Capítulo 103 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o deputado federal JoséMedeiros, pré-candidato ao Senado pelo PL.
José Antônio dos Santos Medeiros tem 56 anos e carrega no currículo os diplomas de graduação em Matemática pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e de bacharel em Direito pelo Centro de Ensino Superior de Rondonópolis (Cesur), além do distintivo e da farda de policial rodoviário federal, que é sua profissão e da qual se aposentou precocemente aos 49 anos. Frio, calculista, José Medeiros não hesita em trair companheiros quando seus interesses e planos estão em jogo: foi assim com Percival Muniz, em 2016, na disputa pela Prefeitura de Rondonópolis.
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CARREIRA – Em 2018 José Medeiros foi eleito deputado federal pelo Podemos, com 82.528 votos, a segunda maior votação ao cargo; o mais votado foi Nelson Barbudo (PSL) com 236.249 votos, e desde então sonha acordado 25 horas por dia com a cadeira de senador.
José Medeiros filiado ao Podemos, concorreu na eleição suplementar para o Senado em 2020 e recebeu 138.922 votos. O eleito foi Carlos Fávaro (PSD), com 371.857 votos; em segundo lugar ficou a Coronel Fernanda (Patriota), com 293.363 votos; seus suplentes foram: o produtor rural Alexandre Augustin e a Coronel Zózima, todos do Podemos.
Em 2022, mesmo mantendo o sonho com o Senado, José Medeiros não se arriscou e preferiu tentar a reeleição, o que conseguiu pelo PL, com 82.182 votos, sendo o quarto melhor votado entre os candidatos. Rosa Neide (PT) recebeu 124.671 votos, a maior votação, mas seu partido não alcançou o quociente eleitoral; Fábio Garcia (União) foi o segundo, com 98.704 votos; e Abílio Brunini (PL), o terceiro, com 87.704 votos.
Antes de falar sobre os motivos que levam José Medeiros a sonhar com o Senado é preciso mostrar quem é ele.
No começo dos anos 2000 José Medeiros militava em Rondonópolis no grupo do PPS – antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) – que era liderado por Percival. Ele fazia parte de uma ala jovem que sonhava em ocupar espaço político em Mato Grosso em nome de um socialismo moreno ou de mesa de bar.
Integrante do grupo de Percival, José Medeiros suou a camisa na eleição de Adilton Sachetti para prefeito de Rondonópolis em 2004. Em 2006, com o PPS bufando de tanto poder em Rondonópolis, o governador Blairo Maggi saiu à reeleição e Percival para deputado estadual. O líder Percival indicou seu protegido José Medeiros para deputado federal para ajudar na soma de votos da chapa para a Câmara, e ele cravou pífios 8.175 votos.
Na eleição em 2006 o campeão de votos para a Câmara foi Carlos Abicalil (PT) com 128.851 votos, e o lanterna entre os eleitos, Valtenir Pereira (PSB), com 52.401. Dos nomes de Rondonópolis para deputado federal o mais votado foi Wellington (PL) com 78.215.
Em 2010 o PPS integrava uma coligação encabeçada pelo PDT do ex-procurador da República Pedro Taques, para o Senado, e Mauro Mendes (PSB) ao governo com Otaviano Pivetta (PDT), de vice. Integrava, mas da boca para fora, porque não havia nenhum nome do PPS, que era o partido de Percival, disputando cargo majoritário nem suas suplências.
Taques montou sua chapa ao Senado com o primeiro suplente Zeca Viana (PDT) e Paulo Fiúza (PV); Viana de Primavera do Leste, e Fiúza, de Sinop. Viana não acreditava na vitória de Taques e o via enquanto azarão. Daí tirou o time de campo: trocou a incerteza da suplência por uma candidatura viável a deputado estadual – se elegeu. O azarão, também. José Medeiros foi indicado para substituir Zeca Viana e o Senado caiu no seu colo, pois no final de 2014 Taques renunciou ao Senado para assumir o governo no começo do ano seguinte, já que foi eleito em primeiro turno com o vice-governador Carlos Fávaro (PP). José Medeiros virou senador e se apaixonou pelo cargo.
NO COLO – A trajetória de José Medeiros ao Senado foi interessante. Com a renúncia de Viana na chapa de Taques, o padrinho Percival era pressionado por parentes e amigos mais próximos para que indicasse sua irmã, a empresária Adria Muniz (PPS), para chapa de Taques. Adria ocupou espaço na mídia, mas ele ponderou que não soaria bem sendo deputado estadual candidato à reeleição lançá-la para a suplência da chapa ao Senado, e além disso, admirava José Medeiros e o via na condição de bom quadro – é assim que os políticos se referem às pessoas – para renovação política.
Adria foi jogada para escanteio. José Medeiros virou suplente na chapa de Taques. Tanto na suplência quanto nos quatro anos no exercício do cargo José Medeiros enfrentou uma ação movida por Paulo Fiúza, que reivindicava a inversão das suplências, mas a Justiça Eleitoral manteve a tramitação em banho-maria, e somente em 31 de julho de 2018 o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) cassou seu mandato e o tornou inelegível por oito anos, por decisão unânime, mas 13 dias depois uma liminar do ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Napoleão Nunes Maia, suspendeu a decisão do TRE.
Ao assumir a cadeira de Taques no Senado, José Medeiros rompeu politicamente com ele não considerando que os votos que o fizeram senador por quatro anos foram dados a Taques e não a ele.
ATA – A ata da convenção do azarão foi fraudada e mudou a ordem das suplências acordada após a saída de Viana. Paulo Fiúza, que seria primeiro suplente foi deslocado para a segunda, invertendo a posição com José Medeiros.
Em 2016 José Medeiros era senador e Percival tentava a reeleição para prefeito, uma vez que foi eleito em 2012. José Medeiros desconsiderou o que seu protetor fez para ele em 2010. Para trair Percival, José Medeiros se desfiliou do PPS em 22 de março de 2016 migrando para o PSD que era a sigla controlada por Carlos Fávaro, que sucedeu o mandachuva na Assembleia José Riva no comando daquele partido. Sem filiação ao PPS, José Medeiros se sentiu à vontade para abraçar a candidatura de Rogério Salles (PSDB), que concorria contra Percival. Zé Carlos do Pátio (SD) venceu a eleição por pequena margem sobre Percival e Rogério.
PRESIDENTE – José Medeiros tentou presidir o Senado. Em 19 de janeiro de 2017, na eleição para a presidência, ele disputou o cargo com Eunicío Oliveira (PMDB/CE) perdendo por 61 a 10 com 10 votos em branco.
No Senado ficou no baixo clero. Não apresentou um projeto sequer de relevância nacional. Caracterizado por destempero verbal contra a esquerda, José Medeiros não conseguiu defender os interesses de Mato Grosso. Sites criticavam José Medeiros ao longo de seu mandato de manga curta no Senado, chamando-o de Senador Sem Voto.
Na Câmara, até agora, a exemplo de seus quatro anos no Senado, José Medeiros não apresentou nenhum projeto relevante, e mesmo se identificando como carne e unha com o ex-presidente Jair Bolsonaro, que o nomeou para ser um dos vice-líderes do governo, não conseguiu canalizar recursos nem projetos estratégicos para Mato Grosso que o acolheu ainda criança quando trocou Caicó, no Rio Grande do Norte, onde nasceu, pela Terra de Rondon.
Pré-candidato ao Senado, José Medeiros escolheu para sua primeira suplência o empresário Odílio Balbinotti (PL) e não há definição quanto ao outro nome para a chapa. Um dos capítulos focalizará Balbinotti.
Pré-candidato da ala mais radical dos apoiadores de Jair Bolsonaro, o chamado bolsonarismo raiz, José Medeiros não tem uma bandeira parlamentar sequer por Mato Grosso. Aparentemente sua meta é a defesa do ex-presidente, e a Terra de Rondon continuará recebendo tratamento de indiferença da parte dele, como acontece desde que ele abraçou a doutrina bolsonariana.
Galvan em ato bolsonarista
UNIDOS – Duas vagas no Senado estarão em disputa. Para o bolsonarismo o que conta em Mato Grosso é a eleição para senador, pois a bancada na Câmara tem apenas oito cadeiras. O equilíbrio que os defensores de Jair Bolsonaro buscam está na composição do Senado, pois todas as unidades da federação têm igual peso. José Medeiros quer ser uma das vozes na chamada Câmara Alta, mas terá que se articular para fortalecer outro nome de sua linha de pensamento, o que nesse caso é Antônio Galvan (Avante) que somente não é mais bolsonarista por falta de espaço.
Abraçar a candidatura de Galvan pode não ser a escolha que José Medeiros faria em condições normais. Porém, entre os demais nomes não há outro de extrema direita quanto ele: Pedro Taques (PSB) e Carlos Fávaro (PSD) representam a esquerda; Janaína Riva (MDB) é filiada a um partido de esquerda e tem identificação com o presidente Lula; e Mauro Mendes (UP) não tem definição ideológica e se deixa levar por interesses pessoais. Portanto, não somente José Medeiros deverá pedir votos para Galvan, quanto Galvan para ele. Afinal quem se deixa guiar pelo bolsonarismo vota tantas vezes quanto for preciso na esperança que o Senado derrube sua condenação e o devolva aos braços de seus seguidores, que em Mato Grosso inegavelmente são maioria. Grande maioria.
PS – Continuem lendo a série. Amanhã (20 de junho), o capítulo 104.
Em capítulos anteriores a série focalizou:
Zé do Pátio (PV federado com o PT e o PCdoB)
Neri Geller (Podemos)
Nilson Leitão (UP)
Dilmar Dal Bosco (UP)
Procurador Mauro (PSD)
Lúdio Cabral (PT federado com o PCdoB e o PV)
Valdir Barranco (PT federado com o PCdoB e o PV)
Gisela Simona (UP)
Moisés Franz (PSOL)
Cezare Pastorello (PT federado com o PCdoB e o PV)