MT: Verso e reverso (145) – Corruptos não engoliram o governo de Taques

EDUARDO GOMES
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Capítulo 145 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza Pedro Taques (PSB) homologado em convenção para disputar o senado à frente de uma chapa com os suplentes Teti Augustin (PSB) e Guelda Andrade (PT); Teti é domiciliado em Rondonópolis e um dos grandes produtores nacionais de semente, e Guelda é professora e sindicalista militante no Sintep – o sindicato da Educação. Taques governou Matot Grosso sendo torpedeado por corruptos que sentiram falta da roubalheira durante a abstinência que o governante lhes impôs.

Um breve relato: Taques recebeu o diploma de advogado na Universidade de Taubaté (SP) em 1992. No ano seguinte foi aprovado no concurso para promotor de Justiça em São Paulo. Dois anos depois ingressou no Ministério Público Federal (MPF) e ganhou fama nacional, por sua atuação firme: prendeu o poderoso Jader Barbalho, vice-rei do Pará, acusou o coronel Hidelbrando Pascoal (AC) no Tribunal do Júri e implodiu o jogo do bicho em Mato Grosso com a Operação Arca de Noé, em 2002, que levou o bicheiro Comendador João Arcanjo Ribeiro para a cadeia.

Enquanto Taques brilhava fazendo cumprir a lei e estabelecendo a ordem, em Mato Grosso, a dupla José Riva e Silval Barbosa arrebentava as finanças públicas. A população viu a diferença entre ele e os dois, e seu nome virou imposição para o Senado, que ele conquistou em 2010, pelo PDT, com 708.402 votos numa chapa com os suplentes José Medeiros (PPS) e Paulo Fiúza (PV).

Em plenário foi voz altiva, e num gesto de protesto contra o coronelismo parlamentar disputou a presidência do Senado em fevereiro de 2013, contra Renan Calheiros (PMDB/AL) e se apresentou como sendo ‘anticandidato’. Renan recebeu 56 votos; Taques, 18; com dois votos em branco e outros dois nulos.

Taques deixou o Senado na metade do mandato para disputar e vencer a eleição para governador, em primeiro turno, pelo PDT, com Carlos Fávaro (PP) de vice.

Riva dá posse a Taques

TERRA ARRASADA –  Ao assumir o governo Taques se deparou com um cenário de destruição, tamanha a corrupção que ali foi praticada. Sua posse na Assembleia presidida por José Riva foi marcada por um cenário de insegurança, incerteza e revolta por parte dos deputados que mamavam nas tetas do governo, como a televisão mais tarde se encarregou de mostrar em horário nobre, com Emanuel Pinheiro deixando cair dinheiro do bolso do paletó; José Domingos e Ezequiel Fonseca botando a dinheirama em caixa de sapatos; Luciene Bezerra pedindo a Sílvio Corrêa, então chefe do gabinete de Silval, que lhe desse a parte que seria de Riva, porque ele já tinha muito.

Taques: “Eu, não”

Nunca entrei no gabinete de Taques no Palácio Paiaguás e nas vezes em que o entrevistei ele sempre negou a autoria ou conhecimento da Grampolândia Pantaneira, mas deduzo que aquele ato de gravar figuras no Paiaguás pode ter nascido como blindagem contra o oposto e as investidas dos corruptos em abstinência. À Imprensa Taques sempre negou a autoria, mas creio que ele estivesse por trás daquilo.

Corrupção em Mato Grosso sempre esteve presente na vida pública – por dever de ofício cito a frase: com as devidas exceções. Porém nos quatro anos que antecederam a Copa do Mundo de 2014 e naquele ano, a roubalheira ganhou contornos de epidemia. Melhor, de hiperendemia, pelos grupos chefiados pelo então governador Silval Barbosa e pelo mandachuva na Assembleia, José Riva – como ambos declararam em delação premiada, onde assumiram a condição de corruptos e quantificaram o rombo nos cofres públicos. Nesse cenário, em 2014,  Taques (PDT) foi eleito governador em primeiro turno, com 57,25% dos votos batendo Lúdio Cabral (PT), com 32,45% e Janete Riva (PSD), com 9,92%.

Taques assumiu o poder prometendo estancar a corrupção e criou a abstinência da dilapidação do erário, por parte dos remanescentes que permaneceram no governo e daqueles que levavam vantagem prestando serviços. Riva e Silval estavam no limbo político, mas tinham força e Taques tentava se virar como podia para não ser enrodilhado pelos esquemas defenestrados.

Por mais que lutasse contra a corrupção Taques a viu em seu governo. O então secretário de Educação, Permínio Pinto, foi preso acusado de chefiar um esquema que teria desviado 16 milhões em obras de construção e reforma de escolas. O plano para o desvio teria contado com a participação de dois barnabés da arraia-miúda indicados aos cargos por Nilson Leitão e Guilherme Maluf, ambos deputados do PSDB – Maluf agora é conselheiro do TCE. Leitão e Maluf negam. Filho feio não tem pai. Fora desse episódio não houve outro registro de corrupção no governo Taques.

Candidato à reeleição, Taques foi engolido pela classe política que se juntou em torno da candidatura de Mauro Mendes (DEM) e ele sequer chegou ao segundo turno. Derrotado, foi para o escritório, e em 2020, pelo Solidariedade, disputou a eleição suplementar para o Senado, vencida por Carlos Fávaro (PSD), no pleito que entre outros candidatos teve a Coronel Fernanda, José Medeiros, Procurador Mauro, Valdir Barranco, Nilson Leitão e Elizeu Nascimento.

DETALHE – No governo, Taques ficou com os pés e as mãos atados pelos chefes dos esquemas corruptos, mesmo assim, graças às suas denúncias e investigações administrativas conseguiu mandar Riva e Silval para a cadeia. Porém, onde tentasse mexer havia sempre uma força oculta dificultando. Todos os que bebem água sabem que um dos focos mais agudos da corrupção no governo de Silval foi o setor de transportes, mais especificamente no programa MT Integrado, cuja secretaria era ocupada por Cinésio Nunes, indicado por Wellington Fagundes e ainda seu braço direito. A obra do VLT foi judicializada e tramitou nas esferas federal e estadual – havia muito interesse inconfessável por trás da construção daquele modal de passageiros.

Alguém se lembra que Rowles Magalhães Pereira da Silva, ex-assessor do ex-vice-governador Chico Daltro, denunciou um esquema de propina de 80 milhões naquele projeto. Rowles fez a denúncia após viajar para Portugal assessorando um grupo de políticos que foi manter contatos com uma indústria portuguesa fabricante dos bondinhos para o VLT.

Portugal ficou pequeno para eles

Creio que nem todos serão capazes de lembrar quem foi a Portugal negociar com o fabricante. Esta foto, feita por Rowles nos mostra quem esteve na Terrinha. Da esquerda para a direita, Éder Moraes, Silval Barbosa, José Riva, Guilherme Maluf e Sérgio Ricardo.

Portanto muitos dizem que Taques foi bom senador e péssimo governador. Realmente seu desempenho foi positivo no Senado. Quanto ao governo é preciso que se leve em conta os espinhos. Sobre o momento atual lembrem-se que parte de quem estava no poder antes de Taques continua exercendo cargos e quer se manter na função que exerce ou busca outras, ainda mais relevantes; e que outros que fizeram parte dos esquemas da época, querem conquistar mandatos.

BERÇO – O rosariense, várzea-grandense e cuiabano José Pedro Gonçalves Taques nascido em 15 de março de 1968 tem tripla naturalidade. Não fui o criador da tríplice naturalidade de Pedro Taques. Essa versão, ouvi dele, quando governador, ao se dirigir ao vereador por Várzea Grande, Claido Celestino Batista, o Ferrinho, numa solenidade de inauguração de uma obra da então prefeita Lucimar Campos. Taques fugiu do tema que abordava, e com naturalidade revelou a Ferrinho – e aos demais presentes – que seus pais Eda e Alinor (seo Nego) moravam na vila de Currupira, município de Rosário Oeste. Ela, com as primeiras contrações para o parto, foi trazida para Cuiabá percorrendo a estrada de chão entre as duas localidades. Quando o veículo entrou em Várzea Grande, a bolsa estourou. Seu nascimento foi concluído no Hospital Santa Helena, nesta capital. Daí a pluralidade do berço, que oficialmente, na papelada, confere a naturalidade cuiabana a ele.

Portanto, mais mato-grossense do que o candidato ao Senado pelo Solidariedade, impossível. Somem-se a isso o fato que o sobrenome Taques está presente no Vale do Rio Cuiabá desde os tempos das Lavras do Sutil, o que. convenhamos, não é recente: é uma presença tão tricentenária quanto a capital mato-grossense.

PS – Continuem lendo a série. No sábado (8 de agosto), o capítulo 146.

Em capítulos anteriores a série focalizou:

Zé do Pátio (PV federado com o PT e o PCdoB)

Neri Geller (Podemos)

Nilson Leitão (UP)

Dilmar Dal Bosco (UP)

Procurador Mauro (PSD)

Lúdio Cabral (PT federado com o PCdoB e o PV)

Valdir Barranco (PT federado com o PCdoB e o PV)

Gisela Simona (UP)

Moisés Franz (PSOL)

Cezare Pastorello (PT federado com o PCdoB e o PV)

Natasha Slhessarenko (PSD)

Gilberto Cattani (PL)

Victorio Galli (Podemos)

Carlos Ernesto Augustin, o Teti (PSB)

Wellington Fagundes (PL)

Carlos Fávaro (PSD)

Rosana Martinelli (MDB)

Thiago Silva (MDB)

José Medeiros (PL)

Dr. Eugênio (Republicanos)

Mauro Mendes (UP)

Janailza Taveira (Podemos), Abmael Borges (PL) e Daniel do Lago (PSDB) 

Max Russi (Podemos)

Odílio Balbinotti (PL)

Padre Sebastião Coracy (PSD)

Wellington Galvan pela esquerda

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