A emenda de Dante e as nossas emendas

EDUARDO GOMES
@andradeeduardogomes
eduardogomes.ega@gmail.com

 

O tempo passa /

 O tempo voa.

Ao ritmo do samba, com esta mensagem leve o Bamerindus nos dizia que sua caderneta de poupança continuava numa boa.

Bons tempos aqueles da propaganda do Bamerindus em 1984, ano que não ficou marcado por aquele comercial, mas pela emenda do mato-grossense Dante de Oliveira (PMDB), que pedia eleição direta para presidente. Isso mesmo. Em 25 de abril a Câmara rejeitou a propositura de Dante, mas o resultado oficial negativo não foi derrota, e ao contrário, virou um movimento nacional pelo retorno da normalidade constitucional, que passou pela eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral e a retumbante vitória de Fernando Collor nas urnas – votei em Ronaldo Caiado no primeiro turno e anulei no segundo.

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A emenda de Dante mostrou Mato Grosso dividido entre as benesses do poder e a liberdade. Com o autor votaram os deputados Gilson de Barros, Márcio Lacerda e Milton Figueiredo. A parte governista da bancada teve duas posturas: Maçao Tadano votou contra; Jonas Pinheiro, Lalau Cristino Cortes e Bento Porto fugiram do plenário numa manobra para esvaziá-lo.

Dante não nos deu a democracia, mas antecipou sua volta. Quem viveu aquele período sabe o quanto foi importante o fim do arbítrio. Transcorridos 42 anos digo obrigado Dante!

Década após década Mato Grosso protagoniza episódios de corrupção e seus corruptos sempre encontram meios para se manterem na impunidade – e até lançam raízes familiares para sua perpetuação no poder. Nesta terra de pouca lucidez no Congresso é preciso reconhecer a relevância da emenda de Dante e de buscar inspiração em seu texto, para que cada um de nós eleitor, no íntimo, seja autor de uma emenda, não para impedir a nomeação de general para a Presidência, mas para escolher bem os candidatos a todos os cargos em outubro.

Precisamos de nossas emendas para derrotarmos os corruptos e suas variações, nesta terra onde políticos perante a Justiça assumem mea culpa na roubalheira sem perder o sorriso diante o cidadão. Temos uma Imprensa acomodada, regida por uma amnésia que não tem origem em lesões, doenças degenerativas ou estresse, mas em vergonhosos faturamentos que colocam os interesses financeiros acima da capacidade que o jornalista tem para prestar serviço. Fugindo do rol desse jornalismo marrom é preciso lembrar que a roubalheira nos cofres públicos lesou Mato Grosso em bilhões. Quantas pessoas morreram por falta de um médico? De uma cirurgia? De um diagnóstico exato por meio de exames? Quantos acidentes ceifaram vidas por conta da má qualidade da pavimentação ou da falta dela ou ainda pelos acostamentos chamados manga curta? Quantos são vítimas da violência pelo crime que tenta manietar o Estado? Quantas indústrias poderiam estar gerando emprego em Mato Grosso transformando matéria-prima, mas sem segurança jurídica optam por outras regiões? Tudo isso e muito mais é o rescaldo mato-grossense dos larápios na Assembleia e no governo, que durante anos foram Senhores do Poder.

Portanto, que ninguém se iluda com sorrisos de candura, com defesa apaixonada das causas populares. Busquem no ontem o verdadeiro perfil de quem se beneficiou com a corrupção e agora finge não  conhecê-la.

Sejamos autores individuais de nossas emendas para que a democracia apregoada por Dante não seja covil da corrupção nesta terra da fila dos ossinhos, de milhares de famílias vivendo abaixo da linha da pobreza, de incontáveis barracos que são mantidos pelos programas de transferência de renda, da submoradia, do subemprego, da prostituição famélica na puberdade, de meninos sendo arrastados ao tráfico formiguinha, de tanta dor, sofrimento e desencanto. É muito bom o título de campeão do agronegócio que Mato Grosso exibe orgulhoso, mas melhor ainda será quando – sem prejuízo dessa conquista – acima de tudo sejamos uma terra onde corrupto não prospera e a Justiça prevaleça.

Que nossas emendas sejam escritas com o coração, a razão e a indignação de um povo que foi privado de educação de qualidade, por falta de escolas e professores, enquanto os filhotes dos corruptos eram mantidos em escolas e faculdades de primeiro mundo. Que saibamos ocupar o espaço democrático que Dante nos mostrou.

Obrigado Dante. Espero que nossas emendas estejam em breve ao lado da sua.

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