Boa Midia

A fome de quem já tem tudo

Caroline Rodrigues*

CUIABÁ

Para muito além do canibalismo, o livro Jantar Secreto, de Raphael Montes, fala sobre questões que doem na carne: a hierarquização das vidas humanas e a desumanização daqueles cuja existência parece não ter valor fora das relações de consumo. Eu sei que, para alguns, isso parece conversa de maluco, cheia de palavras difíceis e sem consistência. Porém, tudo isso está presente em nossas vidas desde que nascemos.

Para compreender essa construção que transcende a narrativa, precisamos começar pelo começo: a história do livro. Na ficção, um grupo de quatro amigos organiza um jantar secreto para pessoas dispostas a pagar muito por uma iguaria: a carne humana.

Não vou me aprofundar na história porque spoiler é algo desagradável. Contudo, quero discutir o que atravessa essa narrativa ficcional, começando por quem são as presas e quem são os comensais da morte.

Na primeira categoria, temos pessoas sem vínculos familiares conhecidos, abandonadas em hospitais ou em situação de rua. Indivíduos que, por sua condição de vulnerabilidade, passam a ser tratados como um estorvo social, como se suas vidas tivessem menos valor. Sendo assim, podem ter sua carne usada para atender à curiosidade de quem tem mais dinheiro.

Essa divisão entre vidas consideradas mais ou menos valiosas encontra correspondência em estruturas históricas de hierarquização social. Em Castas: As origens de nosso mal-estar, Isabel Wilkerson investiga esses mecanismos ao comparar o sistema de castas indiano com a hierarquia racial norte-americana.

Um movimento que podemos fazer em nossa realidade ao observarmos os seguintes pilares utilizados por Wilkerson: a hereditariedade, a hierarquia ocupacional e a desumanização.

Após identificarmos quem, no contexto do livro, é colocado como alvo da desumanização, vamos analisar os que se julgam no direito de servir-se da carne humana. Posso dizer aqui: servir-se não só da carne humana do jantar, mas de toda aquela que perambula pelo mundo e está em posição inferior.

No caso do livro, temos a construção de personagens que não só figuram na lista de celebridades do nosso mundo, como também se tornaram comuns nos estereótipos naturalizados pela riqueza. Uma das comensais é uma advogada criminalista reconhecida que, apesar de sua formação intelectual e jurídica, participa de uma experiência marcada pela violação extrema dos direitos humanos. Uma contradição que evidencia a distância entre conhecimento, prestígio profissional e comportamento ético.

Também está sentado à mesa um ex-playboy que hoje é idoso, mas se mantém mimado e sem limites. Conforme a história, teve uma vida marcada por escândalos, entre eles o atropelamento e a morte de um trabalhador. Os outros são ricos que não sabem como gastar o dinheiro e sentem prazer em exaltar as extravagâncias, bem como políticos corruptos e empresários com atividades duvidosas.

Todos esses perfis aparecem constantemente nas páginas dos jornais e, com quase nenhum esforço, poderíamos citar nomes. Quem sabe até mais de um para cada perfil. São pessoas que fazem parte das nossas elites e que, talvez por ocuparem esse lugar de privilégio, se sintam no direito de consumir, não metaforicamente, a carne humana.

Entre comensais e jantar, é interessante observarmos como as construções sociais vão desumanizando alguns grupos, tornando-os passíveis de ser o jantar. Com uma vida que vale tanto quanto, ou até menos que, a de uma galinha ou de um porco.

*Caroline Rodrigues é jornalista há mais de 20 anos, mestre em Comunicação, escreve sobre temas diversos, fala de tudo e se especializou em muitos nadas

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