Boa Midia

BR-163 – O ouro atravessa o caminho (VI)

EDUARDO GOMES

@andradeeduardogomes

eduardogomes.ega@gmail.com

 

Ao ouro

O ouro quase desmontou as atividades agropecuárias e madeireiras no Nortão durante um ciclo entre 1978 e 1995, marcado por muita violência, ausência do Estado, hiperendemia de malária e um fluxo migratório que se deslocava de um garimpo para outro na medida em que alguém bamburrava. Este é um dos capítulos da série sobre os 50 anos da inauguração da BR-163, que aconteceu em 20 de outubro de 1976.

 

Transporte de toras em Peixoto de Azevedo
Todos juntos

O Nortão era o sonho de consumo dos que buscavam um lugar ao sol. Levas e levas deixavam o Paraná e outros estados rumo àquela região, que era apresentada ao Brasil como verdadeiro Eldorado. Propagandas institucionais do governo militar e das colonizadoras viraram a cabeça de agropecuaristas, comerciantes e profissionais liberais. A rodovia BR-163 era o caminho natural para todos. Na multidão que chegava, ninguém ou quase ninguém pensava em garimpo de ouro. Porém, logo após a inauguração da rodovia, aconteceu a descoberta do ouro em Peixoto de Azevedo. Foi um Deus nos acuda. A notícia chegou aos garimpos de ouro no Pará e se espalhou pelo país. Garimpeiros de todos os cantos foram chegando e em pouco tempo formavam a maioria dos moradores em Peixoto, Matupá, Terra Nova do Norte, Alta Floresta, Paranaíta, Apiacás, Nova Monte Verde, Itaúba, Colíder, Nova Guarita e em outras cidades da região.

Matupá – Enfermaria para vítimas da malária

 

Com o ouro, o modelo econômico previsto para o Nortão, assentado sobre a agricultura, pecuária e a extração madeireira sofreu um baque. Não havia mão de obra disponível para as fazendas e o setor florestal. O ouro fazia fortuna do dia para a noite. Virou febre.

Da explosão do garimpo, – fofoca, como se diz no jargão garimpeiro – ao êxodo. Da riqueza fácil ao caos que a deixou a um passo de ser uma cidade fantasma. Foi assim com Peixoto Azevedo, que viveu o Ciclo do Ouro no Nortão e que é a referência urbana daquele curto período marcado por assassinatos, malária, balanças de precisão em muitas portas abertas na Rua do Comércio, de intensa movimentação de mono e bimotores, camionetes de frete transportando doentes e sonhadores, ônibus despejando levas de aventureiros. Em suma, no auge da opulência e quando o declínio começou Peixoto era um fuzuê danado, onde a verdadeira moeda circulante era o grama do metal mais cobiçado no mundo inteiro.

Rua do Comércio em Peixoto de Azevedo no Ciclo do Ouro

O grama cotava o sexo nos incontáveis cabarés e era parâmetro para compra de ingressos aos shows no Clube Maranhense, com Amado Batista, Waldick Soriano, Walter Basso, Gretchen – a Rainha do Bumbum -, Pedro Bento & Zé da Estrada. Também era ele que garantia nas farmácias a salvadora dose de quinino para espantar a febre quando o Hospital da Malária da Irmã Adelis, na vizinha Matupá, estava superlotado

Riquezas arrancadas da terra e do leito dos rios da noite para o dia. Assim era Peixoto, uma cidade onde a imaginária linha que separa a extrema pobreza, da riqueza, não passava de um punhado de metal amarelo que cabia na palma da mão. A cidade de garimpeiros que trabalhavam do nascer ao por do sol, era a mesma onde eles se esbaldavam à noite nas orgias, de crimes e impunidade. Aquele período não existe mais. Cedeu lugar a uma nova era, de comércio solidificado, de agricultura e pecuária com sinais de vitalidade, de extração mineral organizada e ambientalmente correta.

O Ciclo do Ouro se estendeu de 1978 ao começo de 1995. A política mineral do presidente Collor de Mello e até mesmo a escassez do metal para extração manual pelos garimpeiros decretaram o fim daquele período. Em 1995 no auge da movimentação a população chegou a 47.009 habitantes e 10 anos depois despencou para 19.224, com casas vazias, lojas fechadas, a cidade ganhou ar fantasmagórico. Tentando apagar aquela época, Peixoto ganha ares de cidade moderna. A aventura se foi. Ficou a realidade peixotense. O município, com 14.257,800 km² na divisa com o Pará, tem 33.907 residentes e sua densidade demográfica é de 2,16 habitantes por quilômetro quadrado.

 

Ouro sim, guaraná e café, não

 

Picadeiros, tratoristas, topógrafos, motoristas e os demais profissionais que trabalhavam para Ariosto da Riva, dono da Integração, Desenvolvimento e Colonização (Indeco), tiveram duas razões para comemoração com o chefe, em 29 de julho de 1979: o Dia de São Pedro e a fundação da vila de Paranaíta, que Ariosto planejou para centro urbano de um polo produtor de café e guaraná no seu ambicioso projeto de colonização que resultou na fundação de Alta Floresta, Paranaíta e Apiacás.

Ariosto quase sempre acertava. Mas na aposta sobre o tal polo deu com os burros n’água, porque no nascedouro a povoação perderia a identidade que lhe estava reservada. A razão é simples: a descoberta de ouro na região. Garimpeiros maranhenses, paraenses e não se sabe mais de onde invadiram as terras, reviraram o subsolo e mudaram cursos das águas em busca do metal mais cobiçado do mundo.

Potenciais compradores de terra recusavam as ofertas tentadoras de Ariosto. Os agricultores e pecuaristas que se mudaram para o lugar entraram em polvorosa. Tudo em Paranaíta era comprado e pago com grama de ouro. Na Boate Sombra da Mata e na concorrência a mulherada fazia festa madrugada adentro e garimpeiros lavavam o chão com cerveja. Malária. Assassinatos. Congestionamentos aéreos. Dinheirama correndo solta. Era um fuzuê nos garimpos, dentre os quais o Zé da Onça.  A vila, perdida num canto do imenso município de Aripuanã, divisa com o Pará, não tinha lei.

Garimpo Zé da Onça

Em Cuiabá, na cúpula da Polícia Militar, coronéis brigavam longe da população civil para nomearem subordinados de sua confiança para a região. Era voz corrente que a PM fazia segurança nos garimpos à base de uma moderna derrama parecida com aquela dos idos da Inconfidência Mineira, com o pequeno detalhe que a entre aspas receita não chegava aos cofres do Estado.

Em meados da década de 1990 o ouro murchou, ficou difícil de ser garimpado e o presidente Fernando Collor complicou ainda mais as coisas com uma política nociva ao garimpo. Paranaíta entrou em declínio e o êxodo botou fim às vilas que lhe pertenciam.

Em 1995, com a garimpagem desativada, a população remanescente era de 15.255 residentes. Transcorridos 31 anos o número de moradores é de 12.167.

Taca – José Maria Pereira Luz é nome estranho em Paranaíta. Porém, se alguém se referir ao Goiano, a cidade em peso sabe quem é. Pioneiro no lugar e ex-picadeiro da Indeco, Goiano trocou de profissão em 1981 e tornou-se garimpeiro de ouro. Malhou em ferro frio. Foi vítima da Taca na Paranaíta que não tinha juiz, promotor nem delegado. Apanhou e foi levado na carroceria de um caminhão caçamba para Alta Floresta por jagunços armados que retiravam garimpeiros das áreas reservadas pela Indeco para venda a agricultores.

Nome mais apropriado impossível: Taca é uma espécie de chicote e esse instrumento de tortura era usado pela jagunçada que expulsava garimpeiros na região de Alta Floresta, quando dos primórdios de sua colonização, para abrir caminho à venda de lotes rurais.

Em 2001, transcorridos 20 anos da Taca, ouvi o empresário Vicente da Riva, filho e sucessor de Ariosto da Riva dono da Indeco, que negou envolvimento do pai já falecido e da empresa com a Taca.

Goiano continua em Paranaíta com as marcas psicológicas da Taca, agressão que não tem paternidade. Filho feio não tem pai.

Referência urbana

1979 – Alta Floresta

Calha do rio Teles Pires, município de Aripuanã, quarta-feira 19 de maio de 1976. Ao contrário do Brasil que está em ebulição pelas eleições municipais em novembro, naquele local o assunto era um só: a inauguração de Alta Floresta. Pela manhã, Ariosto era a imagem do contentamento acompanhando os tratores arrancando as derradeiras raízes das ruas sem casas, escolas e lojas laterais. À tarde o colonizador Ariosto da Riva estava ainda mais feliz entregando ao Brasil e às gerações futuras um projeto que transformava o vazio amazônico no embrião de uma cidade sonhada para ser moderna. Digo mais: para ser a imagem de seu construtor.

O dia da fundação é a data oficial de Alta Floresta, mas sua emancipação de Aripuanã aconteceu em 18 de dezembro de 1979 com a aprovação de um projerto de lei do deputado Osvaldo Sobrinho sancionado pelo governador Frederico Campos criando o município.

Alta Floresta foi a referência urbana para a colonização dos municípios em seu entorno. No auge do garimpo seu aeroporto foi o mais movimentado do Brasil em pousos e decolagens da aviação executiva. Sua pista pavimentada mede 2.500 metros e figura entre as principais do país. Daquela cidade Ariosto comandava a criação de Apiacás e Paranaíta.

As ruas desertas quando da inauguração da cidade mais tarde viveram o boom populacional com o garimpo. Em 1995, quando a atividade entrou em declínio, havia 79.591 moradores. Transcorridos 21 anos, esse número caiu para 50.082*, registrando queda de 37,08% no período. Esse enxugamento humano somente não é maior porque o êxodo foi estancado e nos últimos anos houve a retomada do crescimento.  Fé e trabalho nunca faltaram a Alta Floresta; é nesse binômio que se retoma o crescimento e sua população alcança 63.077 residentes. Dentre os líderes religiosos que elevaram e elevam as mãos aos céus pela cidade, o pastor baiano Agenor José dos Santos, que aos 77 anos, em 2 de junho de 2016 se juntou ao coro dos justos que ora nos céus.

No auge do garimpo havia um frenesi de pequenos aviões no aeroporto da cidade e, na Boate Saramandaia, mais de 300 mulheres faziam a alegria dos garimpeiros noite adentro sem hora para o sexo e a bebedeira acabar. O pagamento quase sempre era feito em pepitas; dinheiro era raro naquela casa, onde a verdadeira moeda circulante atendia pelo nome de ouro.

 

Último pouso – Para sempre no solo independentemente que o céu seja não de brigadeiro. Não voa mais! O bimotor que prestou grande serviço ao Nortão aterrissou para sempre em Alta Floresta, que tanto ajudou a crescer. Agora, o bom Douglas DC-3 em sua versão cargueiro C-47 de prefixo PT-KVA é patrimônio cultural sobre um pedestal para encher de beleza os olhos dos turistas e marejar o olhar de seus passageiros nos tempos da loucura do garimpo de ouro no Nortão.

Os gêmeos Wilson Clever Lima e William José Lima, seus donos e seus comandantes, que na proeza de seus pousos e decolagens em situações climáticas muitas vezes adversas em arremedos de improvisadas pistas ganharam o apelido de Irmãos Metralha, tiraram as mãos do manche e guardaram seus brevês. Nos anos 1980 cruzando os céus do município sobre o rio Teles Pires e suas matas o imponente C-47 carregou muito ouro, mas seu transporte mais precioso sempre foi o povo de Alta Floresta.

Os Irmãos Metralha doaram a famosa aeronave ao povo de Alta Floresta e agora ela atesta a magia do Ciclo do Ouro, quando praticamente não havia estradas na região e o transporte aéreo era o pulmão que bombeava ar ao coração econômico e social da cidade, nas famosas pistas de garimpo e por onde mais se possa imaginar.

Os gêmeos Wilson Clever Lima e William José Lima, seus donos e  comandantes, que na proeza de seus pousos e decolagens em situações climáticas muitas vezes adversas em arremedos de improvisadas pistas ganharam o apelido de Irmãos Metralha, tiraram as mãos do manche e guardaram seus brevês. Nos anos 1980 cruzando os céus do município sobre o rio Teles Pires e suas matas o imponente C-47 carregou muito ouro, mas seu transporte mais precioso sempre foi o povo de Alta Floresta.

Os Irmãos Metralha doaram a famosa aeronave ao povo de Alta Floresta, numa articulação do Ministério Público Estadual, e agora ela atesta a magia do Ciclo do Ouro, quando praticamente não havia estradas na região e o transporte aéreo era o pulmão que bombeava ar ao coração econômico e social da cidade, nas famosas pistas de garimpo e por onde mais se possa imaginar.

 

William agora não mais vê do alto a cidade. Reconhecido por muitos, caminha pelas ruas entre os moradores do município, onde presidiu o sindicato rural; é um entre seus 5,48 habitantes por quilômetro quadrado. Seu irmão Wilson parou de voar na segunda-feira 28 de abril de 2014 quando em Araçatuba (SP) fechou os olhos para sempre, vítima das sequelas de um aneurisma. Naquela data o comandante Wilson Metralha decolou para o céu, de onde namora Alta Floresta – uma de suas grandes paixões. À noite, se transforma na mais brilhante estrela sobre a cidade que Ariosto  colonizou com sua empresa  a Indeco, façanha essa que lhe rendeu o reconhecimento do jornalista, escritor e compositor David Nasser que o chamou de “O Último Bandeirante”.

Às origens

 

Colheita em Sorriso

O Nortão permanece explorando o ouro, mas pela mineração empresarial. Com o fim do garimpo a região retomou suas origens econômicas e responde por parcela considerável da produção agrícola e pecuária, da agroindústria e das commodities que são itens na pauta das exportações.

A região aguarda pela chegada da matriz de transporte ferroviário pela ferrovia da Rumo Logística, que ligará Lucas do Rio Verde e Nova Mutum ao porto de Santos, via Dom Aquino, Rondonópolis, Itiquira, Alto Araguaia, Alto Taquari e Mato Grosso do Sul; e com paciência acompanha o projeto para a construção da Ferrogrão, que ligará Sinop ao porto de Miritituba, no rio Tapajós, em Itaituba (PA), e que sofre entraves ambientais e pressão do Ministério Público Federal juntamente com a Funai e organizações ambientalistas internacionais.

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