Eleições de 2024 e corrupção racham a coligação PL e MDB
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
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O que foi planejado para ser um baile de debutantes está um passo de se tornar uma dança de bruxas. Este é o cenário do PL em Mato Grosso, depois que o senador e candidato ao governo, Wellington Fagundes (PL), e sua nora, a deputada estadual e candidata ao Senado, Janaína Riva (MDB), costuraram uma coligação água e óleo, o que criou um fosso entre os bolsonaristas, de um lado, e Wellington e Janaína Riva, de outro. A gota d’água que faltava para a ruptura pode ter sido a ausência de Wellington no lançamento da campanha ao Senado do deputado federal Zé Medeiros (PL), na noite da quinta-feira (17), no Centro de Eventos do Pantanal, em Cuiabá.
No ano passado, o PL planejava lançar o empresário Odílio Balbinotti ao governo, com Zé Medeiros e Antônio Galvan ao Senado; Galvan por algum partido aliado, pois a prioridade da legenda era para Zé Medeiros. Em meio a tudo isso, Wellington buscava espaço para ser o nome do governo, mas sofria resistência do ‘fogo-amigo’ que o rotulava – e rotula de melancia. Prevaleu o nome de Wellington, que tem apoio do presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto.
Pré-candidato Wellington abriu o leque familiar e levou Janaína Riva com seu MDB para uma aliança com o PL. Com essa formação, Galvan foi a primeira vítima, pois o partido de Jair Bolsonaro teria que pedir votos para Janaína Riva.

Zé Medeiros engoliu em seco a chegada de Janaína Riva, mas os prefeitos de grandes municípios administrados pelo PL não a aceitaram por conta de seu histórico político em 2024. Vejamos:
Janaína Riva apoiou Kalil Baracat (MDB) para prefeito de Várzea Grande, e a prefeita Flávia Moretti (PL) não a engole.
Janaína Riva foi o principal nome na campanha do deputado estadual Thiago Silva (MDB) para prefeito de Rondonópolis, no pleito vencido por Cláudio Ferreira (PL), e Cláudio não compõe com ela.
Janaína Riva em Primavera do Leste apoiou para prefeito Ademir Goes (União), que era vice-prefeito de Léo Bortolin (MDB); o vencedor foi Sérgio Machnic (PL), que não aceita aproximação com ela.
Em Cuiabá Janaína Riva lançou Domingos Kennedy (MDB) para prefeito, e no segundo turno não apoiou o vencedor Abílio Brunini (PL) optando por Lúdio Cabral (PT).
Os prefeitos acima e outros da mesma legenda anunciaram apoio a Otaviano Pivetta (Republicanos) ao governo ao invés de apoiarem Wellington, mas mantiveram lealdade às candidaturas de Flávio Bolsonaro e Zé Medeiros. A semeadura política de Janaína Riva em 2024 é colhida agora nos municípios.
Numa tentativa de conter a debandada dos prefeitos, o presidente regional do partido, Ananias Filho, falou em expulsões e decretou intervenção nos diretórios municipais em Rondonópolis e Várzea Grande, mas não conteve a manifestação nem cessou o descontentamento com Janaína Riva.
Sem discurso
A coligação do PL com o MDB tomou o discurso dos liberais, que é a defesa da direita representada por Jair Bolsonaro e o enfrentamento à corrupção simbolizada pelo presidente Lula, ao qual o bolsonarismo lançou a pecha de Luladrão.
Analistas avaliam que nenhum discurso ideológico se sustenta no PL por sua coligação com o MDB que nacionalmente foi concubina dos governos Lula e Dilma, e em Mato Grosso sempre esteve junto com o PT.
Como criticar a corrupção no plano nacional e permanecer calado sobre ela em Mato Grosso?
Janaína Riva montou uma chapa para o Senado e recentemente trocou seus suplentes dando lugar a Danilo Berndt Trento (primeiro) e Rafael Yamada Torres (segundo), numa manobra que não foi precedida por anúncio, ato público, entrevista coletiva sobre os nomes, nada… Em silêncio, os dois novos integrantes da chapa passaram a constar nos registros do TRE.
Trento foi ouvido e indiciado em CPIs no Congresso por improbidade administrativa e outros crimes, inclusive sobre suspeita de sua ligação com o PCC para lavagem de dinheiro.
Torres é filho de Wanderlei Fachetti Torres, o Wanderleizinho da Trimec, empresa que esteve envolvida em escândalos na execução de obras quando do ciclo do poder do então governador Silval Barbosa e José Riva – pai de Janaína Riva e réu confesso numa delação premiada homologada pelo desembargador Marcos Machado (TJ) por um desvio de 175 milhões.
Torres foi sócio de Antônio Barbosa, o Toninho, irmão de Silval, em um garimpo no município de Nossa Senhora do Livramento. Wanderleizinho da Trimec também foi sócio de Toninho Barbosa.
A Trimec teve lugar de destaque entre as empresas que contraram obra de pavimentação rodoviária no governo de Silval, período em que Cinésio Nunes foi secretário de Transporte e Pavimentação Urbana, e de Infraestrutura e Logística. Uma das obras foi a pavimentação da MT-100 no trecho de 51,8 km entre Barra do Garças e Araguaiana; o contrato recebeu aditivos e o Ministério Público Estadual instaurou inquérito civil para apurar superfaturamento e não execução total do contrato. Esse escândalo é parte da delação premiada de Silval, que foi homologada.
Cinésio Nunes foi indicado aos cargos por Wellington, do qual permanece assessor.
REALIDADE – Os suplentes de Janaína Riva e sua condição de filha e herdeira política de José Riva deixariam constrangidos os políticos do PL que criticassem a corrupção nos governos petistas. É a máxima: Não se fala em corda na casa de enforcado.
O amanhã
O amanhã do PL é uma incerteza. O racha sobre a candidatura de Wellington é irreversível, a julgar pelo que dizem os prefeitos que não aceitaram a coligação com o MDB. Zé Medeiros terá que enfrentar internamente na coligação a concorrência predadora de Janaína Riva apoiada pelo sogro. Galvan (Avante) ficou na curva do tempo. Jair Bolsonaro está preso, e se tivesse em liberdade o som que se ouviria em Mato Grosso seria o da orquestra abrilhantando o baile de debutantes.