No governo de Santa Cruz, na Bolívia, Mato Grosso tem não somente um aliado, mas um irmão – ou hermano, como dizem. É JP Velasco, o boliviano mais mato-grossense do mundo
A bela vice-governadora Paola Aguirre
Mato Grosso ganhou um hermano em Santa Cruz da la Sierra, a capital do Estado de Santa Cruz, na Bolívia. E não se trata de um hermano qualquer, mas do governador Juan Pablo Velasco Dalence, o JP Velasco, que acaba de vencer a eleição àquele cargo numa chapa com a vice, a advogada, professora universitária e deputada Paola Aguirre Melgar, que de tão bela foi eleita Miss Derecho, quando universitária. O mano, quer dizer, o hermano, num gesto em busca da integração com o vizinho Mato Grosso veio a Cuiabá e foi a Lucas do Rio Verde, visitou os poderes políticos e não se desgrudou do empresário Eraí Maggi Scheffer, que facilitou sua viagem. JP Velasco é apaixonado pela Terra de Rondon, disse isso em suas falas por aqui, e escancara as portas de Santa Cruz aos investimentos mato-grossenses, rompendo assim uma absurda barreira que mantinha os dois lados da fronteira de costas um para o outro, como bem definiu esse cenário o ex-senador Márcio Lacerda. Resta agora o Palácio Paiaguás ver no vizinho um mercado potencial e uma rota segura aos portos chilenos e peruanos, e não somente um fornecedor de cocaína pelas incontáveis trilhas – cabriteiras – nos 730 km de marcos divisórios em solo firme e nos 253 km de separação por água numa vastidão com baixa densidade demográfica nos municípios de Poconé, Cáceres, Porto Esperidião, Vila Bela da Santíssima Trindade e Comodoro.
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JP e Eraí, na Assembleia Legislativa
JP Velasco é um empresário de 39 anos, que está a um passo de assumir o governo de um Estado com 370.621 km – área equivalente a Mato Grosso do Sul e pouco maior do que Goiás, para ficarmos em exemplos no Centro-Oeste – com 2,5 milhões de habitantes, dos quais, aproximadamente 2 milhões na capital Santa Cruz de la Sierra. Santa Cruz é a mola propulsora da Bolívia e seu jovem governante quer integrá-la ao mundo, começando por Mato Grosso – cujo modelo de desenvolvimento o inspira, segundo suas próprias palavras. Sua visita a Cuiabá foi articulada por Eraí Maggi, que investe no agronegócio boliviano seguindo uma legião de produtores rurais da região de Rondonópolis, que descobriu um verdadeiro filão na Bolívia, onde uma série de fatores faz da lavoura uma atividade mais rentável do que no Brasil.
O governante quer estimular investidores a optarem por Santa Cruz. JP Velasco disse isso com todas as letras. Mas, ele também quer que sua terra seja uma rota segura para Mato Grosso escoar commodities para o porto de Arica, no Pacífico chileno, e outros, no Peru. Para conseguir essa proeza, que reduzirá pela metade o tempo da viagem marítima do Brasil para a China, é preciso que seja pavimentado um trecho de 120 km de uma carretera no trajeto entre San Ignacio Velasco e Santa Cruz, e que do lado de Mato Grosso o governo conclua a pavimentação de 78 km de uma rodovia no município de Vila Bela da Santíssima Trindade – parte desse trecho está em obras. Do lado boliviano, JP Velasco busca parceriais internacionais pelo asfalto, e planeja dar a estrada em concessão. Uma fonte de sua comitiva revelou que um grupo chinês estaria interessado visando a exploração do pedágio.
A integração sonhada por JP Velasco inclui a rota aérea Santa Cruz de la Sierra-Cuiabá, mas ao longo de décadas ela foi tentada várias vezes, mas esbarrou na baixa procura, o que inviabiliza sua operacionalização, ainda que ofereça uma frequência semanal. Na década de 1990, o Lloyd Aéreo Boliviano experimentou a ligação utilizando o turboélice Avro. Depois, mais tentativas fracassaram. Nesse sentido não houve avanço nas conversações do governador visitante.
Pivetta recepcionou o colega JP
O governador Otaviano Pivetta está de olho na integração com Santa Cruz, e de igual modo, defende a exportação pelo Pacífico, como uma das alternativas para a economia mato-grossense, que pelas características geográficas oferecem alternativas regionalizadas de escoamento.
O mix de produtos mato-grossenses na Bolívia é acanhando. Estima-se que 77 itens cruzem a fronteira para lá, com a maioria para Santa Cruz. No sentido inverso, os vizinhos exportam gás natural pelo gasoduto Bolívia-Mato Grosso, que tem 645 km de extensão entre San José de Chiquitos, em Santa Cruz, e Cuiabá, e o agronegócio sonha acordado em importar em larga escala a ureia e outros nitrogenados. “O comércio tem que ser intensificado não somente no macro, mas no varejo, também”, observou Pivetta diante de JP Velasco. A universalização comercial observada pelo governador mato-grossense leva em conta a realidade fronteiriça dos dois lados, que tem forte presença de famílias de ‘bolivieiros’ – bolivianas com brasileiros, e de ‘brasilianas’, de brasileiros com bolivianas. Esses casais preservam os costumes alimentares, o estilo de vestimentas e vários hábitos que contribuem para o consumo de produtos dos dois países. “Há um mercado formiguinha”, citou certa vez Márcio Lacerda. Essa movimentação multiplicada por milhares de pessoas resulta num bom mercado, que precisa ser estimulado e defendido. O turismo é tímido e existe um mercado cultural inexplorado na Bolívia e Mato Grosso; mas a cultura atravessa fronteira: em Porto Esperidião, anualmente, na semana do carnaval, acontece os festejos do curussé, dança típica dos povos chiquitanos bolivianos, e que se adaptou bem àquele município.
A relação dois lados da linha imaginária que une os dois países é a mais harmônica possível, mas há um cenário que precisa ser modificado, o que somente será possível se houver um entendimento diplomático entre Brasília e La Paz: mulheres bolivianas cumprem penas ou aguardam julgamentos por tráfico internacional de drogas, em presídios nos municípios de Cáceres e Pontes e Lacerda; são as chamadas ‘mulas’, que transportam pequenas quantidades de cocaína da Bolívia para o Brasil. Essas mulheres são em sua essência de famílias de extrema pobreza e incultas; são arrastadas pelos cartéis para os pequenos crimes transfronteiriços. A situação delas nos presídios é degradante e seria importante um acordo binacional para que passem a cumprir pena no país de origem, e assim fiquem próximas de seus parentes e tenham melhores condições de ressocialização. Esse assunto não foi tratado na visita de JP Velasco.
UNIVERSIDADE – Santa Cruz é o destino de jovens mato-grossenses em busca do ensino superior, sobretudo do curso de Medicina. No sentido inverso, a Universidade Federal de Mato Grosso tem alunos bolivianos. As faculdades particulares bolivianas exigem apenas o currículo escolar e a documentação pessoal para estrangeiro, e isso é um atrativo para os que querem cursar medicina.
Nos meios políticos é tímida a interação. Porém, em Várzea Grande, o médico boliviano Miguel Angel Claros Paz foi vereador; seu filho e médico nascido no Brasil, Miguel Angel Claros Paz, se elegeu vereador em 2024 naquele município.
JP Velasco veio a Mato Grosso mostrar que há um mercado consumidor em Santa Cruz, nos demais estados bolivianos e no Chile, que é o ponto mais ao Norte (para quem está no Brasil) no Corredor Bioceânico Atlântico-Pacífico, e para incentivar produtores rurais a cultivar em sua terra, desde que 50 km distante da fronteira, por conta da lei de Segurança Nacional. As portas cruceñas estão abertas para os óleos vegetais, cimento, colchões, fiação, café torrado e moído, refrigerantes, cerveja, sucos, esquadrias metálicas, implementos agrícolas, móveis, arroz empacotado, açúcar, carne suína enlatada, etanol, carrocerias, lácteos, frangos congelados, calçados, frutas tropicais, itens gráficos e uma gama de outros produtos Made in Mato Grosso. No sentido inverso os imprescindíveis insumos agrícolas, zinco, roupas de frio, a deliciosa cerveja Paceña e outros, além, é claro, do gás natural, que desde 2002, alimenta a Termelétrica Mário Covas, em Cuiabá. Somem-se aos produtos bolivianos, a gama de quinquilharia chinesa que desembarcam no Chile e podem cruzar a Bolívia rumo a Cuiabá, e produtos chilenos exportáveis, como vinhos, licores, maças, pescado, minerais, química fina e itens industrializados.
ALIADOS – JP Velasco tem importantes aliados mato-grossenses por sua política de integração. Pivetta sempre defendeu a saída pelo Pacífico. Na Assembleia, Carlos Avallone (PSDB) conhece bem a realidade e a potencialidade bolivianas, e exerceu cargos executivos que o aproximaram da Bolívia. Em Lucas do Rio Verde o prefeito Miguel Vaz (Republicanos) mostrou um paraíso de desenvolvimento ao governador, e o levou ainda mais a pender por Mato Grosso. Nos meios empresariais o interesse é grande, tendo à frente Eraí Maggi.
As entidades classistas mato-grossenses também querem pareceria com a Bolívia. Há mais de duas décadas o então presidente da Federação da Agricultura e Pecuária (Famato), Zeca D’Ávila, lançou uma campanha de doação de vacina contra a aftosa para o rebanho bovino boliviano na faixa de fronteira. Nos anos 2000, a Federação das Indústrias (Fiemt) promoveu caravanas de integração para estimular o comércio entre os dois países.
Resta aguardar para que os governos de Santa Cruz e de Mato Grosso efetivamente promovam a integração.
Em outubro do ano passado, o então governador Mauro Mendes inaugurou a Zona de Processamento de Exportação Engenheiro Adilson Domingos dos Reis (ZPE) criada há 30 anos. A ZPE permanece elefante branco, sem conseguir atrair indústrias. Não somente pela integração com a Bolívia, mas é preciso incrementá-la de olho nos mercados do Cone Sul e asiático.
Além da incrementação da ZPE o governo precisa instalar um city gate em Cáceres, para abastecer a frota da região, que foi convertida ao gás natural veicular (GNV).
Aproveitando o posicionamento de JP Velasco pela integração, Mato Grosso precisa ampliar a navegação comercial na Hidrovia Paraná-Paraguai, que tem seu ponto mais ao Norte naquela cidade, e para tanto terá que investir num terminal portuário no rio Paraguai. Essa hidrovia de integração continental (Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai) tem 3.442 km entre Cáceres e Nueva Palmira, cidade litorânea do Uruguai, e durante séculos foi o único acesso ao centro do continente.
ENGANAÇÃO – No dia 21 de junho de 2024, os então ministros da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro; do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet; e da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, apresentaram em Cáceres, o projeto Rota Quadrante Rondon, uma das cinco Rotas de Integração Sul-Americana que o governo federal anunciou que implementaria. No pacote de obras previsto para a fronteira, estava a ampliação e modernização do Aeroporto Comandante Nelson Dantas, em Cáceres, o que não aconteceu. Nenhuma ação da Rota Quadrante foi implementada na região de Cáceres.
CONTRAPÉ – Mato Grosso está vestido de gala ao pé ao altar à espera da noiva Santa Cruz, porém, na visita de JP Velasco a Cuiabá ocorreu uma infeliz intervenção do deputado estadual Wilson Santos (PSD) ao saudá-lo na Assembleia, onde ele foi recebido com honra e protocolo pelo presidente do Legislativo, Max Russi (Podemos) e o plenário. Wilson Santos debochou querendo saber se ele era prefeito ou governador, e ironizou ao lhe pedir desculpas pela vitória do Botafogo (3 a 0) sobre o Independiente Petrolero. Como se tudo isso ainda não bastasse, o anfitrião citou passagens nada amistosas entre os dois povos – fatos que tratados e o passar do tempo sepultaram.