Os 50 anos da inauguração da BR-163, em 20 de outubro de 1976, ganharam esta série no blog para falar não somente sobre aquela rodovia de integração nacional, mas, também, sobre os personagens no universo mato-grossense do Nortão, região que teve sua ocupação antecipada com aquela obra. A criação do corredor rodoviário ligando Mato Grosso ao Pará chamou a atenção aos olhos do Brasil e levou o pastor luterano e colonizador Norberto Schwantes, fundador de Canarana, Água Boa e Querência, no Vale do Araguaia, a lutar por uma área para assentar trabalhadores rurais, sitiantes e fazendeiros gaúchos que foram expulsos de suas terras; da luta de Schwantes nasceram Terra Nova do Norte – à margem da BR-163 – e sua vizinha Nova Guarita. A história do Nortão, escrita por vultos famosos e anônimos, nascidos na região ou que migraram para seus municípios é recheada de fatos importantes e interessantes. Vale a pena a leitura da série – que começou a ser postada no dia 15 deste mês de outubro – para conhecê-los.
É assim que se conquista
– Ernesto! – Disse a voz rouca e suave ao telefone*. Do outro lado da linha, o presidente linha-dura do governo militar, general Ernesto Geisel, respondeu ofegante: – Eugênia, Eugênia… guria, há quanto tempo…
Depois do telefonema, dona Eugênia Schwantes chegou altiva no Palácio do Planalto. Acompanhada por um ajudante de ordens do presidente entrou no gabinete mais importante do país. Foi recebida pelo anfitrião com um abraço e um beijo nas mãos.
Sua presença no gabinete foi rápida e 20 minutos depois deixava a sede do poder levando um “sim” que era aguardado por centenas de famílias à espera de um pedaço de terra para plantar, colher e viver em paz. O “sim” que dona Eugênia ouviu foi a semente que fez brotar sobre uma área de treinamento do Exército, as cidades de Terra Nova do Norte e Nova Guarita, que não reverenciam a memória do Ernesto e daquela mulher, que foi a figura-chave para o sim que resultou na ocupação do vazio demográfico acima de Sinop, no Nortão.
Memória – Nos anos 1970 o pastor luterano Norberto Schwantes, filho de dona Eugênia, iniciou uma colonização no Vale do Araguaia, que resultou na criação de Canarana, Água Boa e Querência, basicamente para agricultores e produtores rurais do Rio Grande do Sul, mas ele tinha uma demanda por mais área e não conseguia encontrá-la, para assentar pequenos produtores de Tenente Portela, Nonoai, Guarita, Cacique Doble, Planalto e Miraguaí, muitos dos quais enfrentavam problemas com os índios Caingangue, pela posse da terra.
A história oficial diz que a colonização de Terra Nova do Norte somente tornou-se possível por meio de uma parceria do Ministério do Interior, Exército Brasileiro, Governo de Mato Grosso, Governo do Rio Grande do Sul e a cooperativa Coopercana, idealizada e dirigida por Schwantes. Na verdade, houve sim um entendimento multidisciplinar nesse sentido, mas a área de 435 mil hectares onde Schwantes implantou o Projeto Terranova pertencia ao Exército, que naquela época não admitia sequer ouvir a expressão reforma agrária, que em outras palavras era o que o pastor luterano buscava. Antes da visita de dona Eugênia ao presidente, Schwantes conversou com o chefe do Gabinete Militar, general de divisão Hugo Abreu, que lhe deu um “não” nervoso, quase o botou para fora e mandou que o Serviço Nacional de Informações (SNI) o monitorasse. Hugo Abreu além de abominar a ideia do assentamento, defendia que a área permanecesse sob domínio dos militares, como forma de ocupação da Amazônia, numa região onde a Aeronáutica já estava presente com o Campo de Provas Brigadeiro Velloso, que chamamos de Base Aérea do Cachimbo, com 21,6 mil km², em Novo Progresso (PA).
Atendendo ao pedido de dona Eugênia, o Ernesto – como ela o chamava desde a adolescência de ambos – deu ordem para que a área fosse imediatamente transferida a Schwantes. No auge dos anos cinzentos do regime militar, pela primeira vez o Exército cedeu a um movimento que à época era visto como coisa de comunista. Terra Nova do Norte e Nova Guarita cometem injustiça com a memória do Ernesto e de sua amiga, dona Eugênia. Hoje, 10.531 cidadãos residem no município de Terra Nova do Norte, e 4.546 em Nova Guarita. Ao todo, 15.077 brasileiros ganharam o direito à cidadania, que muitos e seus antepassados não encontravam em seu lugar de origem. Dona Eugênia e seu amigo Ernesto não estão mais entre nós, que comemoramos a conquista daquela gente.
* O telefonema foi combinado dois dias antes, numa audiência que o chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, concedeu a Schwantes.
A ousadia de Schwantes
Em 1978 centenas de famílias expulsas da terra indígena dos caingangues no Rio Grande do Sul foram acampadas no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio (RS). Schwantes as defendia e as levou para Terra Nova do Norte e Nova Guarita, onde as instalou em parcelas de agrovilas por ele criadas.
No dia 8 de março de 1978, Schwantes escolheu José Almir da Silva, que presidia o Grêmio Estudantil do Colégio José de Alencar, em Ronda Alta (RS), para coordenar o primeiro grupo que viria para Mato Grosso. José Almir aceitou o desafio e desde então se transferiu para aquela localidade, onde pecuarista, foi exator, fundou e presidiu o sindicato rural.
Em 30 de junho de 1978, a caravana passou por Cuiabá e seus integrantes foram recepcionados pelo governador Cássio Leite de Barros, que presenteou José Almir com uma Bandeira de Mato Grosso, e ele a guarda em sua residência até hoje. Depois de cinco dias de viagem da capital até o destino, os primeiros moradores ali desembarcaram e iniciaram a ocupação da área.
Depois da primeira caravana, outras vieram para Mato Grosso trazendo colonos que estiveram acampados no parque em Esteio. Ao todo, foram transferidas 1.064 famílias. Posteriormente, uma das agrovilas ganhou o nome de Norberto Schwantes. Ele ainda recebeu outras homenagens no município: uma escola e uma avenida na cidade também levam seu nome.
Nacional – A ocupação populacional do Nortão criou uma região desenvolvida em Mato Grosso e resolveu problemas agrários fora de Mato Grosso. Terra Nova do Norte e Nova Guarita são exemplos dessa realidade, que inclui Novo Mundo – que abrigou brasiguaios.
O Nortão abraçou famílias de todas as regiões do país, e alguns dos filhos dos pioneiros que trocaram seu lugar de origem pelo sonho de encontrar um lugar ao sol – e crescer com a região, como se diz – ganharam renome internacional, a exemplo do treinador de futebol e ex-goleiro artilheiro Rogério Ceni, paranaense de Pato Branco, que foi bancário em Sinop, onde defendeu o clube local, o Sinop, pelo qual foi campeão mato-grossense.
Rogério Ceni é filho do pioneiro em Sinop e Santa Carmem, Eurydes Ceni, que reside em Sinop e cultiva em Santa Carmem.
Franzino e baixinho, trabalhando em Sinop na oficina de motos do Besouro, aquele mecânico de mão cheia e piloto de cair o queixo, nascido em Iguatemi, em Mato Grosso do Sul, não poderia mesmo ser reconhecido pelo nome civil de Gilmar Pereira Flores. A irreverência popular lhe deu o apelido de Joaninha.
Moto não existe somente para conserto, assim pensava o mecânico Joaninha. Também não sai da fábrica apenas para o trabalho e lazer, reforçava o pensamento. Além disso, ela é talhada para competição, para prova onde a adrenalina e a coragem se unem numa cumplicidade sem igual, acreditava – e continua com esse entendimento.
Com esse entendimento, em 2003, Joaninha trocou as ferramentas e o macacão sujo de graxa pelas provas de motocross. Sinop perdeu um mecânico de motos. O motocross mundial ganhou um ás.
A genialidade de Joaninha queria espaço, romper barreiras, superar desafios, literalmente voar decolando sobre duas rodas. Sinop era apenas o ponto de partida e Mato Grosso a primeira etapa do horizonte. Ganhou o Brasil, arrebanhou provas, conquistou o reconhecimento nacional, extrapolou as fronteiras, saiu pelo mundo e agora é nome internacional. Tornou-se incorrigível ganhador de títulos nacionais e no exterior sobre duas rodas.
Em 2000 a Miss Sinop e Miss Mato Grosso Josiane Oderdengen Kruliskoski conquistou o Miss Brasil. Morena arrasa-quarteirão, Josiane mostrou a beleza do Nortão ao país.
Josiane foi a primeira mato-grossense eleita a mais bela do país. Josiane é paranaense de Catanduvas e a exemplo de milhares de outros brasileiros chegou ao Nortão pela BR-163.
Musa das quadras
Ana Tiemi
Dona Tila fazia das tripas coração para manter a casa limpa, mas a poeira vermelha não dava trégua no vilarejo num canto perdido do município de Diamantino, à beira da quase deserta rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163), onde a malária era companhia constante, em meados dos anos 1980.
O lugar onde dona Tila vivia não tinha nenhuma estrutura, mas seus moradores sonhavam com um amanhã coletivo melhor. Uns cultivavam, outros abriam estabelecimentos comerciais, alguns prestavam serviço. Cada um se virava como podia. Transcorridos mais de 20 anos a vila cedeu lugar a uma linda cidade sede de um dos principais municípios agrícolas do Brasil, Nova Mutum.
O sonho coletivo em Mutum não tinha espaço para o esporte, principalmente para o vôlei, que exige quadra, treinamento diferenciado e até mesmo altura compatível aos atletas. No entanto, foi na área esportiva que a antiga vila conseguiu seu maior feito.
De sua seleção feminina de vôlei Mutum mandou para o mundo a genialidade da levantadora Ana Tiemi Takagui, filha de dona Tila e orgulho da cidade.
Ana Tiemi é a cara de Nova Mutum. Nova, ousada, bonita, vencedora, respeitada e admirada. Sua mãe, Cleneci Onghero Takagui ou simplesmente dona Tila, é catarinense; o pai Toshio Takagui é nissei paulistano. Em épocas diferentes trocaram seus estados de origem por Nobres, cidade no ponto equidistante de Cuiabá a Nova Mutum, e ali se casaram.
Em 1985 o casal Takagui deixou Nobres por Nova Mutum, onde nem a poeira nem a malária impediu que dona Tila e Toshio gerassem aquela que mais tarde seria a maior estrela do vôlei de Mato Grosso e uma das principais do Brasil. Quando a menina nasceu, não havia hospital em Nova Mutum, e a saída foi um hospital na cidade onde os pais se conheceram e se casaram.
A poeira cedeu lugar ao asfalto. A cidade ganhou qualidade de vida e o casal Takagui criou seus filhos em paz. Ana Tiemi alcançou a idade escolar e foi matriculada na Escola Municipal Carlos Drummond de Andrade, onde conheceu e se apaixonou pelo vôlei.
A mãe de Ana Tiemi continua em Nova Mutum com parte da família. Desde 2005 o pai, Toshio, é um rosto a mais na multidão dos dekasseguis no Japão que fizeram o caminho inverso de seus ancestrais, e igual a eles, em busca do sonho da realização profissional que tanto pode estar de um ou de outro lado do mundo.
Jogando pela Seleção de Vôlei de Nova Mutum o talento de Ana Tiemi despertou interesse no Colégio Afirmativo, em Cuiabá, que a levou para sua equipe. Daí os passos seguintes foram em direção a uma certa camiseta amarela respeitada no mundo inteiro.
Pela Seleção Brasileira Infanto-Juvenil, na Venezuela, faturou duas importantes conquistas: o sul-americano e o título de melhor levantadora. Sua trajetória a levou à Seleção Juvenil e à medalha de ouro no Mundial da Turquia.
Incorrigível ganhadora de medalhas e títulos. Ana Tiemi botou na galeria de suas conquistas o Grand Prix, disputado no Japão, que deu ao Brasil seu octacampeonato nessa competição.
Nova Mutum. Cuiabá. Mato Grosso. Minas Tênis. Osasco/Nestlé. Brasil, Turquia, França, pelas quadras mundo afora. O planeta é pequeno para Ana Tiemi, a musa morena nipo-brasileira que foi pedra angular na Seleção Brasileira de vôlei.
Cláudia Cardinali entre nós
Final de tarde da terça-feira, 11 de julho de 1978. Ênio Pipino percorre a pé um trecho da Avenida Marechal Rondon sentindo o cheiro gostoso da terra entremeada por raízes das árvores que tombaram. Está feliz. Naquele instante sua Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná (Sinop) acaba de concluir a abertura daquela e da Avenida Gaspar Dutra. De sua ousadia nascia na quinta etapa do projeto de colonização da Gleba Celeste, a vila de Cláudia, destinada a ser cidade em Mato Grosso.
Era o ciclo da colonização da Amazônia Mato-grossense no divisor das águas do Teles Pires e do Xingu, no eixo da BR-163 que pouco tempo antes foi inaugurada. Do Sul do Brasil, principalmente do Paraná, milhares de madeireiros, agricultores e comerciantes partiam em busca de dias melhores nos projetos de Ênio Pipino. Cláudia tornou-se importante polo madeireiro.
Os pioneiros de Cláudia foram os irmãos Raul – o Raul Banana – e Antônio Maldonado, que instalaram uma serraria no lugar e, André Schneider, que morreu em acidente rodoviário logo após sua mudança para aquela localidade. O primeiro farmacêutico foi o mineiro Aurélio Lino Teixeira, que chegou a vila em 5 de março de 1979 – data histórica –, pois naquele dia a professora Roseli Maldonado iniciava o ano letivo para um grupo de oito alunos, na sua residência.
Em 1º de setembro de 1986 o governador Wilmar Peres de Farias sancionou a lei de autoria dos deputados Osvaldo Sobrinho e Benedito Santiago transformando a vila de Cláudia em distrito de Sinop. O lugar não parava de crescer.
Em 4 de julho de 1988 o governador Carlos Bezerra botou o jamegão na lei de autoria do deputado José Lacerda, que emancipou Cláudia de Sinop, Itaúba e Marcelândia. A comarca de primeira entrância foi criada em 13 de abril de 2004 pelo governador Blairo Maggi após a Assembleia Legislativa aprovar projeto do Tribunal de Justiça nesse sentido.
Cláudia está interligada à malha rodoviária pavimentada nacional. Seu acesso à BR-163 é feito pela Rodovia André Maggi (MT-423). A cidade dista 80 quilômetros de Sinop.
É ela – Certa feita, em Cuiabá, citando que se tratava de registro histórico perguntei ao colonizador se Santa Carmem tinha algo a ver com Carmem Miranda, e ele negou qualquer ligação. Num sorriso à meia-boca comentou baixo: “Carmem (Carmem Ribeiro Pitombo) é nome de uma tia da dona Nilza (a mulher dele)”. Espichei pra Cláudia. É pela atriz? No primeiro momento ele não respondeu diretamente. Ajeitou os óculos, espichou a mão em despedida e foi enfático: “que mulher é essa Claudia Cardinale”.
Túnis, 15 de abril de 1938. Nasce Claude Josephine Rose Cardinale, filha de um casal siciliano. Morenaço. Boca carnuda. Bunda e dentes perfeitos. Seios grandes e empinados. Cabelo preto. Cinturinha fina. Rosto de traços suaves e firmes. Olhar envolvente. Com tantos atributos assim, essa ítalo-tunisiana virou musa, sex symbol, estrela de Hollywood adotando o nome artístico de Claudia Cardinale.
Pelas mãos, ousadia e os sonhos do colonizador Ênio Pipino, Claudia Cardinale está para sempre no Nortão. Pena que ela não saiba disso.
Um parto na mata – Divisor das águas dos rios Xingu e Teles Pires, 15 horas do sábado 11 de agosto de 1979. Na clareira aberta pelo colonizador Ênio Pipino para a implantação daquela que seria a cidade de Cláudia, nasce sem médico e sem parteira o primeiro bebê da região: Cláudia Neuza da Silva, filha do casal Maria Aparecida e Leonardo Ortolani.
Forte, dona Maria Aparecida se virou como pode com a ajuda da vizinhança. O nome Cláudia é agradecimento dos pais a cidade homônima que ajudaram a construir na Amazônia Mato-grossense.
Os Ortolani, pais de Cláudia, trocaram Diamante do Norte, no Paraná, pelo sonho da colonização da Amazônia. Não se arrependem do que fizeram nos anos 1970, quando deixaram uma região com boa infraestrutura e passaram a viver numa área caracterizada pelo isolamento, com alta incidência de malária e infestada por mosquitos.
Cláudia orgulha-se de sua cidadania. É personalidade em seu município e sempre ouve de pioneiros que nos primórdios da colonização corretores e moradores diziam aos interessados em imóveis na então vila, que ali nascera um bebê com o nome do lugar. “Essa citação mexia com o inconsciente daquelas pessoas e acho que contribuiu para que alguns mudassem para cá”, avalia Cláudia.
Casada com Nivaldo Ferreira da Silva e mãe de Eduarda, Henrique e João Vitor Ferreira da Silva, Cláudia vive na cidade onde nasceu e da qual herdou o nome.
Excelente leitura!