Se as pessoas estão evitando notícias, por que a imprensa ainda importa?
Francine Ferreira*
CRICIÚMA
Não necessariamente acompanhar cada manchete ou passar o dia consumindo atualizações, mas entender o que acontece ao redor continua sendo parte importante de como tomamos decisões e formamos nossa percepção sobre empresas, setores, economia e sociedade.
O problema é que o movimento recente aponta na direção contrária. O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, mostra que o interesse por notícias vem caindo e que 42% das pessoas pesquisadas dizem evitar o noticiário algumas vezes ou frequentemente. No Brasil, esse percentual chega a 47%.
Seria fácil olhar para esses números e concluir que a imprensa está perdendo relevância. Mas essa leitura desconsidera uma mudança importante no modo como a informação circula. As pessoas podem acessar menos diretamente jornais, portais e telejornais e, ainda assim, continuar sendo impactadas pelo conteúdo produzido por eles.
Uma reportagem repercute nas redes sociais, vira assunto em vídeos, aparece em mecanismos de busca, abastece análises e passa a fazer parte do conjunto de referências disponível na internet. O jornalismo deixa, portanto, de ser apenas o lugar onde a informação é consumida para ocupar também uma posição menos visível: a de fonte que sustenta parte do ecossistema informacional.
O caminho até a informação mudou
Os próprios hábitos de acesso às notícias mostram essa transformação. Segundo o Reuters Institute, redes sociais e plataformas de vídeo já superam sites e aplicativos jornalísticos como porta de entrada para o noticiário em muitos mercados. Isso não significa, porém, que toda a informação encontrada nesses ambientes tenha surgido ali.
Muitas vezes, o conteúdo original foi apurado por jornalistas e depois resumido, comentado, reinterpretado ou redistribuído por terceiros. O ponto de contato com o público mudou, mas a necessidade de uma fonte primária confiável não desapareceu.
Os mecanismos de busca tornam essa mudança ainda mais evidente. Pesquisa do Pew Research Center mostrou que usuários do Google tendem a clicar menos nos resultados tradicionais quando recebem uma resposta gerada por inteligência artificial diretamente na página de busca. Ou seja, cada vez mais, a pessoa pode receber uma síntese sem acessar a página que ajudou a produzir aquela informação.
Com as inteligências artificiais generativas, essa lógica ganha outra dimensão. O Digital News Report 2026 indica que 10% dos entrevistados globalmente já utilizam chatbots para acessar notícias; no Brasil, o índice chega a 13%. Entre esses usuários, estão pessoas que pedem resumos, explicações, contexto ou fazem perguntas adicionais sobre temas do noticiário.
A experiência muda: ao invés de abrir várias reportagens para compreender um assunto, o usuário pergunta diretamente à ferramenta. Mas a qualidade da resposta continua dependendo da qualidade das informações disponíveis.
O valor do que fica publicado
É por isso que discutir a relevância da imprensa apenas a partir do número de leitores diretos é insuficiente. O jornalismo continua produzindo registros públicos, contextualizando fatos, entrevistando fontes, organizando dados e criando referências que permanecem disponíveis muito depois da publicação original.
Em um ambiente dominado por buscas, plataformas e IA, esse acervo de informação passa a ter uma importância diferente.
Para empresas e lideranças, isso também muda a lógica da reputação. Durante muito tempo, aparecer na imprensa era visto principalmente como uma forma de alcançar público. Hoje, existe uma segunda camada igualmente importante: aquilo que fica registrado sobre a organização. Quando alguém pesquisa uma empresa, compara referências do setor ou pergunta a uma inteligência artificial sobre determinado mercado, o histórico público disponível ajuda a construir essa percepção.

Não necessariamente acompanhar cada manchete ou passar o dia consumindo atualizações, mas entender o que acontece ao redor continua sendo parte importante de como tomamos decisões e formamos nossa percepção sobre empresas, setores, economia e sociedade.