Da Terra ao espaço: dentro do KSC, a missão que carrega a ciência brasileira para a órbita
Eduardo Baldaci*
KENNEDY SPACE CENTER
A SpaceX lança a missão CRS-34 com mais de 6.500 libras de carga e cinco experimentos científicos rumo à Estação Espacial Internacional. Este correspondente acompanhou o voo com credencial de imprensa dentro do Kennedy Space Center
Há uma diferença sensível entre ver um foguete partir da margem de uma estrada e estar do lado de dentro, com credencial oficial pendurada no pescoço, dentro dos limites do Kennedy Space Center. Na noite de terça-feira, 12 de maio, foi exatamente isso que vivi — e a ocasião não poderia ser mais significativa.
A SpaceX lançou às 19h16 (horário de Brasília, 20h16) o Falcon 9 transportando a cápsula Dragon na missão CRS-34 — a 34ª missão de reabastecimento comercial contratada pela NASA. A decolagem partiu da plataforma SLC-40 da Cape Canaveral Space Force Station, na Flórida, com destino à Estação Espacial Internacional (ISS). A bordo: mais de 6.500 libras de carga — aproximadamente 2.950 quilos —, entre suprimentos, equipamentos e, principalmente, experimentos científicos que podem redefinir o que sabemos sobre o corpo humano e sobre a formação do universo.
A REUTILIZAÇÃO COMO ROTINA
O que chama atenção nesta missão não é apenas a carga científica. É a normalidade do extraordinário. O primeiro estágio que empurrou o foguete rumo ao céu nesta terça-feira é o booster B1096, que voou pelo sexto vez. A cápsula Dragon C209 também completou seu sexto voo. A SpaceX opera veículos reutilizáveis com a mesma frieza operacional com que uma companhia aérea recicla seus jatos — e isso, por si só, é uma revolução silenciosa que vale ser registrada.
Menos de oito minutos após o lançamento, o B1096 retornou em queda livre controlada à Landing Zone 40 (LZ-40), a apenas alguns quilômetros da plataforma de onde partiu. O pouso foi acompanhado pelas já famosas explosões sônicas — trovoadas sem nuvens que chegaram a sacudir janelas em Titusville e que, para este correspondente, soaram como uma pontuação dramática no fim do primeiro ato do espetáculo.
“Trovoadas sem nuvens que soaram como uma pontuação dramática no fim do primeiro ato do espetáculo.”
CINCO PERGUNTAS QUE A HUMANIDADE ENVIA AO ESPAÇO
A carga mais valiosa da CRS-34, porém, não é medida em quilos. São cinco experimentos científicos que viajam dentro da cápsula Dragon e que, nas próximas semanas, serão conduzidos por astronautas a bordo da ISS:
ODYSSEY: simuladores de microgravidade para estudos de biologia espacial. Como organismos vivos — incluindo células humanas — se comportam quando a gravidade deixa de existir? Esta é a pergunta que o experimento tenta responder, com implicações diretas para missões de longa duração a Marte.
Green Bone: um scaffold ósseo fabricado a partir de madeira de rattan — o mesmo material usado em móveis — que, ao ser tratado quimicamente, imita com precisão a estrutura porosa do osso humano. O objetivo é testar se este material pode ser usado como suporte para regeneração óssea em ambiente de microgravidade.
SPARK: investiga como o baço humano se transforma no espaço e como os glóbulos vermelhos se degradam em microgravidade. Dados críticos para garantir a saúde de tripulações em missões que podem durar anos.
CLARREO Pathfinder: mede com precisão inédita a luz solar refletida pela Terra e pela Lua. Funciona como um instrumento de calibração-mestre para todos os satélites climáticos em órbita — uma espécie de padrão universal de medição para a ciência do clima.
Laplace: estuda como agregados de poeira crescem e evoluem em discos proto-planetários. Em outras palavras: o experimento tenta capturar, em laboratório orbital, os primeiros instantes da formação de planetas como a Terra — um processo que levou bilhões de anos, comprimido em meses de observação científica.
O QUE SIGNIFICA ESTAR AQUI
Cobrir uma missão espacial com credencial de imprensa dentro do Kennedy Space Center é uma experiência que redefine o que se entende por proximidade jornalística. Não há vidro entre o repórter e o foguete. Há apenas a distância de segurança — e a sensação física de que algo impossível está prestes a se tornar rotineiro.
Quero deixar uma impressão clara: o que acontece aqui na Flórida não é um espetáculo americano. É um empreendimento da humanidade. Os experimentos que viajam no Dragon CRS-34 foram desenvolvidos por cientistas de múltiplas nacionalidades, financiados por agências de pesquisa de vários países, com o objetivo comum de entender melhor o universo em que vivemos — e de garantir que a espécie humana possa sobreviver para além dos limites deste planeta.
Enquanto escrevo estas linhas, a cápsula Dragon C209 já está em órbita, aproximando-se da ISS. O acoplamento está previsto para as próximas horas. E a ciência — toda ela — segue caminho.
*Eduardo Baldaci – Correspondente Internacional – Kennedy Space Center, Titusville, Flórida (EUA)