Boa Midia

BR-163 – Povoou e criou relação entre o homem e a natureza (III)

EDUARDO GOMES

@andradeeduardogomes

eduardogomes.ega@gmail.com

A construção da BR-163 facilitou a criação de cidades no Nortão, e dentre elas, Santa Rita do Trivelato, que não fica à margem daquela rodovia, mas em seu eixo de influência. Nesta série sobre os 50 anos da inauguração da BR-163, que aconteceu em 20 de outubro de 1976, o blog vai além do corredor rodoviário que uniu Mato Grosso ao Pará – de modo especial Cuiabá a Santarém –  e focaliza personagens do dia a dia, que contribuíram e contribuem para o desenvolvimento e o crescimento do Brasil – neste contexto a narrativa passeia por uma ave que povoa mentes e permanece como saudade no coração dos que a viram sobre os céus do rio Teles Pires e nos ombros de moradores de Santa Rita do Trivelato.

Imponente. Absoluta. Linda. Livre, totalmente livre. Senhora dos ares e dengo na terra. Mancho (pronuncia-se mantcho) era uma arara singular. Exuberante no vermelho predominante em sua plumagem pontilhada pelo verde e azul. Não se deixava urbanizar embora vivesse numa vila agitada pelo vaivém dos carros e tratores agrícolas. De vez em quando batia asas, sumia do seu dono em longas e demoradas revoadas em bandos. Assim como ia, voltava.

Chuva, muita chuva. Estrada com atoleiros. Chego à Santa Rita no final do ano de 1996. O compromisso é a cobertura de um mutirão rural do Sistema Famato (da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso). Porém, ao entrar na vila tiro de pensamento a razão da minha viagem. Sou recebido por Mantcho, que num quá-quá-quá-quá de algazarra sobrevoa meu Gol. Depois dessa apresentação a ave posiciona-se sobre o carro como se fosse um guardião aéreo me escoltando sem adiantar nem atrasar. Faz um voo sincronizado com o carro. Acho aquilo fenomenal.

Cheguei ao local do Mutirão e fui apresentado a Edgar Matschinske, o dono de Mancho. Edgar era apaixonado por sua ave, que seu filho Adilson Matschinske encontrou filhotinho num ninho caído nas matas do rio Teles Pires e o levou para casa.

Com carinho Edgar criou Mancho sem jamais botá-lo na gaiola ou cortar suas asas. A paixão era recíproca – isso posso atestar – pois alguns minutos após o início da nossa conversa a ave entrou no recinto, localizou seu protetor, pousou em seu ombro e em silêncio ofereceu a cabeça pedindo um cafuné.

Edgar e Mancho não estão mais entre nós. Ele tombou cheio de vitalidade durante uma partida de futebol, vítima de um infarto traiçoeiro e fulminante. Mancho fechou os olhos para sempre quando um trator o esmagou.

Ilson Matschinske, irmão de Edgar, era vereador por Nova Mutum, município ao qual a vila de Santa Rita pertencia, e tratou de batizar a via principal do lugar de Rua da Arara. Depois, com a emancipação, Ilson foi eleito o primeiro prefeito e se reelegeu. Ilson, também não está mais entre nós: ele, Edgar e Mancho voltaram ao Criador.

PS – Trecho do capítulo dedicado a Santa Rita do Trivelato no livro (foto) que publiquei em 2016 sem apoio das leis de incentivos culturais,.

A obra reverencia os 46 anos da rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163) e o Nortão, a região que ela incorporou a Mato Grosso e que tornou-se um dos sustentáculos da política de segurança alimentar mundial com as lavouras em Sorriso, Marcelândia, Cláudia, Sinop, Nova Santa Helena, Itaúba, Terra Nova do Norte, Peixoto de Azevedo, Matupá, Guarantã do Norte, Novo Mundo, União do Sul, Feliz Natal, Vera, Santa Carmem, Nova Ubiratã, Santa Rita do Trivelato, Boa Esperança do Norte, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Ipiranga do Norte, Itanhangá, Tapurah, Tabaporã, Porto dos Gaúchos, Novo Horizonte do Norte, Juara, Apiacás, Paranaíta, Nova Monte Verde, Nova Bandeirantes, Colíder, Carlinda, Alta Floresta, Nova Guarita e Nova Canaã do Norte.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.

8 − seis =

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você está bem com isso, mas você pode optar por sair, se desejar. Aceitar Leia Mais

Política de privacidade e cookies