MT: Verso e reverso (127) – Mancho, uma arara para sempre
EDUARDO GOMES
@andradeeduardogomes
eduardogomes.ega@gmail.com
Capítulo 127 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto destaca a arara Mancho, que era o xodó de Santa Rita do Trivelato.
Imponente. Absoluta. Linda. Livre, totalmente livre. Senhora dos ares e dengo na terra. Mancho (pronuncia-se Mantcho) era uma arara singular. Exuberante no vermelho predominante em sua plumagem pontilhada pelo verde e azul. Não se deixava urbanizar embora vivesse numa vila agitada pelo vaivém dos carros e tratores agrícolas. De vez em quando batia asas, sumia do seu dono em longas e demoradas revoadas em bandos. Assim como ia, voltava.
Chuva, muita chuva. Estrada com atoleiros. Chego à Santa Rita no final do ano de 1996. O compromisso é a cobertura de um mutirão rural do Sistema Famato (da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso). Porém, ao entrar na vila tiro de pensamento a razão da minha viagem. Sou recebido por Mancho, que num quá-quá-quá-quá de algazarra sobrevoa meu Gol. Depois dessa apresentação a ave posiciona-se sobre o carro como se fosse um guardião aéreo me escoltando sem adiantar nem atrasar. Faz um voo sincronizado com o carro. Acho aquilo fenomenal.
Cheguei ao local do Mutirão e fui apresentado a Edgar Matschinske, o dono de Mancho. Edgar era apaixonado por sua ave, que seu filho Adilson Matschinske encontrou filhotinho num ninho caído nas matas do rio Teles Pires e o levou para casa.
Com carinho Edgar criou Mancho sem jamais botá-lo na gaiola ou cortar suas asas. A paixão era recíproca – isso posso atestar – pois alguns minutos após o início da nossa conversa a ave entrou no recinto, localizou seu protetor, pousou em seu ombro e em silêncio ofereceu a cabeça pedindo um cafuné.
Edgar e Mancho não estão mais entre nós. Ele tombou cheio de vitalidade durante uma partida de futebol, vítima de um infarto traiçoeiro e fulminante. Mancho fechou os olhos para sempre quando um trator o esmagou.
Ilson Matschinske, irmão de Edgar, era vereador por Nova Mutum, município ao qual a vila de Santa Rita pertencia, e tratou de batizar a via principal do lugar de Rua da Arara. Depois, com a emancipação, Ilson foi eleito o primeiro prefeito e se reelegeu. Ilson, também não está mais entre nós: ele, Edgar e Mancho voltaram ao Criador.
SANTA RITA – A colonização da região começou em 1977 e, a implantação da vila de Santa Rita, em 2 de fevereiro de 1978. Produtores que compravam áreas rurais ganhavam lote urbano.
Atraídos pela fertilidade do solo e o preço das terras, centenas de agricultores, principalmente do Paraná, compraram áreas rurais na região de Santa Rita. Quase todos os negócios imobiliários foram fechados pelo mapa, ou seja: os compradores sequer conheciam a região.
Em 28 de dezembro de 1979 o governador Dante de Oliveira sancionou uma lei aprovada pela Assembleia Legislativa e de autoria do deputado Nico Baracat, emancipando Santa Rita de Nova Mutum. A criação do município mudou seu nome para Santa Rita do Trivelato. Alguns moradores defendiam que o lugar deveria se chamar Santa Rita do Teles Pires, mas prevaleceu a vontade da maioria, que optou pela denominação atual em reverência à colonizadora Trivelato.
A renda per capita de Santa Rita do Trivelato é a segunda de Mato Grosso: 150.426 e supera a estadual e a nacional, respectivamente de 74.620,05 e 53.886,67. A maior renda per capita mato-grossense é a de Campos de Júlio: 193.805. Mas tenham certeza de que Mancho escolheu viver e voar ali não por esse indicador social, mas pelos afagos que recebia e a exuberante natureza da região.
PS – Continuem lendo a série. Amanhã (18 de julho), o capítulo 128.