 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto destaca Antônio Paulo da Costa Bilego.

Desabitado nas duas margens do rio que faz a divisa de Mato Grosso com Goiás. Assim era o Vale do Araguaia nos anos 1940. À esquerda, tomando-se Barra do Garças por referência rio abaixo, somente a histórica cidade de Araguaiana; o distrito de Barra; as primeiras pegadas do coronel do Exército Flaviano de Mattos Vanique em busca de um local para a construção da nova capital brasileira, que resultou no surgimento de Nova Xavantina; São Félix do Araguaia, que nasceu da fuga de Severiano Neves, por conta de uma aventura sexual na época em que havia ‘casamento na polícia’; e a pequena Santa Terezinha. Barra tinha acesso carroçável a Goiânia e na margem oposta uma pista de pouso da Força Aérea Brasileira em Aragarças, onde Getúlio Vargas instalou a Fundação Brasil Central (FBC). Araguaiana, distante 55 km de Barra num ponto considerado vai e volta era sede de município e sua localização travava seu crescimento. O prefeito era Antônio Paulo da Costa Bilego, que não ficou indiferente àquela realidade. Bilego reuniu algumas carroças e mulas de tropa, juntou as tralhas e documentos da prefeitura, fechou a porta e não apagou as luzes porque não havia energia elétrica no lugar. Botou tudo na estradinha e transferiu a sede do poder para Barra. Araguaiana sofreu um golpe de estado municipalizado, mas em compensação os mato-grossenses ganharam a cidade de Barra do Garças.

Esse fato é pouco conhecido. Em 2000 fui à Araguaiana com o repórter fotográfico Evilázio Alves para produzir um material sobre os 500 anos do Brasil. Conversei com o professor e diretor da Escola Dom Bosco, José Ferreira Lima, que há 41 anos trabalhava na Educação naquela cidade. O educador foi didático. Disse que na sexta-feira, 9 de julho de 1948, Bilego fechou a prefeitura e pegou a estrada rumando para Barra onde foi recebido com fogos e festa. Segundo ele, Araguaiana somente não ficou totalmente desabitada por conta de sua escola, que recebia alunos locais e da região. “A Educação nos (Araguaiana) salvou”, comentou com uma pitada de orgulho no melhor sentido da palavra diante das águas do Araguaia, que passavam em silêncio em respeito à fala do mestre.

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Araguaiana virou distrito de Barra. O ato foi homologado por uma lei de autoria do deputado Heronides Araújo e sancionada pelo governador Arnaldo Estevão de Figueiredo, na quarta-feira, 15 de setembro de 1948. A fundamentação para tanto foi bem política. Em nenhum momento falou-se em transferência da sede, mas somente na mudança do nome de Araguaiana para Barra do Garças, que era distrito e, portanto, não houve alteração dos limites territoriais.

Inserida na malha rodoviária nacional por estrada de chão batido, uma pecuária expressiva, rica em diamantes e cercada pelo misticismo da Serra do Rondon, onde em 1925 desapareceu o pesquisador e coronel inglês, Percy Harisson Fawcett, Barra, transformada em cidade experimentou um ciclo de grande crescimento populacional. É uma das maiores cidades de Mato Grosso e um dos principais roteiros turísticos do Brasil interior.

Araguaiana ficou no limbo, mas em 13 de maio de 1986 o governador Júlio Campos sancionou uma lei de autoria das bancadas do PDS e PMDB elevando o distrito de Araguaiana, de Barra do Garças, a município.

Antônio Paulo da Costa Bilego nasceu em 9 de junho de 1909 na cidade de São Raimundo das Mangabeiras, Maranhão. Aos 7 anos seus pais Pedro Paulo de Medeiros e Celerinda Costa Medeiros mudaram-se para Conceição do Araguaia, no Pará. Naquela cidade cursou o primário numa escola de irmãs Dominicanas. Aos 13 anos Bilego trocou o Pará por Araguaiana. Foi balconista, garimpeiro, açougueiro, tropeiro, comerciante, zebuzeiro, servidor da FBC, fazendeiro, delegado de polícia em Barra do Garças e inspetor de Exatorias da Secretaria de Estado de Fazenda. Ele também publicou o livro “Memórias de Um Pau de Arara”, no qual focalizou um dos episódios mais emblemáticos de Mato Grosso, o enfrentamento de Morbeck e Carvalhinho.

Em sua trajetória, Bilego foi Maçom Emérito da Loja Maçônica Acácia Cuiabana, em Cuiabá, e fundador da Loja Maçônica Acácia do Araguaia, na Barra. Recebeu a comenda do Mérito Legislativo de Mato Grosso. Em Araguaiana exerceu dois mandatos de vereador. O governador Frederico Campos o nomeou prefeito de Aripuanã (1979/82); naquele período não havia eleição direta para as prefeituras nas capitais, municípios da faixa de fronteiras e considerados zonas de segurança nacional, como era o caso de Aripuanã.

Vítima de insuficiência respiratória causada por uma bronquite crônica, Antônio Paulo da Costa Bilego fechou os olhos para sempre em 27 de fevereiro de 1991, na cidade de Barra do Garças, onde seu corpo foi sepultado.

PS – Continuem lendo a série. Segunda-feira (17 ), o capítulo 153.

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