O abandonado Mundo chamado Cáceres

O blog inicia a postagem de textos temáticos mostrando as regiões de Mato Grosso, como elas são, sem rodeio, para que o eleitor compare a realidade com o ilusionismo cinematográfico feito por mulheres e homens da política nas redes sociais tentando enganar a população, como se fossem salvadores da pátria. A região de agora é definida como sendo o Mundo chamado Cáceres, tem um potencial imensurável, mas está abandonada pela classe política em todas as esferas. Leiam, compartilhem, comentem e, sobretudo, saibam que há muitos discursos dourados, rostinhos angelicais e macacos velhos tentando a mágica do gato por lebre sobre a bicentenária Terra de Albuquerque, onde seu povo tem tanta identificação com o rio Paraguai, que chama de Meu peixe aquele a quem quer bem.
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
eduardogomes.ega@gmail.com

Mato Grosso é o conjunto de bolsões de riqueza e miséria. O campeão do agronegócio e de cidades bonitas é o mesmo Estado da pobreza crônica que mantém 1.076.500 cidadãos abaixo da linha da pobreza, o que corresponde a mais de 27% da população de 3.893.659 habitantes conforme mostra o CadÚnico, a ferramenta que filtra o acesso ao benefício do Bolsa Família concedido a família com renda per capita mensal de, no máximo 218 reais. O modelo econômico é concentrador de renda e historicamente a administração estadual é direcionada aos primos ricos deixando migalhas aos pequenos municípios e a alguns dos grandes. Nenhuma pré-candidatura majoritária tem foco nesse desnível social e as pré-candidaturas proporcionais não conseguem enxergar essa realidade. Somente com políticas públicas e firmeza será possível mudar o cenário que vitimiza a maioria dos 142 municípios. Cáceres é vítima dessa realidade e permanece estagnada. Vocação econômica não falta a nenhuma cidade no polo cacerense e todas têm potencial de crescimento. Competência é o que não há nos meios políticos, salvo as exceções de praxe. Como está, a Terra de Rondon terá municípios cada vez mais ricos e municípios cada vez mais pobres, independentemente do que aconteça com a reforma tributária em implantação. O abandono de Cáceres e seu polo de influência na fronteira com a Bolívia, conhecido internacionalmente pela beleza do Pantanal, é injustificável e mantém fora do processo desenvolvimentista uma população de 303.449 habitantes residentes em 20 municípios do Mundo chamado Cáceres.
Em suma, Cáceres não trata esgoto, não tem indústrias, a saúde pública é precária, não há plano para solucionar esse cenário de terra arrasada e os pré-candidatos sequer tocam nessa amarga realidade.
Cáceres a bicentenária em crise

Fundada em 1778 à margem esquerda do rio Paraguai na região pantaneira fronteiriça com a Bolívia, Cáceres é um caos social, por mais que sua apaixonada população tente esconder essa realidade.
Município do tamanho de Israel, com 91.767 habitantes, Cáceres tem 6.675 famílias com 20.865 integrantes recebendo o Bolsa Família, com benefício médio de 699,52 reais, o que resulta na injeção de 4.669.301 reais na economia cacerense neste mês de maio. Ou seja, 22,74% dos cacerenses sobrevivem com o Bolsa Família. A esse rendimento soma-se o programa estadual de transferência de renda SER Família, em números bem acanhados.
O parque industrial cacerense é quase zero. Os empregos são garantidos pelo Estado em todas as suas esferas, comércio, construção civil e prestação de serviços. A Zona de Processamento de Exportação (ZPE) Engenheiro Adilson Domingos dos Reis, criada em 7 de março de 1990 pelo então presidente José Sarney a pedido do à época senador Márcio Lacerda – político cacerense – foi inaugurada no final do ano passado pelo ex-governador Mauro Mendes, mas permanece elefante branco. Não há nenhuma política pública específica para abrir postos de trabalho em Cáceres. A movimentação econômica local é ancorada por um rebanho bovino que gira em torno de 1 milhão de cabeças de mamando a caducando, mas essa atividade gera poucos empregos.
Cáceres precisa impulsionar a ZPE para receber plantas industriais que transformam matéria-prima do agronegócio. Num raio de 350 km é grande a produção do agronegócio; essa área inclui Jauru, Pontes e Lacerda, Araputanga, Barra do Bugres, Porto Estrela, Salto do Céu, Mirassol D’Oeste, Vila Bela da Santíssima Trindade e outros municípios dentro e fora de seu polo de influência.
O esmagamento de soja, descaroçamento de algodão, fiação, fabricação de farinha de milho, transformação mineral e outros itens podem ser implementados, inclusive com a criação de um polo sidero-metalúrgico na ZPE. Há uma grande diversificação mineral de manganês e minério de ferro de alto teor, em Mirassol; de zinco, no Morro Sem Boné, em Comodoro; de cobre, chumbo e zinco, que são minerais metálicos não-ferrosos, em Rio Branco, Lambari D’Oeste e Salto do Céu; e de ouro em Vila Bela, Pontes e Lacerda, Nova Lacerda e Conquista D’Oeste. Porém, o governo não consegue enxergar Cáceres. A estatal Metamat, que em tese atua na área mineral – muito embora a tutela do subsolo seja da União – permanece sob constantes escândalos, como o recente caso da perfuração fantasma de poços artesianos, prontamente abafado – e sendo cabide de empregos para parentes de deputados. Se a mineração fosse incrementada o cenário mudaria por completo em Salto do Céu, que por falta de empregos e renda depende de programas sociais e busca serviços públicos em Cáceres, distante 135 km. O vácuo do Estado e a falta de empregos leva os municípios da região às portas de Cáceres, que assim, é referência para uma população externa de 211.682 moradores nos municípios da região. Observem: Cáceres com 91.767 habitantes é o referencial para 303.449 cidadãos, o que dificulta sua administração, fato esse que se agrava pela omissão dos governos federal e estadual.
O funcionamento da ZPE, a navegação pela Hidrovia Paraná-Paraguai, que liga Cáceres a Nueva Palmira, â margem do rio da Plata, em sua foz no Atlântico, é um corredor de corrente livre com 3.442 km que une Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai; esse canal de escoamento e de recebimento de produtos; e a consolidação do Corredor Bioceânico Atlântico-Pacífico, por Vila Bela, Santa Cruz de la Sierra, Cochabamba e La Paz até os portos chilenos no Pacífico podem mudar o perfil econômico cacerense – e por extensão da região – e facilitar o desenvolvimento, mas para tanto ele precisa de pavimentação de ambos os lados da fronteira.
Porém, se não houver a ativação da ZPE e industrialização, não se pode pensar no crescimento de Cáceres no patamar de outros municípios mato-grossenses. Mas, para operar indústrias será preciso que se instale um city gate no Gasoduto Bolívia-Mato Grosso, que entra no Brasil pelo município de Cáceres; o gás natural boliviano será imprescindível para dar competitividade às fábricas que se instalarem em Cáceres, e o gás natural veicular, para mover parte da frota da região, com ganho também ambiental. Sem isso, a cidade permanecerá com o título de campeã da pecuária, de polo universitário graças a Unemat, mas sem criar receita para assegurar qualidade de vida à população e forçando jovens ao turismo CLT em Cuiabá e outros centros.
O processo de industrialização não pode ser pensado somente com os olhos voltados para a exportação, uma vez que os países que importam commodities agrícolas jamais comprarão o produto elaborado, pois in natura ele gera empregos para os seus, mas há mercado vocacionado para bens em Mato Grosso, Rondônia, Acre, Amazonas e Roraima, e na área fronteiriça boliviana.
A região de Cáceres tem grandes plantas frigoríficas bovinas em Araputanga e Mirassol; usinas de etanol em Lambari D’Oeste e Mirassol; e produção de lácteos pela Coopnoroeste em Araputanga. O mosaico fundiário da região é caracterizado por pequenas áreas territoriais dos municípios, ou seja, um industrializa a matéria-prima produzida no outro. A ZPE pode se tornar o elo para fortalecer o regionalismo comercial na fronteira e despertar o interesse para a criação de uma indústria calçadista, com mercado garantido no Brasil e amplas possibilidades de exportação, inclusive para a vizinha Bolívia.
O Mundo chamado Cáceres é interligado ao sistema nacional de energia, e melhor ainda é que na região pequenas centrais hidelétricas geram energia nos rios Jauru, Margarida, Galera, Guaporé e outros.
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Enganação

Cáceres não tem assento no Congresso e na Assembleia Legislativa, portanto, fica atada quanto às suas demandas, mas mesmo órfã politicamente a cidade foi sacudida em junho de 2024 com uma promessa bilionária do presidente Lula sobre investimentos em infraestrutura, que não virou em nada.
Em Cáceres, os ministros da Agricultura, Carlos Fávaro; do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet; e da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, apresentaram na sexta-feira, 21 de junho de 2024, a Rota Quadrante Rondon, uma das cinco Rotas de Integração Sul-Americana. A proposta do governo federal visava aumentar o comércio com países vizinhos por meio de rotas mais curtas e logisticamente menos custosas, diante da força das exportações e importações do país com a Ásia.
Os ministros prometeram investimentos na modernização do Aeroporto Comandante Nelson Dantas; melhoria das rodovias BR-070 e 174; no setor portuário e de navegação; nos despachos aduaneiros e em outras áreas. Porém, nada se fez, muito embora Fávaro, Tebet e Waldez Góes tivessem alardeado que bancos multilaterais financiariam em até 10 bilhões de dólares as obras previstas para as cinco rotas.
O faraonismo anunciado pelos ministros não passou de mais uma triste página da mentira contumaz para enganar os municípios. Porém, é possível que Cáceres alcance o necessário para seu desenvolvimento desde que o governo estadual passe a enxergá-la e que a bancada federal consiga o máximo possível em Brasília. O que não pode é a cidade continuar dormindo em berço esplêndido, sem gerar emprego, sem entrar no mercado internacional que é mote econômico mato-grossense e permanecer vexame no quesito ambiental urbano, sem capacidade de coletar e tratar o esgoto, que é lançado in natura nas águas do rio Paraguai.
A falácia dos ministros foi por conta da luta da região de Cáceres por uma rota para o Pacífico, via Vila Bela. Com esse objetivo Mato Grosso pavimenta 40 km num trajeto de 78 km até a fronteira. O restante nem Deus sabe quando será executado. A rodovia é parte da malha viária bioceânica, que tem um trecho de 120 km sem asfalto na Bolívia, da fronteira a San Ignacio Velasco. O percurso de Vila Bela ao porto de Arica, no Chile, é de 1.600 km. Por essa rota o tempo do transporte para a China e Japão das commodities mato-grossenses da região Oeste cai pela metade. O presidente do Comitê Pró Asfaltamento e Integração Brasil/Bolívia de Vila Bela da Santíssima Trindade é o empresário Pedro Lacerda.
As mesmas figuras que permanecem caladas no Congresso e na Assembleia, agora vão às redes sociais se desmanchando de amor por Cáceres, abraçando suas bandeiras. Isso soa canalhice. Busquem nos anais legislativos o desempenho (melhor seria falta dele) dessas figuras e verão que sempre foram zero à esquerda. A falta de legitimidade representativa estadual e federal contribui para o abandono de Cáceres. Em 2022 a região elegeu apenas o deputado estadual Valmir Moretto (Republicanos), que é domiciliado em Pontes e Lacerda. Moretto é figura do baixo clero e o único destaque que ganhou foi por sua recente comemoração junto a Mauro Mendes, por uma empresa de sua família ter sido contemplada com um contrato de 200 milhões para realizar obra na fronteira
Um hermano do outro lado da fronteira

O recém-empossado governador de Santa Cruz, Departamento boliviano que faz fronteira com a região de Cáceres, Juan Pablo Velasco, o JP Velasco, visitou Mato Grosso acompanhado pelo empresário Eraí Maggi Scheffer, que comprou extensas áreas para cultivar soja na Bolívia. JP Velasco é entusiasta da interligação com o Brasil e defende a pavimentação bioceânica no trecho boliviano. Ele foi recebido por seu colega Otaviano Pivetta e o convidou a visitar Santa Cruz de la Sierra.
JP Velasco assegurou a Pivetta que permitirá a concessão para grupos estrangeiros da carretera a ser pavimentada na Bolívia. Segundo o prefeito de Vila Bela, André Bringsken, um grupo chinês estaria interessado em pavimentar o trecho para explorar sua concessão – essa ligação interessa a China, pois as commodities que forem transportadas por ele terão destino àquele país.

Carga no sentido porto, não faltará. No trajeto inverso, há retorno de uma infinidade de containers com ferramentas e eletroeletrônicos, além de produtos chilenos e bolivianos, incluindo minério, tanto para Mato Grosso quanto para outras regiões. Mas, a cereja do bolo será a ureia, insumo imprescindível para o cultivo agrícola.
No entorno de Cochabamba, a Bolívia tem uma planta industrial com capacidade para produz diariamente até 2.100 toneladas de ureia. Essa área dista 900 km de Vila Bela, o que lhe confere ganho logístico sobre as rotas marítimas intercontinentais que garante o desembarque da ureia nos portos brasileiros.
Apesar da demonstração de interesse de JP Velasco, a Comissão de Relações Internacionais, Desenvolvimento e Aperfeiçoamento Institucional da Assembleia Legislativa não adotou nenhum posicionamento para ampliar o relacionamento mato-grossense com o vizinho boliviano.
Um mundo abandonado
Cáceres não tem quem grite por ela. Em 18 de novembro de 2021 o cacerense Claudinei Antônio Tavares, 57 anos, morreu na BR-070, no acidente de uma ambulância da prefeitura, que o trouxe a Cuiabá para uma sessão de hemodiálise e retornava para casa. A prefeita Eliene Liberato (Podemos) tomou conhecimento do fato, pois divulgou nota lamentando a morte, mas tanto na Assembleia quanto no Congresso nenhuma voz se ouviu.
Claudinei buscou hemodiálise em Cuiabá, pois o Hospital Regional Universitário Dr. Antônio Fontes não a oferecia; esse é o hospital escola para os alunos do curso de Medicina da Unemat, que ali fazem residência e internato.
Comodoro, distante 420 km de Cáceres, também não tem centro de hemodiálise. Os pacientes daquele município que fazem hemodiálise são transportados três vezes por semana, por ambulâncias da prefeitura, para Vilhena (RO), distante 115 km pela BR-364/174.
Em 30 de outubro de 2021 uma ambulância de Comodoro, que seguia para Vilhena, colidiu com uma picape que trafegava em direção oposta na BR-364/174. Desfecho: oito pacientes, dois acompanhantes e o motorista da prefeitura morreram; os dois ocupantes do outro veículo também faleceram.

O último Ranking da Universalização do Saneamento divulgado pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes) aponta que em Cáceres a água chega em 79,50% dos imóveis construídos, a coleta de esgoto é de 5,66% e seu tratamento não vai além de 9,48%. A cidade recolhe 87,07% dos resíduos sólidos e dá destinação correta a ele.
Nos últimos 50 anos, por falta de recursos orçamentários ou incompetência ou ainda a soma de tudo isso a prefeita Eliene Liberato e seus antecessores Francis Maris, Túlio Fontes, Ricardo Henry, Aloísio de Barros, Antônio Fontes, Walter Fidélis, Nana Farias e Ivo Scaff nada fizeram na área ambiental.
A industrialização é imprescindível, mas em paralelo é importante a execução de obras para oferecer boas condições de vida em Cáceres e eliminar a poluição que agride o rio Paraguai.
O queijo nosso de cada dia
O que acontece em Cáceres se repete na região.
Em Curvelândia, distante 60 km, a falta de renda entrava o crescimento. Dos 4.970 habitantes, 425 famílias com 2.125 componentes (42,75% da população) recebem o Bolsa Família.

Esse cenário não deveria existir, pois o morador tem o perfil do pequeno produtor rural, uma vez que o município foi instalado há 25 anos sobre uma área da antiga Reserva Nacional da Caiçara, do Incra e seus posseiros, uma vez recebendo assistência técnica da Empaer e tendo acesso às linhas especiais de crédito agrícola poderiam se manter sem a dependência de programa social; é preciso que se tenha em conta que dentre os moradores da cidade há os que são proprietários rurais e em tese não se enquadram ao Bolsa Família.
Curvelândia é um polo da pecuária leiteira e se destaca na produção de queijo. O prefeito Jadilson Alves de Souza estimula essa atividade e tenta divulgá-la nacionalmente. No entanto, se a ZPE entrar em operação efetivamente será mais fácil para Curvelândia ver seu queijo nas gôndolas dos supermercados mato-grossenses, do Brasil e em várias partes do mundo.
O mundo chamado Cáceres
A região de Cáceres é um cartão-postal. As belezas são muitas.
O encontro das águas dos rios Sepotuba e Cabaçal com o Paraguai no entorno da cidade, as fazendas Jacobina e Descalvados o Pantanal; em Vila Bela, as ruínas da matriz, a Serra Ricardo Franco, o rio Guaporé e o balé de seus botos; entre outros roteiros desde que explorados racionalmente com incentivos oficiais podem contribuir com o trade turístico para a geração de emprego e renda. Anualmente Cáceres promove o Festival Internacional de Pesca Esportiva (FIPe), que foi catalogado pelo Guinness Book como a maior competição de pesca embarcada em água doce do mundo; porém, não há política pública para o FIPe, que anualmente corre o pires em busca das manjadas – e suspeitíssimas – emendas parlamentares.
Em Porto Esperidião na fronteira e distante 100 km de Cáceres acontece anualmente a festa do Curussé, que é uma manifestação cultural de origem boliviana do período carnavalesco; nem mesmo na região as pessoas não ouvem falar em Curussé.
Em Vila Bela o Conjunto Aurora do Quariterê, que tem à frente o empresário e artista vila-belense Nazário Frazão, apresenta a Dança do Chorado, que nasceu entre o povo afrodescendente que habita a fronteira, mas essa manifestação não alcança dimensão nacional por falta de política pública.

A região vai ganhar mais um nicho de turismo: o religioso. Em 13 de junho o padre Nazareno Lanciotti será beatificado numa solenidade na Igreja Nossa Senhora do Pilar, em Jauru. O sacerdote morreu em 11 de fevereiro de 2001, vítima de latrocínio. A beatificação é a penúltima etapa para a Igreja Católica reconhecer que o beatificado é santo. Esse rito canônico seguramente arrastará católicos à romaria para Jauru.
O Mundo chamado Cáceres é formado por novas cidades, à exceção de Vila Bela, que data de 19 de março de 1752 e que foi construída observando uma planta elaborada em Portugal, para ser a primeira capital de Mato Grosso. As demais surgiram nas décadas de 1960 e nos anos 1970, sendo que três: Curvelândia, Conquista D’Oeste e Vale de São Domingos foram instaladas em janeiro de 2001. Dentre elas, Pontes e Lacerda e Comodoro registram crescimento acima da média regional.
A região enfrenta há décadas um grave problema de ordem étnica, ambiental e econômica. A Terra Indígena Sarareé, com 67 mil hectares, à margem da BR-174, nos municípios de Conquista D’Oeste, Nova Lacerda e Vila Bela é permanentemente invadida por garimpeiros de ouro, sem que o Estado consiga solucionar a situação. O cenário é o chamado enxuga gelo e a inércia da Funai, Ibama e do governo estadual não impede a prática criminosa que já devastou grande área e causa contaminação das águas por mercúrio.

O Mundo chamado Cáceres é formado por 20 municípios, que somam 303.449 habitantes, o correspondente a 7,80% da população mato-grossense. Sua base territorial é composta por Cáceres,91.767 habitantes, Araputanga (14.805), São José dos Quatro Marcos (17.721), Mirassol D’Oeste (27.637), Reserva do Cabaçal (2.020), Indiavaí (2.172), Figueirópolis D’Oeste (3.036), Jauru (7.881), Vale de São Domingos (2.892), Pontes e Lacerda (55.762), Glória D’Oeste (2.878), Porto Esperidião (10.088), Vila Bela da Santíssima Trindade (17.592), Conquista D’Oeste (3.908), Nova Lacerda (7.092), Comodoro (18.469), Curvelândia (4.970), Lambari D’Oeste (4.662), Rio Branco (4.449) e Salto do Céu (3.657). Essa configuração territorial não deverá sofrer alteração nos próximos anos. Os distritos com melhor estrutura são: Santo Antônio do Caramujo e Vila Aparecida (ambos de Cáceres), Adrianópolis (Vale de São

Domingos), Vila Cardoso e Pedro Neca (ambos de Porto Esperidião) e Santa Clara do Monte Cristo (Vila Bela), mas nenhum apto para ser município.
A fronteira de Mato Grosso com a Bolívia tem 983 km de extensão, com 730 km em solo firme, nos municípios de Poconé (31.203 habitantes), Cáceres, Porto Esperidião, Vila Bela e Comodoro; dentre esses municípios, Poconé é o único que não integra o polo de Cáceres.

A fronteira não conta com programa de cidadania e ocupação; a área é assolada pelo crime transnacional e dentre outros problemas enfrenta a falta de regularização fundiária, o que dificulta ainda mais sua exploração econômica. É intenso o vaivém para os dois lados e o comércio dito formiguinha movimenta a economia lá e aqui. Na área são muitas as famílias com cônjuges de ambos os países, são os casais chamados de brasilianos – brasileiras com bolivianos e bolivieiros – bolivianas com brasileiros. No entanto, o governo mato-grossense é indiferente quanto a isso e sequer qualifica servidores públicos para falarem o espanhol.
Em 2002, o então governador Dante de Oliveira criou o Grupo Especial de Fronteira (Gefron), com aquartelamento em Porto Esperidião e com circunscrição na fronteira e na faixa de fronteira. Com o Gefron o Exército encolheu no patrulhamento fronteiriço feito por seu batalhão em Cáceres e seus destacamentos. Ao assumir a função que é de competência das Forças Armadas, o governo recebe repasses financeiros, mas a segurança fica prejudicada, muito embora seja preciso reconhecer o desempenho e o profissionalismo dos oficiais e praças do Gefron. Acontece que o policial militar ao prender alguém traficando, o preso costuma dizer a ele que sabe onde é seu endereço e quem são seus familiares; essa realidade, em tese, mina a atuação do policial, o que não acontece com o Exército, que emprega efetivos oriundos de outras regiões.
Certa vez, há alguns anos, dei carona a um soldado do Gefron, que fazia a segurança de um posto de fiscalização do Indea, no município de Porto Esperidião e o levei até Cáceres; mostrei esse fato numa reportagem no Diário de Cuiabá. Ele me disse que ‘tirar serviço’ no Indea era bom, pois recebia do Indea 100 reais diários para tanto. Ou seja, essa prática não é nada salutar para a instituição Polícia Militar. A reportagem gerou polêmica, com várias manifestações de PMs.
A hora do voto

Assistam os vídeos dos pré-candidatos nas redes sociais. Ouçam o que dizem. Nenhum tem projeto para o Mundo chamado Cáceres e os que exercem cargos eletivos, em sua quase totalidade nunca se interessaram pela realidade cacerense.
A região de Cáceres vai às urnas em outubro. Tomara que antes do voto o eleitorado tenha oportunidade de conversar com os que disputam mandato. Que as demandas regionais lhe sejam apresentadas. Que os cacerenses cobrem das candidatas e dos candidatos que exercem mandatos sua relação com a região. A folha de serviços prestados pode ser tomada como parâmetro para o voto. Quem hoje promete mundos e fundos, mas nada fez até então, que receba o “não”; aqueles que eventualmente tenham feito algo, que seja levado em consideração.
Para a região de Cáceres faltam muitas ações, mas, sobretudo, responsabilidade cidadã na hora do voto, pelo qual se traça o caminho que tanto pode levar ao desenvolvimento quanto ao cenário onde a Princesinha do Paraguai se encontra, em parte pela omissão e conduta nada republicana de políticos cacerenses e dos municípios no entorno.
O Mundo chamado Cáceres elegeu o ex-prefeito de Reserva do Cabaçal, Ezequiel Fonseca, deputado estadual e deputado federal e ele foi um dos protagonista do mensalinho que o então governador Silval Barbosa admitiu em delação premiada; Ezequiel aparece em um vídeo ao lado do à época deputado estadual Zé Domingos Fraga acomodando dinheiro da suposta propina numa caixa de papelão. No mesmo escândalo também consta o nome do ex-prefeito de Araputanga e deputado estadual Airton Português; Português não aparece nas imagens, que no entanto captaram sua irmã Vanice Marques o representando; Vanice foi secretária estadual de Turismo. O Dr. Leonardo Albuquerque, de Cáceres, foi deputado estadual e deputado federal; relator da CPI que investigava o Ministério Público, Dr. Leonardo simplesmente não apresentou o relatório final, a legislatura chegou ao fim e o caso foi jogado na lata de lixo.O médico Pedro Henry, de Cáceres, foi deputado federal, renunciou ao cargo ao ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal a prisão por improbidade administrativa.
O histórico político do Mundo chamado Cáceres, como o próprio nome diz, é coisa do passado. É tempo de se costruir uma representação política compatível com a população que habita aquela importante região mato-grossense e de reflexão sobre os cargos majoritários.
O que acontece em Cáceres se repete na região.
A região de Cáceres é um cartão-postal. As belezas são muitas.