Grandes nomes políticos, que estiveram no poder até recentemente, e alguns que ainda o ocupam, não disputarão as eleições de outubro. As razões para tanto são as mais diversas. Vão de aposentadoria ao desencanto, passam por doenças e pelos desgastes sofridos em razão de corrupção que os arrastou para a prisão, e a isso soma-se ainda a perda de liderança, o que acontece pelo surgimento de lideranças. Assim, nas urnas não será possível encontrar ou reencontrar Blairo Maggi, Silval Barbosa, Emanuel Pinheiro, José Riva, Jayme Campos, Júlio Campos, Osvaldo Sobrinho, Percival Muniz, Priminho Riva, Eliene Lima, Humberto Bosaipo, Serys Slhessarenko, Roberto França, Pedro Henry, Ságuas Moraes, Thelma de Oliveira, Alencar Soares, Chico Daltro, Teté Bezerra, Louremberg Rocha, Márcio Lacerda, Nilton Borgato, João Malheiros, Jorge Yanai, Carlos Abicalil, Maria Izaura, Hélio Goulart, Chicão Bedin, Rogério Salles, Alexandre Cesar, Airton Português, Verinha Araújo, Gaspar Domingos Lazari, Carlos Brito, Érico Piana, Zeca D’Ávila, Hermes de Abreu, Joaquim Sucena, José Lacerda, Ademir Brunetto, Oscar Bezerra, Tonho de Menino Velho, Paulo Moura, Gilney Viana, Adalto Nogueira, Celcita Pinheiro, Zeca Viana, Rodrigues Palma, Beto Farias, Maria Lúcia Cavalli Neder, Adilton Sachetti e Enelinda Scala. A lista é maior, suprapartidária e abrange todas as regiões mato-grossenses. Ainda assim, dezenas de figuras que militam há década na política estão em cena correndo atrás da palavrinha mágica chamada voto.
Conscientemente ou não, os ausentes contribuem para a renovação da classe política, que sempre foi lenta – e não raramente acontece no âmbito familiar, pela costumeira prática da familiocracia. São muitos os que integram a relação dos fora das urnas. Para sintetizar, o texto focaliza os seis primeiros relacionados.
2003 – Blairo recebe de Rogério Salles a faixa de governador
Blairo – Blairo Borges Maggi é o maior líder político mato-grossense. Um dos principais empresários do agronegócio mundial, Blairo foi suplente do senador Jonas Pinheiro, governador por dois mandatos, senador e ministro da Agricultura do presidente Michel Temer. Blairo recebe convites para disputar o governo ou o Senado, mas não aceita. Decidiu exclusivamente cuidar de seus negócios pelo mundo. Mesmo fora dos palanques ele é fonte de consulta e tem ascendência sobre Mauro Mendes (UP), Otaviano Pivetta (Republicanos) e Cidinho dos Santos (UP). Blairo apoia Pivetta para novo mandato no governo. Blairo está fora da política e não tem herdeiros políticos.
Silval – Silval da Cunha Barbosa foi prefeito de Matupá e por duas vezes deputado estadual, presidiu a Assembleia e em 2006 foi vice-governador de Blairo Maggi. Em março de 2010 Blairo renunciou para disputar e vencer a eleição para o Senado e Silval o substituiu; em outubro de 2010 Silval venceu a disputa para o governo em primeiro turno.
No governo de Silval Mato Grosso recebeu grandes recursos para as obras que preparariam Cuiabá para a Copa do Mundo de 2014. Figuras do PMDB, o partido dele, e de outras siglas literalmente tomaram o governo de assalto. Cinésio Nunes foi secretário de Transportes, e sua secretaria foi um dos pivôs da corrupção; em outubro do ano passado, ele e um empresários foram condenados a devolver 6,8 milhões aos cofres do governo – Cinésio chegou ao cargo por indicação do senador Wellington Fagundes (PL), do qual é assessor. Foi um período amargo para o erário mato-grossense, tanto no governo quanto na Assembleia, onde o deputado José Riva chefiada os esquemas que surrupiaram muito os cofres do Legislativo.
Em delação premiada Silval reconheceu o desfalque, foi condenado, esteve preso e teve que devolver parte da dinheirama. Silval está fora da política e não tem sucessores políticos.
Emanuel Pinheiro – Emanuel, também chamado de Neneu, foi vereador e prefeito de Cuiabá por dois mandatos; e exerceu mandatos de deputado estadual. Neneu protagonizou um dos episódios mais deploráveis da política mato-grossense. A TV Globo exibiu em horário nobre alguns vídeos de deputados estaduais recebendo pacotes de dinheiro de Sílvio Corrêa, então chefe de gabinete do à época governador Silval Barbosa. Tanto Sílvio quanto Silval asseguraram em delação premiada que se tratava de pagamento de propina para que os deputados não vasculhassem a aplicação dos recursos no programa rodoviário Mato Grosso Integrado e as obras da Copa. Neneu estava entre os que foram filmados, e no momento em que recebeu seu pacote com cédulas, ele caiu do bolso de seu paletó, o que lhe rendeu o apelido de Paletó. Judicialmente Neneu provou inocência e não se fala mais naquilo.
Neneu está fora da disputa, mas seu filho Emanuelzinho é deputado federal pelo segundo mandato consecutivo e pré-candidato pelo PSD, em busca do terceiro. Márcia Pinheiro, mulher de Neneu, foi candidata a governadora em 2022, pelo PV e ficou em segundo lugar, com 16,2% dos votos – o pleito foi vencido em primeiro turno por Mauro Mendes (União).
Janaína Riva e seu pai José Riva
José Riva – José Geraldo Riva foi prefeito de Juara e por 20 anos controlou a Assembleia promovendo seguidos escândalos que resultaram em várias operações politiciais e do Ministério Público contra ele. José Riva foi preso algumas vezes e numa delação premiada assumiu que liderou um rombo de 175 milhões nos cofres públicos; foi condenado a quatro anos em prisão domilicar e a devolver 94 milhões.
Em 2014 José Riva era pré-candidato a deputado estadual, mas foi alcançado pela Lei Ficha Limpa e impedido de se candidatar. Naquele pleito ele lançou sua mulher, Janete Riva (PSD) para governadora e sua filha Janaína Riva (PSD) para deputada estadual. Janete ficou em terceiro lugar, com 9,92% dos votos e Pedro Taques (PDT) com 57% venceu em primeiro turno; Janaína Riva foi eleita com a segunda maior votação ao cargo, foi reeleita em 2018 e 2022, filiou-se ao MDB, o preside regionalmente e é pré-candidata ao Senado.
Em dezembro de 2014, no apagar das luzes de sua última legislatura, José Riva indicou Janete Riva para conselheira do Tribunal de Contas do Estado (TCE) na vaga aberta com a aposentadoria do conselheiro Humberto Bosaipo, que estava afastado do TCE por determinação do STJ. A indicação de Janete foi referendada por 15 deputados – cinco votaram em José Domingos Fraga – e quatro se ausentaram. A indicação foi duramente questionada e criticada pelo Ministério Público, OAB e entidades ligadas ao TCE. Resumo; Janete foi barrada, mas se fosse aceita José Riva teria Janaína Riva na Assembleia e Janete no TCE.
José Riva tem não apenas uma herdeira política, mas duas: Janaína Riva e sua irmã Jéssica Riva (MDB) que foi lançada para ocupar a cadeira ora de sua irmã na Assembleia. Jéssica tem berço e laços familiares políticos, pois foi nora de Silval Barbosa. Janaína Riva é nora de Wellington Fagundes.
Campos – Os irmãos Jayme e Júlio Campos exercem mandatos; Jayme é senador em segundo mandato, foi prefeito de Várzea Grande em três mandatos e governador. Júlio é vice-presidente da Assembleia, foi prefeito de Várzea Grande, governador, senador e três vezes deputado federal. Nenhum tem herdeiro político.
No dia 30, Jayme disputou a convenção do União Brasil tentando ser o nome da federação formada por aquele partido e o PP ao governo, mas foi rejeitado. Pouco antes da votação, Júlio disse que se eles perdessem a eleição voltariam para casa, porque os seus correligionários não os queriam; ao longo de meses em busca da indicação para candidato Jayme por reiteradas vezes deixou claro que se não fosse aprovado voltaria para casa “e acabou”.
Resumo: Salvo alguma recaída ou substituição de última hora de candidatura, o cenário é este.