SÉRIE – Verso e reverso de Mato Grosso (10)
EDUARDO GOMES
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Décimo capítulo da Série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente.

Nunca em Mato Grosso um partido foi controlado por tanto tempo por um político quanto o MDB de Carlos Gomes Bezerra – que o presidiu desde tempos imemoriais até recentemente, quando se aposentou. Por isso, não lhe faltam apelidos: cacique, mandachuva, ditador, morubixaba, kamarada Bezerroff. Pra mim, ele é apenas o Bezerra, mas nem o respeito ao seu sobrenome me impede de vê-lo do modo que imagino que seja – Mão de Pilão. Desde 1970 acumulando disputas eleitorais e desde 1942 soprando velinhas de aniversário, ele é um verdadeiro jacarandá que sempre correu atrás de votos. A saída de cena de Bezerra criou um vazio de liderança partidária no velho e bom Manda Brasa, de tal modo, que sua nova presidente regional, a deputada estadual Janaína Riva, sinaliza em apoiar a direita radical do prisioneiro Jair Bolsonaro, figura sempre criticada por Bezerra, que o conheceu na Câmara dos Deputados, onde foram colegas ao longo de algumas legislaturas.
Bezerra é forte e não sabe mais chorar. A única vez que derramou lágrimas foi em 4 de novembro de 1941, quando nasceu na zona rural de Chapada dos Guimarães. Dona Celina Fialho Bezerra, a mãe, emocionada, comemorava o nascimento do filho. Aarão Gomes Bezerra, o pai, era fazendeiro, garimpeiro e não gostava de moleza. Seo Aarão se incomodou com o choro e mandou o recém-nascido calar a boca.
Chapada era pequena para o Carlos do seo Aarão. Cuiabá foi seu destino. Matriculado, militou no movimento estudantil secundarista, planejou sua criação e o liderou. Foi pra faculdade e conquistou canudo de advogado. De tendência socialista, filiou-se ao PTB. Com o bipartidarismo correu para o Manda Brasa – apelido popular carinhoso do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que fazia oposição ao governo militar que politicamente era representado pela Aliança Renovadora Nacional (Arena), que em Mato Grosso era chefiada por Filinto Müller, José Fragelli, Garcia Neto, Vicente Vuolo, Afro Stefanini, Gastão Müller, Emanuel Pinheiro, Fiote Campos, Valdon Varjão e outros.
Em 1969 o Brasil mergulhou nos anos cinzentos. Em dezembro do ano anterior o presidente Costa e Silva baixou o AI-5, que dava poderes ditadoriais aos donos do poder. Em Cuiabá, cidade governista, os militares saíram à caça dos adversários do regime. Bezerra era militante do PTB e foi levado preso para o 16º Batalhão de Caçadores (rebatizado 44º Batalhão de Infantaria Motorizado) em Cuiabá. A prisão foi curta, sem tortura física, mas pressão psicológica. No período a única filha de Bezerra adoeceu e ele não teve permissão para visitá-la, mas foi liberado para o sepultamento, porém com uma escolta para humilhá-lo. Na prisão Bezerra conheceu o capitão cuiabano Estevão Torquato, que era era do quadro de saúde. Bezerra e Estevão Torquato se tornaram amigos.
bEm 1970 Bezerra lançou-se candidato a deputado estadual e deu com os burros n’água. Mato Grosso era extremamente governista e elegeu 19 dos 20 deputados estaduais; a única vitória da oposição foi a de Jesus Gaeta (MDB), que tinha base eleitoral na área que em 1977 seria Mato Grosso do Sul. Quatro anos depois, Bezerra chegou à Assembleia Legislativa. Em 1978, destacou-se em Mato Grosso se elegeu deputado federal.
Quando foi eleito deputado estadual, Bezerra advogava em Rondonópolis, onde mais tarde montou a Cerâmica São Carlos. Nunca mais deixou aquela cidade. Na Câmara dos Deputados, tratou de costurar seu caminho para a prefeitura – e dali ao governo.
Em 1982 Bezerra saiu para a prefeitura tendo o médico Fausto Faria em sua chapa. Assumiu o mandato em 1983, antes mesmo da diplomação o prefeito estava em cena articulando sua candidatura ao governo em 1986. Além de militar, Estevão Torquato era político e chegou à Assembleia Legislativa, pela Arena, na patente de coronel, em 1978. Em 1982 quando disputou a Prefeitura de Rondonópolis Bezerra foi apoiado por Estevão Torquato, e em 1985, Bezerra o lançou vice na chapa de Dante para prefeito de Cuiabá.
Entre Bezerra e o Palácio Paiaguás havia um obstáculo. Um obstáculo, não; um grande obstáculo: Dante de Oliveira (PMDB). Dante era o Homem das Diretas, o deputado federal autor da famosa emenda das Diretas e queria ser governador.
A emenda de Dante foi submetida ao plenário da Câmara em 24 de abril de 1984, avançou pela madrugada de 25 de abril e não foi aprovada, mas despertou a consciência coletiva de que era hora de dizer basta à ditadura. Para ser aprovada pela Câmara e seguir para o Senado, a emenda precisaria de dois terços dos votos dos 320 deputados federais, o que não aconteceu. A propositura de Dante recebeu 298 votos, 65 parlamentares foram contrários e 113 não compareceram ao plenário.
Dante caiu pra cima. Era jovem e virou paixão política nacional. Conquistar o Governo de Mato Grosso seria a coisa mais lógica. Seria, mas aí entrou em cena a Mão de Pilão. Bezerra controlava o diretório do PMDB, sua bancada na Assembleia, o movimento comunitário – que estava nascendo – e a Imprensa, que regiamente comparecia à Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Rondonópolis. Em suma: Dante era forte fora, de Goiás pra lá.
Depois de um período sem eleição para prefeito nas capitais, nas cidades de fronteira e na zona de segurança nacional, elas voltaram a elegê-los em 1985. Bezerra montou cenário para Dante ser prefeito de Cuiabá e o fez com objetividade. Quando Dante deu fé já havia dinheiro abundante pra sua campanha e até o jingle “Dante sim / Dante já / O futuro prefeito de Cuiabá” estava gravado. O Homem das Diretas recebeu 61% dos votos e no começo de 1986 assumiu o Palácio Alencastro com seu vice, o coronel do Exército Estevão Torquato. Na noite da posse, Bezerra tinha 44 anos, era um frondoso jacarandá e não economizou nos goles de Antarctica. O dia clareou e o endereço mais nobre em Rondonópolis ainda festejava.
Pouco antes da campanha para prefeito, Dante estava no auge e apadrinhado (literalmente) pelo Dr. Ulysses Guimarães. Bezerra que transitava bem na cúpula do PMDB, da qual fazia parte, articulou um cargo para o futuro prefeito de Cuiabá no ministério de José Sarney. Dante foi para a disputa sabendo que deixaria o cargo para Estevão Torquato e que iria para Brasília em busca de holofotes. Foi realmente, virou ministro da Reforma e do Desenvolvimento Agrário, enquanto em Cuiabá, na prefeitura, Estevão Torquato, aliado de Bezerra, dava uma mãozinha para sua candidatura ao governo.
Assumindo o governo
No ano seguinte, Bezerra seria governador. Internamente os principais nomes do PMDB brigavam pela vaga de vice na chapa do partido. A palavra final foi a do candidato: escolhi o Edison. Isso mesmo, Bezerra escolheu o médico Edison Freitas de Oliveira, sem peso político e que não acalentava sonho com o poder, pra não lhe fazer sombra. A Mão de Pilão voltou à cena. Em 1970 Edison foi prefeito de Jales (SP) pelo MDB e mantinha relação de amizade com Orestes Quércia, um dos caciques paulistas do partido.
A escolha de Bezerra o livrou do canibalismo partidário mato-grossense e o aproximou ainda mais de seus correligionários em São Paulo.
Em maio de 1990 Bezerra deixou o governo pra concorrer sem sucesso ao Senado. Edison o substituiu, mas um acidente aéreo em Chapada dos Guimarães o levou a renunciar.
Com a saída de Edison, o presidente da Assembleia Legislativa, Moisés Feltrin, assumiu constitucionalmente o Palácio Paiaguás, até a posse do novo governante, Jayme Campos – agora senador pelo União Brasil.
Fracasso administrativo
O governo de Bezerra não agradou. Em 1990 o PFL elegeu Jayme governador, e seu irmão, Júlio Campos, senador. Os peemedebistas não conseguiram nem uma cadeira na Câmara dos Deputados. Na transmissão da faixa governamental de Moisés Feltrin para Jayme, o funcionalismo acumulava folhas salariais em aberto e fornecedores do governo estavam à ver navios.
Dom Pedro Casaldáliga, bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, foi um dos homens fortes do governo Bezerra, que tinha discurso socialista, apoiava movimento de trabalhadores rurais e invasões de propriedades rurais e urbanas em Cuiabá, mas que ao mesmo tempo prestigiava o empresariado que atua na construção de obras públicas.
Uma vez Mão de Pilão, sempre Mão de Pilão. Em 1992 Bezerra voltou a disputar a Prefeitura de Rondonópolis. Venceu tendo em sua chapa o viceRogério Salles. Mal assumiu o município, tratou de pegar a estrada para aplainar sua candidatura ao Senado em 1994, o que aconteceu. Sua eleição foi tranquila.

RASTEIRA ?– Em 1998, quando havia cumprido apenas quatro dos seus oito anos de mandato, Bezerra lançou-se à reeleição, numa dobradinha com Júlio Campos (PFL), também senador, porém em final de mandato e que concorria ao governo. Registros históricos dão conta de que Júlio e Bezerra morreram abraçados, mas a verdade é outra. Dante sorriu vitorioso à espera da chave do Palácio Paiaguás, onde permaneceria por mais quatro anos, já que fora eleito ao cargo pela primeira vez em 1994.
A dobradinha de Bezerra com Júlio Campos, na verdade foi uma rasteira política em Júlio Campos. Dante estava no PDT e realizava um governo com o slogan da “Casa arrumada”, que não era palatável para muitos. A sós, muito a sós mesmos, Bezerra e Dante prepararam uma laçada para Júlio Campos, mais ou menos assim: Júlio Campos, pelo PFL, seria candidato a governador com Bezerra pelo PMDB para o Senado. A dobradinha soava estranho porque os dois sempre estiveram em lados opostos, e Bezerra ainda teria mais quatro anos de mandato no Senado. À época, comentários ironizavam o casório político dos dois, dizendo que a dinheirama teria corrido solta. Bezerra fingiu não ver as críticas e permaneceu impassível diante do julgamento dos primeiros momentos da história. Em resumo, ele empurrou Júlio Campos para uma derrota acachapante diante de Diante, que foi eleito com Rogério Salles vice-governador, enquanto Bezerra permanecia no Senado. Rogério Salles é amigo de Bezerra, foi seu vice-prefeito em 1992. Não é preciso dizer mais nada. Até hoje, Júlio Campos ainda não entendeu o papel ridículo que fez.
Em 2002, ainda jacarandá, aos 61 anos, Bezerra tentou a reeleição ao Senado, num pleito onde haviam duas vagas, mas perdeu para Jonas Pinheiro (PFL) e Serys Slhessarenko (PT). Foi pra casa sem mandato. Sua dobradinha com Júlio Campos, para salvar o PMDB,não foi absorvida e ele não poderia assumir que fez uma jogada de mestre: preferiu o silêncio e enfrentou um julgamento político impiedoso. Caiu para cima.
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Em 2006, 2010, 2014 e 2018 Bezerra acumulou vitórias à Câmara dos Deputados. A cada eleição, mais idade, mas a disposição continuava, só que menos intensa com o passar dos anos. No horário eleitoral, um jingle nordestino o enalteceu nas disputas: “O Bezerra é firme / O Bezerra é forte…“.
Câmara é lugar conhecido pelo casal Bezerra. Em 1994 Bezerra disputou o Senado e lançou sua mulher Teté deputada federal pelo PMDB e ela elegeu-se. Quatro anos depois, Teté se reelegeria. Em 2002, Bezerra perdeu a eleição ao Senado e Teté foi derrotada para a Câmara, mas ficou com a primeira suplência – o deputado federal Rogério Silva foi cassado por compra de votos e Teté assumiu sua cadeira.
Em 2006, Teté saiu do cenário eleitoral para Bezerra se eleger deputado federal. Em 2010, Silval Barbosa que foi eleito vice-governador de Blairo Maggi em 2006, governava, pois o titular deixou o cargo para concorrer e vencer o pleito ao Senado.
Em 2010 Silval disputou mandato de governador vencendo a eleição. Naquele ano, Teté elegeu-se deputada estadual e mais tarde seria secretária de Turismo de Silval.
Em 2014 o PT aliou-se ao PMDB lançando o petista Lúdio Cabral ao governo com Teté de vice. A eleição foi vencida em primeiro turno por Pedro Taques (PDT) com o vice Carlos Fávaro (PP).

SUSTOS – Em fevereiro e maio de 2018 Bezerra passou mal e baixou enfermaria em Cuiabá. Da segunda vez foi levado a uma UTI do Hospital Santa Rosa. O jacarandá permanecia firme, mas abalado. Em outubro, Bezerra tomou o medicamento que mais lhe faz bem: uma injeção de 59.155 votos e garantiu mais um mandato à Câmara.
INDIGESTÃO– Bezerra é amigo do ex-presidente Michel Temer, e esse nomeou Teté presidente da Embratur. Em março e 2019 o presidente Jair Bolsonaro a demitiu alegando que Teté ofereceria um jantar de R$ 290 mil a operadores de turismo. Teté jura que entregou o cargo e Bezerra diz amém, mas Bolsonaro bate na mesa e sustenta que foi demissão mesmo.
Até tu, Marcos Valério?
Derrotado ao Senado em 2002, Bezerra continuou no poder. O presidente Lula da Silva governava com apoio do PMDB, que é um partido de caciques regionais – todos bem prestigiados. Tanto assim, que Lula nomeou Amir Lando (PMDB) de Rondônia, ministro da Previdência Social, e Bezerra presidente do INSS.
Uma força-tarefa da Procuradoria-Geral da República com a Polícia Federal e outros órgãos de investigação teria descoberto que Lando e Bezerra foram nomeados para facilitarem o repasse de um bilhão de reais ao PT, numa jogada que dentre outros envolveria o publicitário Marcos Valério e o presidente do Dataprev, José Jairo Ferreira Cabral – que se apresentava na condição de amigo do Lula.
Como quase tudo no Brasil acaba no abafa, o suposto esquema na Previdência via INSS – também terminou assim – muito embora tivesse, segundo as investigações, beneficiado o banco BMG – ligado ao PT – que foi contemplado com um verdadeiro filé financeiro: o direito de oferecer empréstimo consignado aos servidores federais.
Até hoje autoridades ainda procuram o fio da meada desse escândalo, que é um calo na biografia do jacarandá.
RESUMO – Em 2022 Bezerra concorreu mais uma vez para deputado federal. Seu MDB elegeu Juarez Costa, com 77.528 votos e Emanuelzinho Pinheiro com 77.720 votos; ele recebeu 45.358 votos ficando na primeira suplência, mas continuou à frente do MDB fazendo o enfrentamento democrático a Bolsonaro, para o qual seu partido agora sinalizava com afagos.
